Verdade e Tolerância

Serão do SEI para Jovens Adultos • 11 de setembro de 2011 • Universidade Brigham Young


 

Meus caros jovens irmãos e irmãs, Kristen e eu nos sentimos privilegiados por estar com vocês nesta importante ocasião. Estamos reunidos no dia 11 de setembro, o aniversário de dez anos de um acontecimento que influenciou profundamente nossa vida e nosso modo de pensar, e que continuará a fazê-lo ainda por muitos anos. É uma data que estará para sempre associada às Torres Gêmeas.

Sinto-me inspirado a falar nesta noite sobre outra dupla de gêmeos, os conceitos gêmeos da Verdade e da Tolerância. Esses assuntos não foram escolhidos por serem exclusivamente uma preocupação sua, como jovens adultos, tais como são o namoro, o convívio social e o casamento que descrevi para vocês, há alguns anos. Minha abordagem da Verdade e da Tolerância deve motivá-los a ponderar e ensinar esses dois temas gêmeos, porque eles são essenciais para a geração que se forma, da qual vocês são os membros mais velhos.

Cremos na Verdade Absoluta

Em primeiro lugar, a Verdade. Cremos na verdade absoluta, inclusive na existência de Deus e no certo e no errado estabelecidos por Seus mandamentos. Cantamos:

Pois que tudo se acabe, a terra e o céu,
Sempre resta a verdade que é luz para mim,
Dom supremo da vida será!1

Nas palavras do Presidente Joseph F. Smith: “Cremos em toda verdade, não importa a que se assunto ela se refira. Nenhuma seita ou denominação religiosa do mundo possui um único princípio de verdade que não aceitemos ou que rejeitemos. Estamos dispostos a receber toda verdade, de qualquer fonte que provenha; porque a verdade persistirá, a verdade resistirá.”2

A existência e a natureza da verdade estão entre as questões fundamentais da vida mortal. Jesus disse ao governador romano Pilatos que Ele tinha vindo ao mundo para “prestar testemunho da verdade”. “O que é a verdade?” replicou o descrente (ver João 18:37–38). Antes disso, o Salvador havia declarado: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida” (João 14:6). Em revelação moderna, Ele afirmou: “A verdade é o conhecimento das coisas como são, como foram e como serão” (D&C 93:24).

Meus jovens irmãos e irmãs, sabemos que a existência de Deus e a existência da verdade absoluta são fundamentais para a vida nesta Terra, quer as pessoas acreditem nisso ou não. Também sabemos que o mal existe, e que algumas coisas são simples, grave e eternamente erradas. Vocês, a quem me dirijo, fogem do mal e buscam a verdade. Cumprimento-os por seus atos justos e seus desejos justos. Como Apóstolo do Senhor Jesus Cristo, procuro ajudá-los a fazer escolhas certas num mundo que está cada vez mais polarizado entre a crença e a descrença, entre o bem e o mal.

Os relatos chocantes de roubos e mentiras em grande escala nas sociedades civilizadas divulgados nos últimos dois meses sugerem um vácuo moral em que muitos perderam o senso do certo e do errado. Os grandes tumultos e pilhagens do mês passado na Inglaterra e o escandaloso caso das fraudes cometidas por professores nos exames governamentais das escolas de curso fundamental e médio de Atlanta, Geórgia, fizeram muitos questionarem se estamos perdendo o alicerce moral que os países ocidentais receberam de seu legado judaico-cristão.3

Cuidado com o Relativismo Moral

Fazemos bem em preocupar-nos com nosso alicerce moral. Vivemos num mundo em que um número cada vez maior de pessoas influentes ensinam e colocam em prática a crença de que não há um certo ou errado absolutos, que toda autoridade e todas as regras de comportamento são decisões humanas que podem prevalecer sobre os mandamentos de Deus. Muitos até questionam a existência de Deus.

A filosofia do relativismo moral, que considera cada pessoa livre para escolher por si mesma o que é certo ou errado, está se tornando o credo oficial de muitos, na América e em outras nações ocidentais. Em nível extremo, certos atos maléficos que costumavam ser localizados e encobertos como ferida, hoje são legalizados e exibidos como estandarte. Persuadidos por essa filosofia, muitos da geração que se forma — jovens e jovens adultos — deixam-se levar por prazeres egoístas, tatuagens pagãs e piercings, linguagem profana, roupas sem recato, pornografia, desonestidade e degradante indulgência sexual.

