O Bom e Grato Recebedor

Presidente Dieter F. Uchtdorf

Segundo Conselheiro na Primeira Presidência


Presidente Dieter F. Uchtdorf

Que época maravilhosa do ano é esta! Quando ouço a bela música, vejo as luzes e sinto o ar gelado, sou transportado de volta às muitas ocasiões de minha vida em que o espírito do Natal me aqueceu o coração e me elevou a alma.

Como acontece com muitos de vocês, algumas de minhas lembranças mais cálidas e vívidas do Natal são de minha infância. Embora eu tenha sido criado em condições muito modestas, meus pais queriam que o Natal fosse uma época de alegria e maravilhamento para seus filhos. Eles se esforçavam muito para tornar o Natal uma ocasião especial para nossa família.

Nós, as crianças, fazíamos presentes uns para os outros. Certo ano, lembro-me de ter feito um desenho como presente de Natal para minha irmã. Não era uma obra de arte, mas ela o considerou um tesouro. Como eu a amo por isso! Em outro ano, meu irmão, que é 12 anos mais velho que eu, deu-me um presente precioso. Ele encontrou um galho no parque, perto de nossa casa, e o esculpiu na forma de uma pequena faca de brinquedo. Era algo simples, nada sofisticado, mas como eu adorei aquele presente por ser algo recebido dele!

Acaso não é uma das grandes alegrias do Natal ver o rosto animado das criancinhas ao pegarem um presente embrulhado que é especialmente para elas?

Ao ficarmos mais velhos, porém, nossa capacidade de receber presentes com o mesmo entusiasmo e gratidão parece diminuir. Às vezes, as pessoas chegam ao ponto de não poder receber um presente, ou por sinal, nem mesmo um cumprimento sem ficar embaraçadas ou com um sentimento de estar devendo algo. Erroneamente pensam que a única forma aceitável de responder ao recebimento de um presente é dar algo em troca de valor até maior. Outros simplesmente não conseguem ver o significado de um presente — concentrando-se apenas na aparência externa ou em seu valor, ignorando o profundo significado que tem para quem o oferece com sinceridade.

Isso me faz lembrar algo que aconteceu na última noite da vida do Salvador. Ele reuniu Seus amados discípulos a Seu redor, partiu o pão com eles e deu-lhes preciosas instruções finais. Lembram-se de que durante a refeição, Jesus ergueu-Se da mesa, encheu uma bacia de água e começou a lavar os pés de Seus discípulos?

Quando chegou a Simão Pedro, o pescador recusou, dizendo: “Nunca me lavarás os pés”. O Salvador o corrigiu gentilmente: “Se eu te não lavar, não tens parte comigo”.1

Tenho certeza de que Pedro achou que tinha nobres motivos para recusar aquela dádiva e sentiu que fazia a coisa certa. Mas, naquele momento, ele claramente deixou de compreender o significado espiritual do que Jesus lhe oferecia.

Na época do Natal, falamos muito sobre ofertar, e sabemos que “mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”,2 mas me pergunto se às vezes negligenciamos ou até desprezamos a importância de sermos um bom recebedor.

Num dia de Natal, há muitos anos, uma menina recebeu um belo conjunto para confecção de colares de miçangas. O pai da menina sugeriu que ela fizesse algo para um de seus parentes que estavam reunidos para comemorar em família.

O rosto da menina se iluminou, e ela se pôs a trabalhar para criar o que ela achava ser o presente perfeito. Escolheu a pessoa que gostaria de presentear: uma tia idosa que estava sempre carrancuda e tinha uma personalidade rígida.

“Talvez se eu lhe fizer um bracelete”, pensou a menina, “isso a deixará feliz”.

E assim, ela escolheu cuidadosamente cada miçanga e fez o melhor que pôde para criar um presente especial para a tia.

Quando finalmente terminou, foi até a tia, entregou-lhe o bracelete e disse que o havia confeccionado especialmente para ela.

Fez-se silêncio na sala quando a tia pegou o bracelete na ponta dos dedos, como se estivesse segurando um cordão feito de lesmas gosmentas. Ela olhou para os presentes, fez uma careta, torceu o nariz e derrubou o bracelete de volta nas mãos da menina. Depois, virou-se sem proferir uma palavra e começou a conversar com outra pessoa.

A menina enrubesceu de vergonha. Com profundo desapontamento, saiu da sala em silêncio.

Os pais tentaram consolá-la. Procuraram ajudá-la a compreender que o bracelete era muito bonito, a despeito da atitude insensível da tia. Mas a menina não pôde deixar de se sentir triste toda vez que pensava no que havia acontecido.

Passaram-se décadas, e a menina — tendo ela mesma se tornado tia — ainda se lembra, com uma certa tristeza, do dia em que seu presente de criança foi rejeitado.

Todo presente que nos é oferecido — especialmente os que vêm do coração — é uma oportunidade de edificar ou fortalecer um elo de amor. Quando somos bons e gratos recebedores, abrimos uma porta para um relacionamento mais profundo com a pessoa que oferece o presente. Mas quando deixamos de apreciar ou até rejeitamos o presente, não apenas magoamos aqueles que nos oferecem o presente, mas de certa forma prejudicamos a nós mesmos também.

