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Outubro 2000 | O Desafio de Tornar-se

O Desafio de Tornar-se

Outubro 2000 Conferência Geral

“Ao contrário das instituições do mundo, que nos ensinam a saber algo, o evangelho de Jesus Cristo desafia-nos a tornarmo-nos algo.”

Paulo ensinou que os ensinamentos e mestres do Senhor foram concedidos para que chegássemos à “medida da estatura completa de Cristo”.(Efésios 4:13)Esse processo exige muito mais do que a aquisição de conhecimento. Não basta sequer que sejamos convencidos pelo evangelho, precisamos agir e pensar de modo a sermos convertidos a ele. Ao contrário das instituições do mundo, que nos ensinam a saber algo, o evangelho de Jesus Cristo desafia-nos a tornarmo-nos algo.

Em muitas passagens da Bíblia e das escrituras modernas, lemos sobre um julgamento final em que todas as pessoas serão recompensadas de acordo com seus atos, obras ou desejos do coração. Mas outras escrituras ampliam essa idéia e afirmam que seremos julgados pela condição que tivermos alcançado.

O profeta Néfi descreveu o juízo final com base no que nos tornamos: “E se suas obras tiverem sido imundas, eles serão imundos; e se forem imundos, não poderão habitar o reino de Deus”. (1 Néfi 15:33; grifo do autor.) Morôni declarou: “Aquele que é imundo ainda será imundo; e aquele que é justo ainda será justo”. (Mórmon 9:14; grifo do autor; ver também Apocalipse 22:11–12; 2 Néfi 9:16; D&C 88:35.) O mesmo se aplicaria a “egoísta” ou “desobediente” ou qualquer outra característica pessoal que não esteja em harmonia com as leis de Deus. Ao referir-se ao “estado” dos iníquos no juízo final, Alma explicou que se formos condenados por nossas palavras, obras e pensamentos, “não seremos considerados sem mancha … e nesse terrível estado não nos atreveremos a olhar para o nosso Deus”. (Alma 12:14)

À luz desses ensinamentos, concluímos que o julgamento final não é apenas um balanço do total de atos bons e ruins, ou seja, do que fizemos. É a constatação do efeito final de nossos atos e pensamentos, ou seja, do que nos tornamos. Não basta fazer tudo mecanicamente. Os mandamentos, ordenanças e convênios do evangelho não são uma lista de depósitos que precisamos fazer numa conta bancária celestial. O evangelho de Jesus Cristo é um plano que nos mostra como podemos tornar-nos o que nosso Pai Celestial deseja que nos tornemos.

Uma parábola ilustra esse princípio. Um pai abastado sabia que, caso entregasse suas riquezas a um filho que ainda não tivesse desenvolvido a sabedoria e maturidade necessárias, era bem provável que a herança seria desperdiçada. Esse pai disse ao filho:

“Tudo o que possuo eu desejo dar-lhe — e não só minha riqueza, mas também minha posição e reputação entre os homens. O que tenho posso facilmente conceder-lhe, mas o que sou você precisará adquirir por si mesmo. Você se tornará merecedor de sua herança aprendendo o que aprendi e vivendo como vivi. Vou ensinar-lhe as leis e princípios que me levaram a obter sabedoria e maturidade. Siga meu exemplo, aprenda o que aprendi e você se tornará o que sou e tudo o que possuo será seu.”

Essa parábola assemelha-se ao padrão dos céus. O evangelho de Jesus Cristo promete a incomparável herança da vida eterna, a plenitude do Pai, e revela as leis e princípios pelos quais poderemos alcançá-la.

Tornamo-nos dignos da vida eterna por meio do processo da conversão. Conforme utilizada aqui, essa palavra de muitos sentidos significa não só um convencimento, mas uma profunda mudança de natureza. Jesus lançou mão dessa acepção quando ensinou a Seu apóstolo presidente a diferença entre o testemunho e a conversão. Jesus perguntou a Seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?”(Mateus 16:13)Em seguida, indagou: “E vós, quem dizeis que eu sou?

E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.

E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus”. (Mateus 16:15–17)

Pedro tinha um testemunho. Ele sabia que Jesus era o Cristo, o Messias prometido, e declarou-o. Testificar é saber e declarar.

Posteriormente, Jesus ensinou a esses mesmos homens acerca da conversão, que é muito mais do que um testemunho. Quando os discípulos perguntaram quem era o maior no reino dos céus, “Jesus, chamando um menino, o pôs no meio deles,

E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus.

Portanto, aquele que se tornar humilde como este menino, esse é o maior no reino dos céus”. (Mateus 18:2–4; grifo do autor)

Algum tempo depois, o Salvador confirmou a importância da conversão, mesmo para quem já possuía um testemunho da verdade. Nas sublimes instruções concedidas na última ceia, Ele disse a Simão Pedro: “Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos”. (Lucas 22:32)

A fim de confirmar e fortalecer seus irmãos — nutrir e conduzir o rebanho de Deus — esse homem que seguira Jesus durante três anos, que recebera a autoridade do santo apostolado, que fora um professor e testificador destemido do evangelho de Cristo e cujo testemunho fizera com que o Mestre o chamasse de bem-aventurado, ainda precisava “converter-se”.