No tocante à crença fundamental no certo e no errado há um alarmante contraste entre a geração mais velha e a mais nova. De acordo com os dados de uma pesquisa feita há duas décadas, “79 por cento dos adultos americanos acreditavam que ‘há diretrizes claras sobre o que é certo e o que é errado que se aplica a todos, independentemente da situação’”.4 Em contraste, uma pesquisa mais recente realizada entre formandos universitários sugere que “três quartos deles acredita que a diferença entre o certo e o errado é relativa”.5

Muitos líderes religiosos ensinam a existência de Deus, como o Supremo Legislador, por cuja ação certas condutas são absolutamente corretas e verdadeiras, e outras são absolutamente erradas e falsas.6 Os profetas da Bíblia e do Livro de Mórmon previram esta época, na qual os homens seriam “mais amigos dos deleites do que amigos de Deus” (II Timóteo 3:4) e na qual os homens realmente negariam Deus (ver Judas 1:4; 2 Néfi 28:5; Morôni 7:17; D&C 29:22).

Nessa situação conturbada, nós que acreditamos em Deus e no corolário do certo e do errado absolutos temos o desafio de viver num mundo sem Deus e cada vez mais amoral. Nessas condições, todos nós — e especialmente vocês da geração que se forma — temos o dever de erguer a voz e afirmar que Deus existe e que há verdades absolutas estabelecidas por Seus mandamentos. Ao fazê-lo, nós, santos dos últimos dias, confiamos na verdade declarada pela letra do hino que citei.

De Sião as muralhas resistem ao mal
E seus firmes baluartes jamais ruirão,
A verdade eterna será.7

Ao encarar esta congregação de jovens determinados, sei que alguns de vocês estão se perguntando por que abordo o que lhes é óbvio, e o que vocês supõem serem óbvio para outros. Relembro os dados da pesquisa que citei, sugerindo que cerca de três quartos de todos os formandos universitários acreditam que a diferença entre o certo e o errado é relativa.

Decidi falar sobre a verdade porque os professores das escolas, faculdades e universidades estão ensinando e praticando a relatividade moral. Isso está moldando a atitude de muitos jovens americanos que estão assumindo seu papel de professores de nossos filhos e de formadores da opinião pública, por meio da mídia e dos entretenimentos populares. Essa filosofia do relativismo moral nega o que milhões de cristãos, judeus e muçulmanos fervorosos consideram fundamental, e essa negação cria sérios problemas para todos nós. O que nós, crentes, devemos fazer a esse respeito introduz o segundo de meus temas gêmeos: a Tolerância.

Tolerância

A tolerância é definida como uma atitude cordial e justa para com as opiniões e práticas alheias ou para com as pessoas que as adotam ou praticam. Como os meios de transporte e comunicação modernos nos aproximaram bastante de diversos povos e ideias, temos maior necessidade de tolerância. Quando eu era jovem adulto, há cerca de 60 anos, era somente em livros e revistas que a maioria dos americanos tomavam ciência de grandes diferenças de cultura, valores e povos. Hoje vivenciamos essas diferenças na televisão e na Internet, e com frequência nas interações pessoais em nossa vizinhança e no mercado.

Essa exposição maior à diversidade tanto nos enriquece a vida quanto a complica. Somos enriquecidos pelo convívio com diversas pessoas, o que nos faz lembrar a maravilhosa diversidade dos filhos de Deus. Mas a diversidade de culturas e valores também nos desafia a identificar o que pode ser adotado como condizente com nossa cultura e valores do evangelho, e o que não pode. Desse modo, a diversidade aumenta o potencial de haver conflitos e exige que estejamos mais cientes da natureza da tolerância. O que é a tolerância, quando ela se aplica e quando não se aplica?

