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    Abril 2002 | Eles Oram e Vão em Frente

    Eles Oram e Vão em Frente

    Abril 2002 Conferência Geral

    Como um vigoroso grupo de portadores do sacerdócio, sejamos cumpridores da palavra, e não somente ouvintes. Oremos, depois sigamos em frente e façamos.

    Meus irmãos, sinto-me honrado pelo privilégio que tenho de dirigir-lhes a palavra nesta noite. Que grande alegria sinto ao ver este magnífico Centro de Conferências lotado com jovens e idosos portadores do sacerdócio de Deus. Sinto uma imensa responsabilidade ao lembrar que há grupos de portadores do sacerdócio como este reunidos por todo o mundo. Oro para que a inspiração do Senhor guie meus pensamentos e inspire minhas palavras.

    Há muitos anos, numa designação no Taiti, eu estava conversando com nosso presidente de missão, o Presidente Raymond Baudin, a respeito do povo taitiano. Eles são conhecidos como um dos melhores navegadores de todo o mundo. O irmão Baudin, que fala francês mas muito pouco de inglês, estava tentando descrever-me o segredo do sucesso dos capitães do mar taitia-nos. Ele disse: “Eles são incríveis. O tempo pode estar péssimo, o barco pode estar furado, pode ser que não haja nenhum equipamento de auxílio à navegação exceto seus instintos e as estrelas do céu, mas eles oram e vão em frente”. Ele repetiu essa frase três vezes. Há uma lição nessa declaração. Precisamos orar e depois precisamos agir. As duas coisas são importantes.

    Esta promessa do livro de Provérbios dá-nos coragem:

    “Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas”.1

    Basta abrirmos no relato encontrado em I Reis para apreciarmos novamente o princípio de que quando seguimos o conselho do Senhor, quando oramos e depois seguimos em frente, o resultado beneficia a todos. Lemos ali que houve uma grande seca em toda a região. Por causa disso houve muita fome. Elias, o profeta, recebeu do Senhor o que para ele deve ter parecido uma instrução surpreendente: “Levanta-te, e vai para Sarepta (…); eis que eu ordenei ali a uma mulher viúva que te sustente”. Quando encontrou a viúva, Elias declarou: “Traze-me, peço-te, num vaso um pouco de água que beba.

    E, indo ela a trazê-la, ele a chamou e lhe disse: Traze-me agora também um bocado de pão na tua mão”.

    A resposta dela descreve sua triste situação, ao explicar que estava preparando uma última refeição para ela e seu filho, e que depois iriam morrer.

    Quão implausível deve ter-lhe parecido a resposta de Elias: “Não temas; vai, faze conforme à tua palavra; porém faze dele primeiro para mim um bolo pequeno, e traze-mo aqui; depois farás para ti e para teu filho.

    Porque assim diz o Senhor Deus de Israel: A farinha da panela não se acabará, e o azeite da botija não faltará até ao dia em que o Senhor dê chuva sobre a terra.

    E ela foi e fez conforme a palavra de Elias; e assim comeu ela, e ele, e a sua casa muitos dias.

    Da panela a farinha não se acabou, e da botija o azeite não faltou (…)”.2

    Se eu lhes perguntasse qual de todas as passagens do Livro de Mórmon é a mais lida, suponho que seria o relato encontrado em 1 Néfi sobre Néfi, seus irmãos, seu pai, e o mandamento para conseguirem de Labão as placas de latão. Talvez isso aconteça porque a maioria de nós, de tempos em tempos, nos propomos a ler novamente o Livro de Mórmon. Geralmente começamos por 1 Néfi. Na verdade, as passagens ali encontradas retratam maravilhosamente a necessidade de orar e depois de ir e fazer. Disse Néfi: “Eu irei e cumprirei as ordens do Senhor, porque sei que o Senhor nunca dá ordens aos filhos dos homens sem antes preparar um caminho pelo qual suas ordens possam ser cumpridas”.3

    Lembramos o mandamento. Lembramos a resposta de Néfi. Lembramos o resultado.

    Em nossos dias, há muitos exemplos de pessoas que oraram, e depois foram e fizeram. Quero contar-lhes um tocante relato de uma boa família que vivia na bela cidade de Perth, Austrália. Em 1957, quatro meses antes da dedicação do templo de Nova Zelândia, Donald Cummings, o pai, era presidente do distrito da missão, em Perth. Ele, a esposa e a família estavam decididos a assistirem à dedicação do templo, embora fossem muito pobres. Começaram a orar, trabalhar e economizar. Venderam seu único carro e juntaram todo centavo que puderam, mas uma semana antes da partida programada, ainda lhes faltava 200 libras esterlinas. Graças a dois presentes inesperados de 100 libras cada um, eles atingiram sua meta em cima da hora. Como o irmão Cummings não podia tirar licença do trabalho para viajar, decidiu pedir demissão do emprego.