O desafio lançado por Jesus mostra que a conversão que Ele exige dos que vão entrar no reino dos céus(ver Mateus 18:3)envolve muito mais do que simplesmente se converter a testificar da veracidade do evangelho. Testificar é saber e declarar. O evangelho desafia-nos a “convertermo-nos”, o que exige que façamos e nos tornemos algo. Se algum de nós confiar somente no próprio conhecimento e testemunho do evangelho, estará na mesma posição que os Apóstolos a quem Jesus desafiou que fossem “convertidos”. Todos conhecemos alguém que possui um forte testemunho, mas não o vive na prática a ponto de converter-se. Por exemplo, ex-missionários, vocês ainda estão empenhando-se para converterem-se ou estão deixando levar-se pelas coisas do mundo?

A conversão necessária ao evangelho inicia-se com a experiência introdutória que as escrituras chamam de “nascer de novo”. (Ver Mosias 27:25; Alma 5:49; João 3:7; I Pedro 1:23.) Ao entrarmos nas águas do batismo e recebermos o dom do Espírito Santo, tornamo-nos “filhos e filhas” espirituais de Jesus Cristo, “novas criaturas” que podem “herdar o reino de Deus”. (Mosias 27:25–26)

Ao ensinar os nefitas, o Salvador referiu-Se ao que eles deveriam tornar-se. Desafiou-os a arrependerem-se e serem batizados e santificados pelo recebimento do Espírito Santo, “para [comparecerem] sem mancha perante [Ele] no último dia”.(3 Néfi 27:20)E concluiu: “Portanto, que tipo de homens devereis ser? Em verdade vos digo que devereis ser como eu sou”. (3 Néfi 27:27)

O evangelho de Jesus Cristo é o plano pelo qual podemos tornar-nos o que os filhos de Deus devem tornar-se. Esse estado imaculado e perfeito virá como conseqüência de uma sucessão constante de convênios, ordenanças e obras, um acúmulo de escolhas corretas e o arrependimento contínuo. “Esta vida é o tempo para os homens prepararem-se para encontrar Deus.” (Alma 34:32)

Agora é o momento para cada um de nós empenhar-se para alcançar a conversão pessoal, para que nos tornemos o que nosso Pai Celestial deseja que nos tornemos. Ao procedermos assim, devemos recordar que é em nossos relacionamentos familiares, ainda mais que em nossos chamados na Igreja, que ocorrerá a parte mais importante desse desenvolvimento. A conversão que precisamos alcançar exige que sejamos um bom marido e pai ou uma boa esposa e mãe. Não basta ser um líder bem-sucedido na Igreja. A exaltação é uma experiência familiar eterna e são nossas experiências familiares mortais que melhor nos prepararão para isso.

O Apóstolo João fez menção ao que somos desafiados a tornar-nos quando declarou: “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos”. (I João 3:2; ver também Morôni 7:48.)

Espero que a importância de os membros converterem-se e tornarem-se algo faça com que os líderes locais reduzam sua preocupação com ações baseadas em meras estatísticas e dêem mais atenção ao que nossos irmãos e irmãs são e o que estão empenhados em tornarem-se.

As tão necessárias conversões costumam alcançar-se com mais rapidez por meio do sofrimento e da adversidade do que pelo conforto e a tranqüilidade. Leí prometeu a seu filho Jacó que Deus “[consagraria suas] aflições para [seu] benefício”.(2 Néfi 2:2)O Profeta Joseph recebeu a seguinte promessa: “Tua adversidade e tuas aflições não durarão mais que um momento; e então, se as suportares bem, Deus te exaltará no alto”. (D&C 121:7–8)

A maioria de nós passa, em maior ou menor grau, pelo que as escrituras chamam de “fornalha da aflição”.(Isaías 48:10;1 Néfi 20:10)Alguns se dedicam integralmente aos cuidados de um familiar com problemas sérios de saúde. Outros enfrentam a morte de um ente querido ou a perda ou adiamento de uma meta digna como o casamento ou a chegada de filhos. Há ainda quem precise lidar com deficiências pessoais ou sentimentos de rejeição, inadequação ou depressão. Por meio da justiça e misericórdia do amoroso Pai Celestial, o refinamento e a santificação possíveis por meio de tais experiências podem ajudar-nos a ser o que Deus deseja que nos tornemos.