Essa é uma questão mais difícil para os que afirmam a existência de Deus e da verdade absoluta, do que para os que acreditam no relativismo moral. Quanto mais fraca for a crença em Deus e quanto menos forem os absolutos morais, menos ocasiões haverá em que as ideias ou práticas de outras pessoas venham a confrontar alguém com o desafio de ser tolerante. Por exemplo: um ateu não precisa decidir que tipos e que ocasiões de profanidade ou blasfêmia podem ser tolerados e quais devem ser combatidos. As pessoas que não acreditam em Deus ou na verdade absoluta em questões morais podem se ver como as pessoas mais tolerantes de todas. Para elas, quase tudo é permitido. “Faça as suas coisas, que eu faço as minhas”, é a descrição mais difundida. Esse sistema de crença pode tolerar quase qualquer conduta e quase todas as pessoas. Infelizmente, alguns que acreditam no relativismo moral parecem ter dificuldade em tolerar os que insistem que há um Deus, que deve ser respeitado, e certos absolutos morais, que devem ser observados.

Três Verdades Absolutas Referentes à Tolerância

Nada mais vou dizer sobre a tolerância ou a intolerância dos descrentes. Dirijo-me a uma congregação de santos dos últimos dias que acreditam em Deus e na verdade absoluta. O que significa a tolerância para nós e para outros crentes, e quais são nossos desafios especiais no tocante a ela?

Começarei com três verdades absolutas. Expresso-as como Apóstolo do Senhor Jesus Cristo, mas creio que a maioria desses conceitos é compartilhada por todos os que acreditam.

Primeiro, todas as pessoas são irmãos e irmãs em Deus, aprendendo em suas diversas religiões a amar e a fazer o bem uns aos outros. O Presidente Gordon B. Hinckley expressou esse conceito para os santos dos últimos dias: “Todos nós [das várias denominações religiosas] acreditamos que Deus é nosso Pai, apesar de diferirmos em nossa interpretação Dele. Cada um de nós faz parte de uma grande família, a família humana, os filhos e filhas de Deus, sendo, portanto, irmãos e irmãs. Precisamos trabalhar mais arduamente para edificar o respeito mútuo e uma atitude de tolerância, aceitando uns aos outros independentemente das doutrinas e filosofias que adotamos.”8

Observem que o Presidente Hinckley falou de “respeito mútuo” e de tolerância. Falando na BYU, uma década depois, um estudioso muçulmano, o Dr. Alwi Shibah, da Indonésia, expandiu esse conceito, dizendo o seguinte: “Tolerar algo é aprender a viver com aquilo, mesmo que você o considere errado e claramente maligno. (…) Creio que precisamos ir além da tolerância se quisermos ter harmonia em nosso mundo.”

Com base nos ensinamentos do Corão, o Dr. Shihab prosseguiu, dizendo: “Precisamos respeitar a dignidade que Deus concedeu a todo ser humano, até a nossos inimigos. Porque o objetivo de todos os relacionamentos humanos — quer religiosos, sociais, políticos ou econômicos — devem ser a cooperação e o respeito mútuo.”9

A convivência com respeito mútuo pelas diferenças uns dos outros é um grande desafio no mundo atual. Contudo — e aqui expresso uma segunda verdade absoluta — esse convívio com as diferenças é o que o evangelho de Jesus Cristo ensina que precisamos fazer.

O reino de Deus é como o fermento, ensinou Jesus (ver Mateus 13:33). O fermento está oculto na grande massa até que tudo fique fermentado, ou seja, cresça por influência dele. Nosso Salvador também ensinou que Seus seguidores teriam tribulações no mundo, que seu número e domínio seriam pequenos (ver 1 Néfi 14:12) e que eles seriam odiados por não serem do mundo (ver João 17:14). Mas esse é nosso papel. Somos chamados para viver com outros filhos de Deus que não compartilham nossa fé nem nossos valores, e que não têm as obrigações dos convênios que assumimos. Portanto, no final de Seu ministério, Jesus orou ao Pai, dizendo: “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” (João 17:15). Devemos estar no mundo, mas não ser do mundo.

Como os seguidores de Jesus Cristo receberam o mandamento de ser um fermento — não para serem tirados do mundo, mas para permanecerem nele — precisamos buscar a tolerância daqueles que nos odeiam por não sermos do mundo. Como parte disso, às vezes precisamos desafiar leis que restrinjam nossa liberdade de praticar nossa fé, fazendo isso com confiança em nossos direitos constitucionais do livre exercício da religião. Conforme descrito por um advogado que defendia uma escola luterana em um caso que hoje está na Suprema Corte dos Estados Unidos, a grande preocupação é a de que “as pessoas de todas as religiões tenham a capacidade de exercer seu relacionamento com Deus e entre si sem que o governo interfira nisso”.10 É por isso que precisamos de compreensão e apoio — inclusive a compreensão e o apoio de vocês — quando tivermos que lutar pela liberdade religiosa.