    Viajaram de trem pelo imenso continente australiano, chegando a Sydney, onde se uniram a outros membros que também viajavam para a Nova Zelândia. O irmão Cummings e sua família foram um dos primeiros australianos a realizarem batismos pelos mortos no Templo de Nova Zelândia. Estavam entre os primeiros da longínqua Perth, Austrália, a receberem a investidura no Templo de Nova Zelândia. Eles oraram, eles se prepararam e depois seguiram adiante.

    Quando a família Cummings voltou para Perth, o irmão Cummings conseguiu um novo emprego, que era melhor que o anterior. Ele ainda estava servindo como presidente do distrito, nove anos depois, quando tive o privilégio de chamá-lo como o primeiro presidente da Estaca Perth Austrália.4 Creio que é significativo que ele seja atualmente o primeiro presidente do Templo de Perth.

    As seguintes palavras inspiradoras foram tiradas do filme Shenandoah: “Se não tentarmos, não o faremos; e se não o fizermos, então por que estamos aqui?”

    Existem hoje mais de 60.000 missionários de tempo integral servindo ao Senhor em todo o mundo. Muitos desse imenso exército estão ouvindo e assistindo a esta sessão do sacerdócio da Conferência Geral. Eles oram e depois vão em frente, confiando no Senhor com respeito ao local para onde são enviados e confiando em seu presidente de missão com respeito ao local onde servem dentro de suas respectivas missões. Entre as muitas revelações referentes ao sagrado chamado dos missionários, há duas passagens que são as minhas preferidas. As duas se encontram em Doutrina e Convênios.

    A primeira encontra-se na seção 100. Vocês devem lembrar que Joseph Smith e Sidney Rigdon tinham-se ausentado de suas famílias por algum tempo e estavam preocupados com elas. O Senhor revelou-lhes esta mensagem que reconforta os missionários de toda a Igreja: “Em verdade, assim vos diz o Senhor, meus amigos (…): Vossas famílias estão bem; encontram-se em minhas mãos e eu lhes farei o que me parecer bem; pois em mim todo o poder existe”.5

    A segunda encontra-se na seção 84 de Doutrina e Convênios: “Quem vos receber, lá estarei também, pois irei adiante de vós. Estarei a vossa direita e a vossa esquerda e meu Espírito estará em vosso coração e meus anjos ao vosso redor para vos suster”.6

    É inspirador o trabalho missionário realizado por Walter Krause, que mora em Prenzlau, Alemanha. O irmão Krause, cuja dedicação ao Senhor é muito conhecida, está hoje com 92 anos de idade. Como patriarca, ele deu mais de mil bênçãos patriarcais a membros que moram em muitas partes da Europa.

    Por ter ficado sem onde morar, depois da Segunda Guerra Mundial, como muitas outras pessoas na época, o irmão Krause e a família moraram num campo de refugiados em Cottbus e começaram a freqüentar a Igreja ali. Ele foi imediatamente chamado para liderar o ramo de Cottbus da Igreja. Quatro meses depois, em novembro de 1945, o Presidente do Distrito, Richard Ranglack, procurou o irmão Krause e perguntou-lhe o que acharia de servir numa missão. A resposta do irmão Krause demonstra sua dedicação à Igreja. Ele disse: “Não preciso refletir a esse respeito. Se o Senhor precisa de mim, eu irei”.

    Ele partiu em 11 de dezembro de 1945, com vinte marcos alemães no bolso e um pedaço de pão seco. Um dos membros do ramo dera-lhe um casaco de frio deixado por um filho que morrera na guerra. Outro membro, que era sapateiro, deu-lhe um par de sapatos. Com isso e duas camisas, dois lenços e dois pares de meias, ele partiu para sua missão.

    Certa vez, no meio do inverno, ele caminhou de Prenzlau até Kammin, uma pequena vila em Mecklenberg, onde quarenta e seis pessoas assistiram às reuniões que ele realizou. Chegou depois do anoitecer, após caminhar por seis horas ao longo de estradas, caminhos e, por fim, atravessando campos arados. Pouco antes de chegar à vila, encontrou um amplo espaço plano e branco, onde era mais fácil caminhar, e em pouco tempo chegou à casa de um membro para passar a noite.

    Na manhã seguinte, o guarda florestal bateu na porta da casa do membro e perguntou: “Você tem um visitante hospedado aqui?”

    “Tenho, sim”, foi a resposta.