O Salvador ensinou que a não ser que nos “[fizermos] como meninos, de modo algum [entraremos] no reino dos céus”.3

Ao vermos a emoção e o maravilhamento das crianças nesta época do ano, talvez possamos nos lembrar de redescobrir e retomar um precioso e glorioso atributo das crianças: a capacidade de receber com bondade e gratidão.

Não admira que o Salvador seja nosso perfeito exemplo, não apenas de como ofertar generosamente, mas também de receber com bondade. Quando estavam em Betânia, quase no final de Seu ministério mortal, uma mulher se achegou a Ele com um vaso de alabastro cheio de óleo raro e valioso. Ele deixou que ela ungisse Sua cabeça com aquela dádiva preciosa.

Alguns dos que testemunharam aquele fato ficaram irados. “Que desperdício de dinheiro”, disseram. O óleo era extremamente caro. Poderia ter sido vendido e o dinheiro poderia ser dado aos pobres. Viram apenas o valor secular da dádiva e deixaram totalmente de ver seu significado espiritual muito maior.

Mas o Salvador compreendia o simbolismo e a expressão de amor contidos naquela dádiva, e a recebeu bondosamente.

“Deixai-a”, disse Ele aos que murmuravam. “Por que a molestais? (…) Esta fez o que podia; antecipou-se a ungir o meu corpo para a sepultura.”4

Meus irmãos e irmãs, meus queridos amigos, que tipo de recebedores somos? Será que, tal como o Salvador, reconhecemos os presentes como uma expressão de amor?

Em nossos dias, o Salvador disse que “aquele que receber todas as coisas com gratidão será glorificado”,5 e que “a plenitude da Terra será [deles]”.6

Espero que neste Natal e em todos os dias do ano levemos em consideração, especificamente, as muitas dádivas que recebemos de nosso amoroso Pai Celestial. Espero que recebamos essas dádivas com o maravilhamento, a gratidão e a emoção de uma criança.

Meu coração se enternece e se aquece ao pensar nas dádivas que nosso amoroso, bondoso e generoso Pai Celestial nos deu: a indescritível dádiva do Espírito Santo, o milagre do perdão, revelação e orientação pessoais, a paz do Salvador, a certeza e o consolo de que a morte foi conquistada — e muitas e muitas mais.

Acima de tudo, Deus nos deu a dádiva de Seu Filho Unigênito, que sacrificou a vida “para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.7

Será que recebemos essas dádivas com humilde gratidão e com alegria? Ou será que as rejeitamos por orgulho ou por falso senso de independência? Será que sentimos o amor de nosso Pai expresso nessas dádivas? Será que as recebemos de modo a aprofundar nosso relacionamento com esse maravilhoso e divino Doador? Ou estamos distraídos demais para sequer notar o que Deus nos concede todos os dias?

Sabemos que “Deus ama ao que dá com alegria”,8 mas será que Ele também não ama um bom, grato e alegre recebedor?

“Pois de que vale a um homem ser-lhe conferida uma dádiva e não a receber? Eis que ele não se regozija no que lhe foi dado nem se regozija naquele que faz a doação.”9

Quer tenhamos vivenciado 9 ou 90 Natais, ainda somos todos crianças — somos todos filhos de nosso Pai Celestial.

Portanto, temos dentro de nós a capacidade de vivenciar esta época do Natal com o maravilhamento e o assombro de uma criança. Temos dentro de nós a capacidade de dizer: “Meu coração transborda de alegria e regozijar-me-ei em meu Deus”10 — Aquele que nos oferece todas as boas dádivas.

Com vocês e com todos os que desejam seguir o gentil Cristo, ergo a voz em louvor a nosso Deus poderoso pela preciosa dádiva de Seu Filho.

Nesta época de Natal e para sempre, oro para que vejamos a maravilhosa dádiva do nascimento do Filho de Deus com os olhos abençoados de uma criança. Oro para que além de dar boas dádivas, esforcemo-nos para tornar-nos bons e gratos recebedores. Ao fazermos isso, o espírito desta época fará crescer nosso coração a aumentará nossa alegria além de toda medida. No sagrado nome de Jesus Cristo. Amém.

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    NOTAS

  1.  

    1. Ver João 13:1–9.

  2.  

    2.  Atos 20:35.

  3.  

    3.  Mateus 18:3.

  4.  

    4. Ver Marcos 14:3–9.

  5.  

    5.  Doutrina e Convênios 78:19.

  6.  

    6. Ver Doutrina e Convênios 59:15–21.

  7.  

    7.  João 3:16; ver também Alma 33:16: “Estás irado, ó Senhor, contra este povo, porque não compreende a misericórdia que lhe concedeste por causa de teu Filho”.

  8.  

    8.  II Coríntios 9:7.

  9.  

    9.  Doutrina e Convênios 88:33.

  10.  

    10.  Alma 26:11.