Precisamos também praticar a tolerância e o respeito pelas pessoas. Conforme o Apóstolo Paulo ensinou, os cristãos devem “[seguir] as coisas que servem para a paz” (Romanos 14:19) e, na medida do possível, “[ter] paz com todos os homens” (Romanos 12:18). Consequentemente, devemos estar atentos para honrar o bem que devemos ver em todas as pessoas e em muitas opiniões e práticas que divergem das nossas. Como ensina o Livro de Mórmon:

“Todas as coisas boas vêm de Deus (…);

portanto, tudo o que convida e impele a fazer o bem e a amar a Deus e a servi-lo, é inspirado por Deus.

Portanto tende cuidado, (…) a fim de que não julgueis ser (…) do diabo o que é bom e de Deus” (Morôni 7:12–14).

Essa abordagem para com as diferenças resultará em tolerância e também em respeito.

Nossa tolerância e respeito pelos outros e pelas crenças deles não nos faz abandonar nosso compromisso com as verdades que conhecemos e os convênios que fizemos. Essa é a terceira verdade absoluta. Não abandonamos a verdade nem nossos convênios. Fomos convocados como combatentes na guerra entre a verdade e o erro. Não há meio termo. Precisamos defender a verdade, mesmo ao praticar a tolerância e o respeito por crenças e conceitos que diferem dos nossos e para com as pessoas que os adotam.

Embora devamos praticar a tolerância e o respeito pelos outros e por suas crenças , inclusive a liberdade constitucional que eles têm de explicar e defender seu ponto de vista, não é exigido que respeitemos e toleremos uma conduta errada. Nosso dever para com a verdade exige que busquemos alívio de algum comportamento que seja errado. É fácil para a maioria dos crentes e dos descrentes reconhecer como erradas ou inaceitáveis as condutas extremas. Por exemplo: todos devemos deplorar o assassinato e outras condutas terroristas, mesmo que realizadas por extremistas em nome da religião. E todos temos que nos opor à violência e ao roubo.

As Duas Faces da Moeda da Verdade e da Tolerância

No tocante às condutas menos extremadas, nas quais até os crentes discordam se são ou não erradas, a natureza e a extensão do que devemos tolerar são bem mais difíceis de definir. Portanto, uma mulher SUD sensata escreveu-me sobre sua preocupação de que “a definição que o mundo dá a ‘tolerância’ parece estar cada vez mais relacionada à tolerância para com estilos de vida iníquos”. Ela perguntou como o Senhor define “tolerância”.11

O Presidente Boyd K. Packer fez uma introdução inspirada a esse assunto. Falando para uma congregação de alunos do instituto, há três anos, ele disse: “A palavra tolerância não existe sozinha. Exige um objeto e uma reação para qualificá-la como virtude. (…) A tolerância é frequentemente cobrada, mas raramente retribuída. Cuidado com a palavra tolerância. É uma virtude muito instável.”12

Essa advertência inspirada nos lembra que, para pessoas que acreditam na verdade absoluta, a tolerância em relação a uma conduta é como os dois lados de uma moeda. A tolerância ou o respeito é um lado da moeda, mas a verdade sempre está do outro lado. Não podemos possuir ou usar a moeda da tolerância sem estar cônscios dos dois lados dela.

Nosso Salvador aplicou esse princípio. Ao se deparar com a mulher apanhada em adultério, Jesus proferiu estas consoladoras palavras de tolerância: “Nem eu também te condeno”. Depois, ao despedi-la, ele proferiu estas autoritárias palavras de verdade: “Vai-te, e não peques mais” (João 8:11). Todos nos edificamos e fortalecemos com esse exemplo de tolerância e verdade: bondade na comunicação, mas firmeza na verdade.

Enfrentar a Profanidade, a Coabitação e a Violação do Dia do Senhor com Verdade e Tolerância

Vamos refletir sobre como aplicar esse exemplo a alguns outros comportamentos. Outro sensato membro SUD escreveu:

“Em Mosias 18:9, Alma nos diz que quando somos batizados fazemos o convênio de ‘servir de “testemunhas” de Deus em todos os momentos e em todas as coisas e em todos os lugares em que [nos encontremos]’. (…) O que significa essa escritura em nossos dias, e como pode ser colocada em prática pelos santos dos últimos dias?