    O guarda florestal prosseguiu, dizendo: “Então, venha dar uma olhada nas pegadas que ele deixou”. A grande área branca e plana por onde o irmão Krause tinha caminhado era na verdade um lago congelado, e algum tempo antes, o guarda tinha aberto um grande buraco no meio do lago para pescar. O vento tinha coberto o buraco de neve, de modo que o irmão Krause não poderia ter visto o perigo que correra. Suas pegadas iam até a beira do buraco e depois seguiam diretamente para a casa do membro, sem que ele soubesse de nada. Levando-se em conta o peso de sua mochila e suas botas de borracha, ele certamente teria se afogado, caso tivesse dado um passo a mais em direção ao buraco que ele não podia ver. O irmão Krause comentou posteriormente que esse evento teve grande repercussão na vila, na época.7

    A vida inteira do irmão Krause seguiu o padrão de orar e depois ir em frente.

    Se algum de nós se sentir incapaz ou tiver dúvidas quanto à sua capacidade de atender a um chamado do sacerdócio para servir, lembremo-nos desta divina verdade: “Com Deus, todas as coisas são possíveis”.8

    Há pouco tempo, fiquei sabendo do falecimento de James Womack, o patriarca da Estaca Shreveport Louisiana. Ele serviu por muito tempo e abençoou muitas vidas. Há vários anos, o Presidente Spencer W. Kimball contou ao Presidente Gordon B. Hinckley, ao Élder Bruce R. McConkie e para mim o que aconteceu na designação do patriarca da Estaca Shreveport Louisiana, da Igreja. O Presidente Kimball disse que havia entrevistado, buscado e orado para saber a vontade do Senhor com respeito à escolha. Por algum motivo, nenhum dos candidatos sugeridos era o homem que deveria ser designado naquela ocasião.

    O dia chegou ao fim; tendo início as reuniões da noite. De repente, o Presidente Kimball voltou-se para o presidente da estaca e pediu-lhe que identificasse um certo homem que estava sentado quase no fundo da capela. O presidente da estaca respondeu que aquele era James Womack, e o Presidente Kimball disse: “Ele é o homem que o Senhor escolheu para ser o patriarca da sua estaca. Peça-lhe que venha falar comigo na sala do sumo conselho, logo após a reunião”.

    O presidente da estaca, Charles Cagle, ficou surpreso, porque James Womack não era um homem comum. Ele tinha sofrido lesões terríveis enquanto lutava na Segunda Guerra Mundial. Perdera as duas mãos e parte de um braço, bem como a maior parte da visão e parte da audição. Não queriam deixá-lo entrar na faculdade de direito, quando ele voltou da guerra, mas ele concluiu o curso como terceiro de sua turma, na Universidade Estadual de Louisiana.

    Naquela noite, quando o Presidente Kimball reuniu-se com o irmão Womack e informou-lhe que o Senhor o designara para ser o patriarca, fez-se um longo silêncio na sala. Então, o irmão Womack disse: “Irmão Kimball, pelo que sei o patriarca precisa colocar as mãos na cabeça da pessoa que ele vai abençoar. Como pode ver, não tenho mãos para colocar na cabeça de ninguém”.

    O irmão Kimball, com seu jeito bondoso e paciente, convidou o irmão Womack a ficar de pé atrás da cadeira em que o irmão Kimball estava sentado. Disse então: “Agora, irmão Womack, incline-se para a frente e veja se os tocos de seus braços alcançam o alto da minha cabeça”. Para alegria do irmão Womack, eles tocaram a cabeça do irmão Kimball, e ele exclamou: “Eu consigo tocá-lo! Eu consigo tocá-lo!”

    “É claro que pode tocar-me”, respondeu o irmão Kimball. “E se consegue tocar-me, então conseguirá tocar qualquer pessoa que for abençoar. Sou provavelmente a pessoa mais baixa que você verá sentada diante de você”.

    O Presidente Kimball contou-nos que quando o nome de James Womack foi apresentado na conferência de estaca, “os membros ergueram a mão entusiasticamente em voto de apoio”.

    Foram lembradas as palavras do Senhor ao Profeta Samuel na ocasião em que Davi foi designado como futuro rei de Israel: “O homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração”.9

    Irmãos, seja qual for nosso chamado, independentemente de nossos temores ou ansiedades, oremos e depois vamos e façamos, lembrando as palavras do Mestre, sim, o Senhor Jesus Cristo, que prometeu: “(…) Eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”.10

    Na Epístola de Tiago lemos o conselho: “Sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos”.11

    Como um vigoroso grupo de portadores do sacerdócio, sejamos cumpridores da palavra, e não somente ouvintes. Oremos, depois sigamos em frente e façamos.

    Em nome de Jesus Cristo. Amém.

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