ÉLDER JEFFREY R. HOLLAND
Do Quórum dos Doze Apóstolos
Por meio de palavras e ações, Jesus estava procurando revelar
e dar-nos a conhecer a verdadeira natureza de Seu Pai, o nosso Pai Celestial.
Dentre os magníficos propósitos da vida e ministério
do Senhor Jesus Cristo, um aspecto grandioso dessa missão freqüentemente
deixa de ser lembrado. Seus seguidores não compreenderam plenamente
na época, e muitas pessoas do mundo cristão moderno ainda não
o compreendem, mas o próprio Salvador falou a respeito disso repetidas
vezes e de modo muito enfático. É a grandiosa verdade de que,
em tudo que Jesus veio dizer e fazer, inclusive e especialmente em Seu sofrimento
e sacrifício expiatório, mostrou-nos quem é e como é Deus,
o nosso Pai Eterno, e quão completamente dedicado Ele é a Seus
filhos de todas as eras e nações. Por meio de palavras e ações,
Jesus estava procurando revelar e dar-nos a conhecer a verdadeira natureza
de Seu Pai, o nosso Pai Celestial.
Ele fez isso, pelo menos em parte, porque tanto naquela época quanto
hoje todos precisamos conhecer a Deus mais plenamente para amá-Lo
mais profundamente e obedecer a Ele de modo mais completo. Tal como declaram
tanto o Velho quanto o Novo Testamentos: "O primeiro de todos os mandamentos é (...)
amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração,
e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças;
este é o primeiro [e grande] mandamento".1
Não é de admirar, pois, que o Profeta Joseph Smith tenha ensinado: "O
primeiro princípio do evangelho é conhecer com certeza o caráter
de Deus. (...) Quero que todos vocês O conheçam", disse
ele, "e se familiarizem com Ele.2 (...) Precisamos ter uma
noção correta de suas (...) perfeições
e atributos, (...) [uma admiração] pela excelência
de [Seu] caráter".3 Portanto, a primeira frase
que proferimos na declaração de nossa fé é: "Cremos
em Deus, o Pai Eterno".4 O mesmo fez Jesus, de modo muito
enfático. Até mesmo ao reconhecer Seu próprio papel único
no plano divino, o Salvador insistiu neste preâmbulo fervoroso: "E
a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único
Deus verdadeiro (...)".5
Após gerações de profetas terem tentado ensinar à humanidade
a vontade e o caminho do Pai, geralmente com pouco sucesso, Deus, em Seu
empenho máximo de fazer com que O conhecêssemos, enviou à Terra
o Seu Filho Unigênito e perfeito, criado à Sua própria
imagem e semelhança, para viver e servir entre os mortais nos rigores
da vida diária.
Vir a Terra com tamanha responsabilidade, a de representar Eloim — falar
o que Ele falaria, julgar e servir, amar e advertir, demonstrar compaixão
e perdoar, como Ele o faria — é um dever de proporções
tão gigantescas que está muito além de nossa compreensão.
Mas com lealdade e determinação que seriam a característica
de um filho divino, Jesus compreendeu essa tarefa e cumpriu-a. Então,
quando o louvor e a honra começaram a vir, Ele humildemente dirigiu
todas as honras ao Pai.
"O Pai (...) é quem faz as obras", disse Ele com sinceridade. "(...)
o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não
vir fazer o Pai; porque tudo quanto [o Pai] faz, o Filho o faz igualmente".6 Em
outra ocasião Ele disse: "Eu falo do que vi junto de meu Pai.
(...) nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou. (...)
eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade
daquele que me enviou".7
Farei hoje minha declaração sincera a respeito de Deus, nosso
Pai Eterno, porque algumas pessoas têm uma concepção
perturbadoramente errônea Dele em nossos dias. Entre essas pessoas
há uma tendência de sentirem-se distantes do Pai, até mesmo
isoladas Dele, se é que chegam a crer Nele. E se crêem, muitas
pessoas em nossos dias dizem que se sentiriam à vontade nos braços
de Jesus, mas ficam inseguras quanto a seu encontro com um Deus rigoroso.8
Por causa de uma interpretação errônea (e certamente
em alguns casos uma tradução errada) da Bíblia, essas pessoas
têm a idéia de que Deus, o Pai, e Jesus Cristo agem de modo
muito diferente, apesar de que tanto no Velho quanto no Novo Testamento,
o Filho de Deus sempre é o mesmo, agindo como sempre fez sob a direção
do Pai, que também é o mesmo "ontem, hoje e para sempre".