No campo missionário, com frequência ouço o nome do Senhor ser tomado em vão, e também conheço pessoas que me dizem estar morando com o namorado. Descobri que o cumprimento do dia do Senhor é algo quase obsoleto. Como posso cumprir meu convênio de servir de testemunha, sem ofender essas pessoas?”13

Palavrões, coabitação e violação do dia do Senhor — excelentes exemplos para ilustrar como os santos dos últimos dias podem equilibrar seu dever para com a verdade e para com a tolerância na própria vida, nessas diferentes situações.

Começo por nossa conduta pessoal, inclusive o modo como ensinamos nossos filhos. Ao aplicar as exigências muitas vezes concorrentes da verdade e da tolerância a esses três comportamentos e a muitos outros, não devemos ser tolerantes conosco mesmos. Devemos ser regidos pelas exigências da verdade. Devemos ser firmes no cumprimento dos mandamentos e de nossos convênios, e devemos arrepender-nos e melhorar quando estivermos aquém disso.

Como o Presidente Thomas S. Monson ensinou na conferência em que foi apoiado como profeta: “Meus jovens amigos, sejam fortes. (…) A face do pecado hoje frequentemente veste a máscara da tolerância. Não se deixem enganar; por trás da fachada existem desapontamentos, infelicidade e dor. Vocês sabem o que é certo e o que é errado, e nenhum disfarce, por mais atraente que seja, pode mudar isso. O caráter da transgressão continua o mesmo. Se seus pretensos amigos o instarem a fazer algo que você sabe ser errado, é você que deve defender o certo, mesmo que fique sozinho.”14

De modo semelhante, com nossos filhos e com outros que temos o dever de ensinar — tais como em nossos chamados da Igreja — nosso dever para com a verdade é primordial. Evidentemente, o trabalho de ensino somente produz frutos por meio do arbítrio dos outros, portanto isso sempre precisa ser feito com amor, paciência e persuasão.

E quanto às obrigações da verdade e da tolerância em nossos relacionamentos pessoais com colegas que falam palavrão em nossa presença, que moram com alguém fora dos laços do matrimônio ou que não observam devidamente o dia do Senhor? Como devemos reagir e comunicar-nos com eles?

Nossa obrigação de tolerar significa que nenhum desses comportamentos — ou outros que consideramos desvios da verdade — devem fazer com que reajamos com ódio ou com atos rudes ao comunicar-nos com eles. Mas nossa obrigação para com a verdade tem seu próprio conjunto de exigências e de bênçãos. Quando “[falamos] a verdade cada um com o seu próximo” (Efésios 4:25) e quando “[falamos] a verdade em amor”, como o Apóstolo Paulo ensinou (Efésios 4:15), agimos como servos do Senhor Jesus Cristo, fazendo Seu trabalho. Os anjos estarão a nosso lado, e Ele enviará Seu Santo Espírito para guiar-nos.

Nesse assunto delicado, temos primeiro que ponderar se devemos comunicar a nossos colegas o que sabemos ser a verdade sobre a conduta deles, e até que ponto fazê-lo. Na maioria dos casos, essa decisão pode depender de até que ponto somos pessoalmente afetados por essa conduta.

Os palavrões usados constantemente em nossa presença são motivo adequado para que comuniquemos o fato de que isso nos é ofensivo. Os palavrões usados fora de nossa presença por descrentes provavelmente não são motivo para que confrontemos os ofensores.

Sabemos que a coabitação é um pecado grave, que os santos dos últimos dias jamais devem cometer, seja qual for a situação. Quando praticado por pessoas a nosso redor, pode ser uma conduta privada ou pode algo que somos convidados a tolerar, patrocinar ou facilitar. No equilíbrio entre a verdade e a tolerância, a tolerância pode ser dominante se a conduta não nos envolver pessoalmente. Se a coabitação nos envolver pessoalmente, devemos ser regidos por nosso dever para com a verdade. Por exemplo: uma coisa é ignorar pecados graves que são privados, e outra bem diferente é sermos convidados a patrociná-los ou a endossá-los implicitamente, como ao acolher as pessoas em nossa própria casa.

