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Outubro 2004 | Mais Vontade Dá-Me

Mais Vontade Dá-Me

Outubro 2004 Conferência Geral

É importante que as famílias e indivíduos empenhem-se ativamente em desenvolver mais das virtudes que transcendem esta vida mortal.

A Síster Burton e eu fomos entrevistados pouco antes de nosso casamento pelo pai do Élder Richards. Sabemos do que o Élder Richards falou nesta conferência.

Ao término de uma recente conferência de estaca, uma moça aproximou-se de mim e disse: Bispo seu discurso na conferência geral poderia ser bem melhor se o senhor sorrisse um pouco. Pensei em falar a ela sobre medo e sorriso, mas não tive tempo. Assim, só posso me esforçar e esperar pelo melhor.

Sempre que uma conferência geral chega ao fim, sinto um “anseio por mais”: mais da tranqüilidade dessa ocasião, mas da companhia do Espírito, mais dos ensinamentos que iluminaram e abençoaram minha alma.

Normalmente se acredita que mais é melhor e menos geralmente não é bom. Para alguns a busca de mais bens e serviços do mundo transformou-se em uma paixão. Para outros, é preciso mais das riquezas do mundo para simplesmente manter a vida ou elevar seu padrão ao nível básico. O desejo irrefreado por mais muitas vezes tem conseqüências trágicas. Por exemplo, o Presidente Boyd K. Packer lembrou-nos que “nos podemos tornar como o pai que decidiu prover tudo para a sua família. Dedicou toda a sua energia a esse fim e teve sucesso. Só então descobriu que o que sua família mais precisava era estar unida, e isso foi negligenciado. Assim, ele colheu tristeza em vez de alegria”. (“Pais em Sião”, A Liahona, janeiro de 1999, p. 25).

Os pais que tiveram sucesso em conseguir mais, muitas vezes têm dificuldade de dizer “não” para as exigências dos filhos mimados. Esses filhos correm o risco de não aprender valores importantes como o trabalho árduo, saber esperar pelo que se quer, a honestidade e a compaixão. Pais ricos podem criar e criam filhos bem ajustados, carinhosos e com valores; mas a luta para estabelecer limites, contentar-se com menos e evitar as armadilhas de querer sempre mais e mais nunca foi mais difícil. É difícil dizer não a algo mais quando temos condições de dizer “sim”.

Os pais estão certos em sua preocupação com o futuro. É difícil dizer “não” a mais equipamentos esportivos e eletrônicos, a cursos e esportes de equipe e etc., quando os pais acreditam que mais dessas coisas ajudarão os filhos a se saírem bem em um mundo cada vez mais competitivo. Parece que os jovens querem mais, e parte disso é porque vêem um número infinitamente maior de coisas atraentes. A American Academy of Pediatrics [Academia Americana de Pediatria], calcula que as crianças americanas vêem mais de 40 mil comercias por ano.

Cada vez menos pais pedem aos filhos que façam tarefas domésticas, porque acham que eles já estão sobrecarregados com as pressões da vida social e da escola. Mas, filhos que não têm responsabilidades correm o risco de nunca aprender que cada um pode prestar serviço e que o significado da vida vai além de sua própria felicidade.

No livro My Grandfather’s Blessings [As Bênçãos do Meu Avô], a Dra. Rachel Remen diz que fez uma grande amizade com um casal e seu filho pequeno, Kenny. Quando os visitava, ela e Kenny sentavam-se no chão e brincavam com seus dois carrinhos. Às vezes ela ficava com o que não tinha um pára-lama e ele com o que não tinha uma porta e outras vezes, vice-versa. Ele adorava aqueles carrinhos!

Quando certa cadeia de postos de gasolina passou a distribuir esses carrinhos a quem enchesse o tanque, ela conseguiu que o pessoal da clínica utilizasse aquele posto e coletassem os carrinhos. Assim que ela conseguiu todos os modelos, colocou-os numa caixa grande para levar para o Kenny. Esperava que isso não ofendesse os pais, que tinham bem pouco dinheiro. Kenny abriu a caixa todo animado e foi tirando cada carrinho. Eles encheram as janelas e ainda deu para colocar no chão. Que coleção! Posteriormente, ao visitar a família, Rachel notou o Kenny parado, olhando pela janela. Quando ela perguntou a Kenny: “O que há de errado? Você não gostou dos carrinhos novos?” ele desviou os olhos, sem jeito. “Desculpa Rachel, mas eu acho que não sei gostar de tantos carrinhos”. (Ver “Owning” [2000], pp. 60–61).