9
Ao refletir a respeito dessas concepções errôneas, damo-nos
conta de que uma das notáveis contribuições do Livro
de Mórmon é sua visão constante e perfeitamente coerente
de Deus durante todo esse grandioso livro. Nele não existe a falha
de continuidade que vemos entre Malaquias e Mateus, não há uma
pausa para se mudar de ponto de vista teológico, não há uma
interpretação errônea de Deus, que trabalha ansiosamente,
com amor e fidelidade em todas as páginas daquele registro, desde
o seu início na época do Velho Testamento até seu fim na época
do Novo Testamento. Sim, com o intuito de devolver ao mundo a sua Bíblia
e uma visão correta de Deus, temos no Livro de Mórmon uma visão
uniforme de Deus em toda a Sua glória e bondade, toda a Sua riqueza
e complexidade, incluindo, em especial, uma aparição pessoal
de Seu Filho Unigênito Jesus Cristo.
Quão gratos somos por todas as escrituras, em especial pelas
escrituras da Restauração, que nos ensinam a respeito da grandiosidade
de todos os membros da Trindade. Quão emocionados ficaríamos se, por
exemplo, todo o mundo recebesse e aceitasse a visão do Pai, descrito
de modo tão tocante na Pérola de Grande Valor.
Ali, em meio a uma grande visão da humanidade que lhe fora aberta
pelos céus, Enoque, observando as bênçãos e dificuldades
da mortalidade, voltou o olhar para o Pai e ficou admirado de vê-Lo
chorando. Ele disse, maravilhado e admirado, ao mais poderoso Ser do universo: "Como é que
podes chorar (...) sendo que és justo [e] misericordioso e bondoso
para sempre; e (...) paz (...) é a habitação de teu
trono; e a misericórdia irá adiante de tua face e não
terá fim; como é que podes chorar?"
Observando os eventos de quase todos os dias, Deus respondeu: "Olha
estes teus irmãos; eles são a obra de minhas próprias
mãos (...) dei mandamento que se amassem uns aos outros e que escolhessem
a mim, seu Pai; mas eis que eles não têm afeição
e odeiam seu próprio sangue (...) portanto não deverão
os céus chorar, vendo que eles sofrerão?"10
Essa cena única e tocante ensina mais sobre a verdadeira natureza
de Deus do que qualquer tratado de teologia poderia transmitir. Ela também
ajuda-nos a compreender de modo muito mais profundo aquele vívido momento
na alegoria da oliveira no Livro de Mórmon em que, depois de cavar
e adubar, aguar e retirar as ervas daninhas, podar, transplantar e enxertar,
o grande Senhor da vinha lança ao chão a sua pá e sua
tesoura de poda e chora, clamando a quem queira ouvir: "(...) Que mais
poderia ter eu feito pela minha vinha?"11
Que imagem inesquecível do envolvimento de Deus em nossa vida! Que angústia
de um Pai que vê Seus filhos rejeitarem a Sua pessoa e "o evangelho
de Deus" que Ele enviou!12 Quão fácil é amar
alguém que nos ama de modo tão especial!
Evidentemente o afastamento ao longo dos séculos da crença
em um Pai tão perfeito e carinhoso tornou-se ainda maior por causa
dos credos criados pelos homens ao longo de muitas gerações
equivocadas, que descrevem Deus de diversas formas: desconhecido e incompreensível,
sem formas, partes ou paixões, intangível e inatingível,
que está em
toda parte e ao mesmo tempo em parte alguma. Sem dúvida isso não
descreve o Ser que contemplamos pelos olhos daqueles profetas. Tampouco condiz
com um Jesus de Nazaré vivo, que respirava e tinha um corpo físico,
que era e é "(...) o resplendor da sua glória, e a expressa imagem de [seu
Pai]".13
Nesse sentido, Jesus não veio para melhorar a visão que Deus
tinha do homem, mas, sim, para melhorar a visão que o homem tinha
de Deus e para suplicar-lhes que amassem seu Pai Celestial, como Ele sempre
os amou e sempre os amará. Os homens tiveram oportunidade de conhecer
o plano de Deus, o poder de Deus, a santidade de Deus, sim, e até a
ira e o julgamento de Deus. Mas o amor de Deus, a profundidade de Sua devoção
a Seus filhos, eles ainda não conheciam plenamente — até que
Cristo veio.