No tocante à observância do dia do Senhor, os santos dos últimos dias sabem que somos ensinados a guardar o dia do Senhor de modo diferente do que é praticado por muitos outros cristãos. A maioria de nós se depara com o problema de shoppings centers lotados e outras atividades comerciais no dia do Senhor. Talvez devamos explicar nossa crença de que a observância do dia do Senhor, inclusive o sacramento que tomamos, nos restaura espiritualmente e nos torna pessoas melhores durante o restante da semana. Depois disso, para outros crentes, podemos expressar gratidão pelo fato de termos em comum as coisas que são mais importantes, porque todos acreditamos em Deus e na existência da verdade absoluta, apesar de diferirmos em nossa definição desses princípios fundamentais. Além disso, devemos lembrar o ensinamento do Salvador de evitar contendas (ver 3 Néfi 11:29–30) e que nosso exemplo e nossa pregação devem ser “a voz de advertência de cada homem a seu próximo, com brandura e mansidão” (D&C 38:41).

Em tudo isso, não devemos assumir a prerrogativa de julgar nossos vizinhos ou colegas no tocante às consequências finais de sua conduta. Esse julgamento cabe ao Senhor, e não a nós. Até Ele se absteve de pronunciar um julgamento mortal final da mulher apanhada em adultério. A tolerância exige uma abstenção semelhante em nosso julgamento das pessoas.

Quatro Princípios de Verdade e Tolerância Quando Buscamos Ações do Governo

Tendo discutido o equilíbrio entre a verdade e a tolerância em nossa conduta pessoal e em nosso relacionamento com os outros, quero abordar uma situação diferente e mais difícil. Ao se manifestarem publicamente no intuito de influenciar a criação ou a administração de leis com base em suas crenças, os crentes devem aplicar alguns princípios diferentes.

Como jovens adultos, vocês devem estar se perguntando por que abordo com vocês os princípios que devemos seguir ao buscar uma atitude do governo, como na promulgação de leis. Vocês podem dizer: “Isso é uma questão para as autoridades da Igreja”. Descrevo esses princípios para vocês, jovens adultos, porque vocês são membros atuais e futuros líderes da Igreja de Jesus Cristo, e terão que decidir esse tipo de questão mais cedo do que pensam. Precisam compreender como nossas manifestações públicas se baseiam no equilíbrio entre a verdade e a tolerância.

A questão de se ou como devemos influenciar a criação de leis que promovam uma conduta que nos pareça desejável, com base em nossa crença em Deus e em Seus mandamentos, é extensa demais para ser abordada adequadamente nos poucos minutos finais de meu discurso. Por isso, vou me limitar a descrever quatro princípios importantes que devem reger esse esforço.

Primeiro, quando os que creem em Jesus Cristo manifestam publicamente sua visão da verdade, eles precisam buscar a inspiração do Senhor para ser seletivos e sábios na escolha dos princípios verdadeiros que buscam promover por meio de leis ou de ações governamentais. Geralmente, devem abster-se de promover leis ou ações governamentais que facilitem crenças exclusivas, como a obrigação de realizar atos de adoração, mesmo que implicitamente. Os crentes podem ser menos cuidadosos ao buscar uma ação do governo que atenda a princípios mais amplos do que a mera facilitação da prática de suas crenças, tais como leis referentes à saúde pública, segurança e moralidade.

De qualquer forma, como defensores da fé, os crentes podem e devem buscar leis que preservem a liberdade religiosa. Juntamente com a ascensão do relativismo moral, os Estados Unidos vivenciam uma redução perturbadora da estima que o público em geral tem pela religião. Antigamente aceita como parte do estilo de vida americano, a religião agora suscita suspeitas na mente de muitos. Para eles, ela se tornou algo que precisa comprovar sua legitimidade como parte de nossa vida pública. Algumas vozes influentes até questionam a extensão na qual nossa constituição deve proteger o livre exercício da religião, inclusive no tocante ao direito de praticar e pregar princípios religiosos.