Todos já ouvimos alguma criança dizer depois de abrir muitos presentes de natal ou de aniversário: “Não tem mais?” Com todos os desafios desta “geração quero mais”, ainda há o conselho divino de ensinar nossos filhos a “compreender a doutrina do arrependimento, da fé em Cristo, o Filho do Deus vivo, e do batismo e do dom do Espírito Santo. (…) a orar e a andar em retidão perante o Senhor [e] a observar o dia do Senhor para santificá-lo”. (D&C 68:25, 28–29)

Há momentos em que o significado da palavra mais e o da palavra menos nem sempre é muito claro. Há momentos em que menos é na verdade mais e mais pode ser menos. Por exemplo, menos dedicação ao materialismo pode ajudar a família a ter mais união. Mais complacência com os filhos pode gerar menos compreensão dos valores importantes da vida.

Existem aspectos da vida em que a idéia de que mais é melhor pode ser bastante proveitosa. O hino sacro “Mais Vontade Dá-Me” (Hinos 75), lembra-nos as virtudes que merecem mais atenção nossa. O próprio Jesus disse o que é preciso para ser mais semelhante a Ele. Ele disse: “(…) quisera que fôsseis perfeitos, assim como eu ou como o vosso Pai que está nos céus é perfeito”. (3 Néfi 12:48)

A mansidão é vital para tornarmo-nos mais semelhantes a Cristo. Sem ela não conseguimos desenvolver outras virtudes importantes. Mórmon disse: “(…) porque ninguém é aceitável perante Deus, a não ser os humildes e brandos de coração (…)”. (Morôni 7:44) Alcançar a mansidão é um processo. Foi-nos pedido que tomemos “cada dia a [nossa] cruz”. (Lucas 9:23) Isso não deve ser um exercício esporádico. O aumento da mansidão não significa fraqueza, “mas é portar-se com bondade e cortesia, de modo a demonstrar força, serenidade, uma saudável auto-estima e um autêntico autocontrole”. (Élder Neal A. Maxwell, “Meekly Drenched in Destiny”: Fireside and Devotional Speechs [1983] na Universidade de Brigham Young 1982–1983). O aumento da humildade possibilita que o Espírito nos ensine.

As virtudes que aprendemos em “Mais Vontade Dá-Me” dividem-se em diversas categorias. Algumas são metas pessoais, como, por exemplo, mais consagração, mais autodomínio, mais gratidão, mais pureza, ser mais digno, mais oração e mais fé no Mestre. Outras estão voltadas para as adversidades. Elas incluem: calma em pesares, mais humildade, ter mais gratidão ao receber alívio; ter mais força em Jesus, mais retidão na vida e ansiar mais pelo céu. As virtudes nos alicerçam firmemente no Salvador: reconhecer que Ele cuida de nós, ter mais firmeza na causa, mais rica esperança, mais força e alegria ao servi-Lo; mais tristeza ao pecar; mais consagração, e ser mais semelhantes ao Salvador. Mais dessas virtudes é melhor. Ter menos não é bom.

Muitos têm alegria por servir ao Senhor, ensinando o evangelho de Jesus Cristo e sua Restauração e testificando do Salvador, de Sua vida, ministério e Expiação.

Certo líder de distrito estava intrigado com o que fazia o Élder Parker, que estava terminando a missão, ter tanto sucesso, apesar de não conseguir decorar as palestras. Para descobrir o motivo, foi com ele em uma palestra. A apresentação feita pelo Élder Parker foi tão desorganizada que no final da palestra, o líder de distrito estava confuso e concluiu que a família que estava sendo ensinada também deveria estar.

Foi aí que o Élder Parker se aproximou um pouco mais, colocou a mão no braço do pai da família, olhou-o nos olhos, disse-lhe o quanto amava a ele e sua família. Então, prestou um dos testemunhos mais humildes e impressionantes que o líder de distrito já ouvira. Quando ele terminou, todos os membros da família, inclusive o pai e os dois élderes, estavam em lágrimas. Então, o Élder Parker ensinou o pai da família a orar; todos se ajoelharam e o pai orou pedindo que eles recebessem o próprio testemunho e agradecendo pelo grande amor que sentia. Duas semanas depois, a família toda se batizou.