Temos o desafio de passar por um processo de conversão até chegarmos à situação e condição chamada de vida eterna. Consegue-se isso não só fazendo o que é certo, mas fazendo-o pelo motivo correto — o puro amor de Cristo. O Apóstolo Paulo deu um exemplo disso em seu famoso ensinamento sobre a importância da “caridade”. (Ver I Coríntios 13.) O motivo pelo qual a caridade nunca falha e pelo qual ela é maior do que até mesmo os maiores atos de bondade citados por ele é que a caridade, “o puro amor de Cristo” (Morôni 7:47), não é um ato, mas uma condição ou estado. Alcança-se a caridade por meio de uma sucessão de atos que resultam na conversão. Precisamos tornar-nos caridosos. Assim, Morôni afirmou: “A não ser que os homens tenham caridade, não poderão herdar” o lugar preparado para eles nas mansões do Pai. (Éter 12:34; grifo do autor)

Tudo isso nos ajuda a compreender um importante significado da parábola dos trabalhadores da vinha, contada pelo Salvador para explicar a respeito do reino dos céus. Como vocês devem estar lembrados, o proprietário da vinha contratou trabalhadores em momentos diferentes do dia. Mandou alguns à vinha de manhã bem cedo, outros na hora terceira e outros na hora sexta e nona. Por fim, na undécima hora, enviou outros à vinha, prometendo que também lhes pagaria “o que [fosse] justo”. (Mateus 20:7)

Ao fim do dia, o dono da vinha deu o mesmo salário a todos os trabalhadores, mesmo àqueles que começaram na undécima hora. Quando os que haviam trabalhado o dia inteiro viram isso, “[murmuraram] contra o pai de família”.(Mateus 20:11)Ele não cedeu, mas simplesmente ressaltou que não lesara ninguém, pois pagara a cada homem a quantia estipulada inicialmente.

Assim como as demais, essa parábola pode ensinar vários princípios diferentes e valiosos. Delimitando para nossos objetivos de hoje, a lição que podemos tirar é que a recompensa do Mestre no Juízo Final não estará condicionada à quantidade de tempo que tivermos passado na vinha. Não alcançaremos nossa recompensa eterna com base num cartão de ponto espiritual. O que é essencial é que nosso trabalho na vinha do Senhor tenha feito com que nos tornemos algo. Para alguns de nós, isso demanda mais tempo do que para outros. O que importará no final é o que nos tivermos tornado devido a nosso empenho. Muitos dos que vêm na undécima hora foram refinados e preparados pelo Senhor de outras formas que não o trabalho formal na vinha. Esses trabalhadores são como o pó de bolo em que basta “acrescentar água” — no caso, a ordenança aperfeiçoadora do batismo e o dom do Espírito Santo. Com esse acréscimo, mesmo na undécima hora, essas pessoas estarão no mesmo estado de desenvolvimento e dignos de receber o mesmo galardão de quem trabalhou mais tempo na vinha.

Essa parábola ensina-nos que devemos sempre ter esperança e manter relacionamentos de amor com os familiares e amigos cujas excelentes qualidades (ver Morôni 7:5–14) evidenciem seu progresso rumo ao que o Pai amoroso deseja que eles se tornem. Da mesma forma, o poder da Expiação e o princípio do arrependimento mostram que nunca devemos perder as esperanças pelas pessoas amadas que parecem no momento estar fazendo muitas escolhas erradas.

Em vez de julgarmos os outros, devemos preocupar-nos com nós mesmos. Não devemos perder as esperanças. Não devemos deixar de empenhar-nos. Somos filhos de Deus e é possível que nos tornemos o que nosso Pai Celestial deseja que nos tornemos.

Como podemos medir nosso progresso? As escrituras sugerem várias maneiras. Vou mencionar apenas duas.

Depois do grandioso discurso do rei Benjamim, muitos dos ouvintes clamaram: “o Espírito do Senhor … efetuou em nós, ou melhor, em nosso coração, uma vigorosa mudança, de modo que não temos mais disposição para praticar o mal, mas, sim, de fazer o bem continuamente”.(Mosias 5:2)Se estivermos perdendo o desejo de praticar o mal, estamos avançando rumo à nossa meta celestial.

O Apóstolo Paulo afirmou que as pessoas que receberam o Espírito de Deus “[têm] a mente de Cristo”.(I Coríntios 2:16)A meu ver, isso quer dizer que as pessoas que estão progredindo rumo à conversão necessária estão começando a ver as coisas como nosso Pai Celestial e Seu Filho Jesus Cristo, as vêem. Estão ouvindo a voz Dele em vez da voz do mundo e fazendo as coisas à maneira Dele, em vez da do mundo.

Presto testemunho de Jesus Cristo, nosso Salvador e Redentor, a quem pertence esta Igreja. Testifico com gratidão do Plano do Pai por meio do qual, pela Ressurreição e Expiação de nosso Salvador, temos a certeza da imortalidade e da oportunidade de tornarmo-nos o que for necessário para a vida eterna. Em nome de Jesus Cristo. Amém.