Essa é uma questão vital na qual nós, que acreditamos em um Ser Supremo que estabeleceu o certo e o errado absolutos no comportamento humano, precisamos nos unir para reivindicar nossos direitos consagrados pelo tempo de exercer nossa religião, de seguir nossa consciência em questões públicas e de participar de eleições e debates públicos e em tribunais de justiça. Ao fazer isso, estamos na companhia de anjos. Precisamos também nos colocar lado a lado com outros crentes para preservar e fortalecer a liberdade de defender e praticar nossas crenças religiosas, sejam elas quais forem. Para esse propósito, precisamos trilhar juntos o mesmo caminho para assegurar nossa liberdade de seguir rumos diferentes, quando isso for necessário, segundo nossas diferentes crenças. Guiados pelo céu nessa causa justa, nossas palavras serão agradáveis, sendo aceitas no coração de muitos.

Segundo, quando os crentes buscam promover publicamente seu ponto de vista, seus métodos e suas defesas devem ser sempre tolerantes em relação à opinião e postura daqueles que não compartilham de suas crenças. Não devemos aumentar o extremismo que divide nossa sociedade. Como crentes, devemos sempre falar com amor e demonstrar paciência, compreensão e compaixão para com nossos adversários. Os crentes cristãos receberam o mandamento de amar o próximo (ver Lucas 10:27), de perdoar (ver Mateus 18:21–35) e de fazer o bem para aqueles que os tratam com desprezo (ver Mateus 5:44). Devem sempre lembrar o ensinamento do Salvador de “[bendizer] os que [nos] maldizem, [fazer] bem aos que [nos] odeiam, e [orar] pelos que [nos] maltratam e [nos] perseguem” (Mateus 5:44).

Como crentes, devemos moldar nossos argumentos e posturas de modo a contribuir para o debate racional e para acordos essenciais a um governo democrático numa sociedade pluralista. Por esses meios, contribuímos para a civilidade que é essencial para a preservação de nossa civilização.

Terceiro, os crentes não devem se deixar deter pela conhecida acusação de que estão tentando legislar a moralidade. Muitas áreas da lei se baseiam na moralidade judaico-cristã e tem sido assim há séculos. Nossa civilização se baseia na moralidade e não pode existir sem ela. Como John Adams declarou: “Nossa constituição foi feita somente para um povo moral e religioso. Ela é totalmente inadequada para o governo de qualquer outro”.15

Quarto, os crentes não devem se omitir na busca de leis que mantenham as condições ou normas públicas que os auxiliem na prática das exigências de sua fé, quando essas condições ou normas também forem favoráveis para a saúde pública, segurança ou moralidade. Por exemplo: mesmo que crenças religiosas sejam o fundamento de muitas leis criminais, leis que regem o casamento e leis que fecham os estabelecimentos comerciais um dia por semana, essas leis têm um longo histórico de adequação nas sociedades democráticas. Mas nos lugares em que os crentes são a maioria, eles devem sempre estar atentos aos pontos de vista da minoria.

Nós, santos dos últimos dias, somos acusados às vezes de sermos hipócritas e intolerantes com os outros, especialmente quando somos a maioria ou quando os outros são a maioria e nossas crenças nos fazem opor-nos a eles. Sem dúvida, os santos dos últimos dias precisam ser mais sábios e hábeis na explicação e defesa de nossos pontos de vista e no exercício de nossa influência quando a temos.

Esse é o espírito das duas faces da moeda da Verdade e da Tolerância. O Presidente Thomas S. Monson deu um excelente exemplo da aplicação prática dessas virtudes gêmeas. Durante toda a sua vida, ele foi um exemplo de alguém que estendeu a mão e trabalhou com os membros e líderes de outras religiões, em trabalhos cooperativos em questões de interesse comum, e de integração e preocupação cristãs que não se restringem a uma denominação religiosa.16

Por fim, o espírito de nosso equilíbrio da verdade e da tolerância se aplica nestas palavras do Presidente Gordon B. Hinckley: “Estendamos a mão para as pessoas de nossa comunidade que não são de nossa religião. Sejamos bons vizinhos, bondosos, generosos e benevolentes. Participemos de boas causas comunitárias. Pode haver e haverá situações, nas quais graves questões morais estão envolvidas, em que não poderemos ceder em questões de princípio. Mas nesses casos, podemos educadamente discordar, sem sermos desagradáveis. Podemos reconhecer a sinceridade daqueles cuja postura não podemos aceitar. Podemos falar de princípios, em vez de personalidades.”17

O Dom de Saber e o Dom de Acreditar

Encerro com esta certeza e este testemunho:

A Bíblia ensina que uma das funções de um profeta é a de ser um atalaia para avisar Israel Ezequiel 3:17; 33:7). Em uma revelação, o Senhor ampliou essa parábola para a moderna Sião: “E colocai atalaias (…) [na] torre”, para “[ver] o inimigo enquanto ainda [está] distante”, dando o aviso para salvar a vinha “da mão do destruidor” (D&C 101:45, 54).