Mais tarde, o Élder Parker pediu desculpas a seu líder de distrito por não saber as palestras. Disse que tinha dificuldade de memorização, apesar de passar horas esforçando-se, todos os dias, para vencer o problema. Ele disse que orava de joelhos sempre antes de ensinar uma família e pedia ao Pai Celestial que o abençoasse para que, ao prestar o testemunho, as pessoas sentissem que ele as amava, sentissem o Espírito e soubessem que as coisas ensinadas eram verdadeiras. (Ver “That Is the Worst Lesson I’ve Ever Heard [Essa foi a Pior Palestra que Já Ouvi], Ver Allan K. Burgess e Max H. Molgard, Sunshine for the Latter-day Saint Soul [Luz para a Alma SUD], 1998; pp. 181–183.)

O que podemos aprender com essa simples história? Vocês acham que o Élder Parker sentia a necessidade de esforçar-se mais para aprender as palestras? Será que ele passou a entender a necessidade de orar com um propósito? Vocês acham que as orações dele eram cheias de súplicas de mais forças para vencer o problema? Será que a dificuldade de memorização fez com que ele passasse a ter mais vontade e mais força em Jesus? Será que a dificuldade de memorização não lhe trouxe mais calma em pesares e paz nessa cruz, ansiando mais pelo lar celestial? Será que a dificuldade de memorização fez com que de vez em quando, quisesse voltar para casa? Será que demonstrou muita fé no Salvador e confiança no Senhor? Com certeza sim!

Nas últimas sete semanas, quatro grandes furacões atingiram a costa da Flórida e do Golfo do México. A maioria dos países do Caribe sofreram imensa devastação. Faltam alimentos, roupas e abrigo. As ruas, jardins e quintais estão cobertos de destroços. A infraestrutura local foi destruída ou precisa de grandes reparos.

Na semana passada estive em Tallahassee, na Flórida, e recebi muitos agradecimentos pela ajuda da Igreja nessas emergências. O governador Bush, da Flórida, o Vice-Governador Toni Jennings e outros companheiros nossos nesse trabalho, como a Cruz Vermelha e o Exército da Salvação, bem como as equipes de socorro do governo federal e estadual expressaram gratidão, a qual eu transmito a vocês que trabalharam para aliviar o fardo da limpeza e aos que fizeram doações ao Fundo de Ajuda Humanitária da Igreja. Obrigado. Estou certo de que sentiram mais alegria e mais úteis a serviço Dele.

A exemplo do que aconteceu em diversos lugares nos fins-de-semana anteriores, mais de 2.000 voluntários de todas as partes do sudeste dos Estados Unidos foram a Pensacola, Flórida, no fim-de-semana passado para ajudar a consertar os estragos do Furação Ivan. Eles passaram a noite em sacos de dormir no chão das capelas, de outras igrejas e na casa de membros. Atenderam a milhares de pedidos de ajuda onde fosse preciso. Os missionários participaram no conserto do telhado da Igreja Metodista local. O pessoal das equipes regulares de emergência, os bombeiros e os policiais, ficaram gratos por que, em sua ausência, suas famílias ficaram aos cuidados dos membros da Igreja.

Tudo isso foi realizado enquanto o Furacão Jeanne estava para atingir a costa, depois de causar muito sofrimento no Haiti e em outros lugares do Caribe. Agradeço de novo àqueles de vocês que fazem doações materiais e aos que colocaram as mãos à obra e aliviaram o fardo de tantos. Louvo o seu desejo de consagrarem-se mais e de serem mais semelhantes ao Salvador. Neste fim de semana, 2.500 pessoas ajudarão no trabalho inicial de recuperação dos danos causados pelo Furacão Jeanne.

Ao conversar sobre nossos vários anseios para ter mais, o que sugiro não é que para ser bons pais tenhamos de ser sovinas. O que eu sugiro é que é importante que as famílias e indivíduos empenhem-se ativamente em desenvolver mais das virtudes que transcendem esta vida mortal e chegam à eternidade. A abordagem ponderada e conservadora é a chave para o sucesso em lidar com a vida em uma sociedade rica e conseguir as qualidades que formam o caráter e que vêm de esperar, dividir, poupar, trabalhar arduamente e fazer o melhor com o que se tem. Que sejamos abençoados com o desejo e a capacidade de saber quando ter mais é, na verdade, ter menos, e quando ter mais é o melhor; no santo nome de Jesus Cristo. Amém.