Portanto, ao alimentar o faminto, curar o enfermo, repreender a hipocrisia,
rogar pela fé, Cristo estava-nos mostrando o caminho para o Pai, Aquele
que é "misericordioso e compassivo, lento para irar-se, paciente
e cheio de bondade".14 Em Sua vida e especialmente em Sua
morte, Cristo estava declarando: "Esta é a compaixão de Deus que
vos manifesto, bem como a minha própria compaixão". Na
manifestação do perfeito amor do Pai pelo Filho perfeito, em
Seu sofrimento mútuo e na tristeza que compartilhavam pelos pecados
e sofrimentos de todos nós, vemos o significado pleno desta declaração: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito,
para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a
vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse
o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele."15
Presto hoje meu testemunho de um Deus pessoal e vivo, que nos conhece pelo
nome, que ouve nossas orações e nos ama eternamente como filhos
de Seu espírito. Testifico que em meio às tarefas incrivelmente complexas
inerentes ao universo, Ele busca nossa felicidade e segurança individual
acima de todas as preocupações divinas. Fomos criados à Sua
própria imagem e semelhança,16 e Jesus de Nazaré,
Seu Filho Unigênito na carne, veio à Terra como a perfeita manifestação
mortal de Sua grandiosidade. Além do testemunho dos antigos, temos
também o milagre moderno de Palmyra, a aparição de Deus,
o Pai, e Seu Filho Amado, o Salvador do mundo, ao menino profeta Joseph Smith.
Presto testemunho dessa aparição e, fazendo minhas as palavras
daquele profeta, declaro: "Nosso Pai Celestial é mais liberal
em Seus conceitos e mais generoso em Suas misericórdias e bênçãos
do que estamos dispostos a crer ou receber; (...) Deus não tolera
o pecado [nem com o menor grau de tolerância], (...) mas quanto
mais nos achegamos ao nosso Pai Celestial, mais haverá em nós
a disposição de sermos misericordiosos com as almas que estão
perecendo; sentiremos o desejo de levá-las sobre nossos ombros e suportar
em nossas costas o peso de seus pecados".17
Presto testemunho de um Deus que tem esses ombros. E no espírito do santo
apostolado, digo o mesmo que alguém que possuiu esse ofício no passado: "Nisto
está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas
em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação
pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, também nós
devemos amar uns aos outros"18e amá-Lo para sempre,
oro no sagrado nome de Jesus Cristo. Amém.
NOTAS
1. Marcos 12:29-30; ver também Mateus 22:37-38; Deuteronômio
6:5.
2. History of the Church, volume 6, p. 305.
3. Lectures on Faith (1985),
pp. 38, 42.
4. Regras de Fé 1:1.
5. João 17:3.
6. João 14:10; 5:19-20.
7. João 8:38, 28; 6:38.
8. Ver William Barclay, The Mind of Jesus (1961),
particularmente o capítulo "Looking at the Cross" (Olhando
para a Cruz) para uma abordagem dessa
tendência moderna.
9. Por exemplo: 1 Néfi 10:18; 2 Néfi 27:23;
Morôni 10:19;
D&C 20:12.
10. Moisés 7:29-33, 37.
11. Jacó 5:41; ver também
os vers. 47, 49.
12. Romanos 1:1.
13. Hebreus 1:3; Ver também II Coríntios
4:4; Colossenses 1:15.
14. Lectures on Faith, (1985), p. 42.
15. João 3:16-17.
16. Ver Gênesis 1:26-27; Moisés
2:26-27.
17. Ensinamentos
do Profeta Joseph Smith, sel. Joseph Fielding Smith
(1976), pp. 250-251, 235.
18. I João 4:10-11.