Falei a vocês como uma dessas atalaias, sobre o tema que o Espírito me encarregou de falar. Asseguro-vos de que minha mensagem é verdadeira. Se tiverem dúvidas a respeito dela ou se tiverem perguntas sobre como colocar em prática esses princípios em sua própria vida, peço que busquem a orientação da mesma Fonte.

Na questão mais ampla que está sendo muito divulgada pelos ateus de nossos dias, proclamo meu conhecimento de que Deus vive! Suas criações testemunham Sua existência, e Seus servos ouvem e proclamam Sua voz. A revelação moderna ensina que alguns têm o dom de “saber que Jesus Cristo é o Filho de Deus, crucificado pelos pecados do mundo”, e que é dado a outros “acreditar em suas palavras” (D&C 46:13–14). Como alguém que sabe, convido vocês a crerem em minhas palavras.

Testifico a respeito de Jesus Cristo, o Senhor da vinha. Ele é nosso Salvador, e estende a mão para cada um de nós, com o eterno convite de recebermos Sua paz, aprendendo com Ele e seguindo Seu caminho (ver D&C 19:23):

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.

Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.

Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11:28–30).

Em nome de Jesus Cristo. Amém.

Exibir Referências

    Notas

  1.   1.

    “A Verdade o Que É?” Hinos, nº 171.

  2.   2.

    Joseph F. Smith, Gospel Doctrine, 5.a ed., 1939, p. 1.

  3.   3.

    Ver “Anarchy in the UK”, The Economist, 13 de agosto de 2011, p. 14; Patrick Jonsson, “Is the US a Nation of Liars?” The Christian Science Monitor, 25 de julho de 2011, p. 20.

  4.   4.

    Stephen L. Carter, The Culture of Disbelief: How American Law and Politics Trivialize Religious Devotion, 1993, p. 225.

  5.   5.

    “Campus Confidential”, The Wall Street Journal, 5 de julho de 2002, p. W11.

  6.   6.

    Ver, por exemplo, John Paul II: The Encyclicals in Everyday Language, 3ª ed., ed. Joseph G. Donders, 2005, pp. 210–213; Harold Kushner, Who Needs God, 1989, pp. 83–84.

  7.   7.

    “A Verdade o Que É?” Hinos, nº 171.

  8.   8.

    Gordon B. Hinckley, Teachings of Gordon B. Hinckley, 1997, p. 665.

  9.   9.

    Alwi Shihab, Building Bridges to Harmony Through Understanding (discurso proferido em um fórum na Universidade Brigham Young, 10 de outubro de 2006), http://speeches.byu.edu/reader/reader.php?id=11324.

  10.   10.

    Eric Rassbach, citado em William McGurn, “Religion and the Cult of Tolerance”, The Wall Street Journal, 16 de agosto de 2011, p. A11.

  11.   11.

    Carta para Dallin H. Oaks, 14 de maio de 1998.

  12.   12.

    Boyd K. Packer, “Be Not Afraid” (discurso proferido no Instituto de Religião de Ogden, 16 de novembro de 2008), p. 5; ver também Bruce D. Porter, “Defending the Family in a Troubled World”, Ensign, 12 de junho de 2011, pp. 12–18.

  13.   13.

    Carta para Dallin H. Oaks, 22 de dezembro de 1987.

  14.   14.

    Thomas S. Monson, Conference Report, abril de 2008, p. 66; ou A Liahona, maio de 2008, p. 65.

  15.   15.

    John Adams, trecho de um discurso para os oficiais da milícia de Massachusets, 11 de outubro de 1798, em The Works of John Adams, Second President of the United States, ed. Charles Francis Adams, 10 vols. (1856), volume 9, p. 229.

  16.   16.

    Ver Heidi S. Swinton, To the Rescue: The Biography of Thomas S. Monson, 2010, especialmente os capítulos 25 e 28 e as páginas 462–463.

  17.   17.

    Gordon B. Hinckley, Teachings of Gordon B. Hinckley, p. 662.