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Outubro 2004 | Firmes Prossegui

Firmes Prossegui

Outubro 2004 Conferência Geral

Há uma coisa que o Senhor espera de nós, não importando quais sejam nossas dificuldades ou tristezas. Ele espera que prossigamos com firmeza.

Já vivi tempo suficiente para vivenciar muitos desafios da vida. Conheci pessoas extraordinárias que suportaram sérias provações, enquanto outras, pelo menos na aparência, pareciam viver num mar de rosas.

Com freqüência, aqueles que lutam contra as adversidades se perguntam: “Por que isso acontece comigo?” Passam noites em claro meditando sobre o motivo por que se sentem sozinhos, doentes, desanimados, oprimidos ou magoados.

A pergunta: “Por que eu?” pode ser difícil de responder, e sempre resulta em frustração e desespero. Há uma pergunta melhor que podemos nos fazer. Essa pergunta é: “O que posso aprender com tudo isso?”

A maneira como respondemos a essa pergunta pode determinar a qualidade de nossa vida, não só nesta Terra, mas também nas eternidades que hão de vir. Embora nossas provações sejam variadas, há uma coisa que o Senhor espera de nós, não importando quais sejam nossas dificuldades ou tristezas. Ele espera que prossigamos com firmeza.

A Doutrina de Perseverar até o Fim

O evangelho de Jesus Cristo inclui a perseverança até o fim como uma de suas doutrinas fundamentais. Jesus ensinou: “Mas aquele que perseverar até o fim será salvo”.1 E também: “Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos”.2 Há quem pense que perseverança até o fim significa simplesmente passar pelo sofrimento que os problemas trazem. Mas é muito mais do que isso: é o processo de vir a Cristo e aperfeiçoarmo-nos Nele.

Néfi, o profeta do Livro de Mórmon, nos ensina: “Deveis, pois, prosseguir com firmeza em Cristo, tendo um perfeito esplendor de esperança e amor a Deus e a todos os homens. Portanto, se assim prosseguirdes, banqueteando-vos com a palavra de Cristo, e perseverardes até o fim, eis que assim diz o Pai: Tereis vida eterna”.3

Perseverar até o fim é a doutrina de continuar no caminho estreito e apertado que conduz à vida eterna, depois de termos entrado nesse caminho por meio da fé, arrependimento, batismo e o recebimento do Espírito Santo. Perseverar até o fim requer todo nosso coração, ou, como o profeta Amaléqui, no Livro de Mórmon, nos ensina, precisamos “vir a Ele e [ofertar-] Lhe toda a [nossa] alma, como dádiva; e [continuar] em jejum e oração, perseverando até o fim; e assim como vive o Senhor, [seremos] salvos”.4

Perseverar até o fim significa termos nossa vida alicerçada firmemente no solo do evangelho, permanecendo fiéis na Igreja, servindo humildemente nossos irmãos, vivendo uma vida cristã e cumprindo nossos convênios. Aqueles que perseveram são equilibrados, consistentes, humildes, melhoram constantemente, e sem dolo. Seu testemunho não se baseia em razões temporais: baseia-se na verdade, no conhecimento, na experiência e no Espírito.

A Parábola do Semeador

O Senhor Jesus Cristo usa a parábola simples do semeador para ensinar a doutrina de perseverar até o fim.

“O que semeia, semeia a palavra;

E, os que estão junto do caminho são aqueles em quem a palavra é semeada; mas, tendo-a eles ouvido, vem logo Satanás e tira a palavra que foi semeada nos seus corações.

E da mesma forma os que recebem a semente sobre pedregais; os quais, ouvindo a palavra, logo com prazer a recebem;

Mas não têm raiz em si mesmos, antes são temporãos; depois, sobrevindo tribulação ou perseguição, por causa da palavra, logo se escandalizam.

E outros são os que recebem a semente entre espinhos, os quais ouvem a palavra;

Mas os cuidados deste mundo, e os enganos das riquezas e as ambições de outras coisas, entrando, sufocam a palavra, e fica infrutífera.

E os que recebem a semente em boa terra são os que ouvem a palavra e a recebem, e dão fruto, um a trinta, outro a sessenta, outro a cem, por um.”5

Essa parábola descreve os tipos de solo nos quais as sementes da verdade são semeadas e nutridas. Cada tipo de solo representa nosso grau de compromisso e habilidade de perseverar.

O primeiro tipo de solo, os que estão “junto do caminho”, representa aqueles que ouvem o evangelho, mas nunca dão à verdade a oportunidade de criar raízes.

O segundo tipo de solo, “pedregais”, representa aqueles que estão na Igreja e que ao primeiro sinal de sacrifício ou provação, fogem ofendidos, sem ter o desejo de pagar o preço.

O terceiro tipo de solo, “entre espinhos”, representa alguns membros da Igreja que são distraídos e obcecados pelos cuidados, riquezas e ambições do mundo.

Finalmente, os da “boa terra” são os membros da Igreja cuja vida reflete seu discipulado ao Mestre, cujas raízes penetram fundo no solo do evangelho e ali produzem frutos em abundância.

Na Parábola do Semeador, o Salvador identifica três obstáculos à perseverança, que podem corroer nossa alma e deter nosso progresso pessoal.

O primeiro obstáculo à perseverança—“os cuidados do mundo”—é, essencialmente, o orgulho.6 O orgulho ergue sua face horrenda de várias maneiras, todas destrutivas. Por exemplo, o orgulho intelectual é muito comum hoje em dia. Algumas pessoas se exaltam acima de Deus e Seus servos ungidos devido à experiência e conhecimento secular que acumularam. Jamais devemos permitir que nosso intelecto seja colocado à frente de nosso espírito. Nosso intelecto pode alimentar nosso espírito, e nosso espírito pode alimentar nosso intelecto, mas se permitirmos que nosso intelecto tenha precedência sobre nosso espírito, tropeçaremos, seremos críticos e até talvez perderemos o testemunho. O conhecimento é muito importante e é uma das poucas coisas que nos acompanharão em nossa vida futura.7 Devemos aprender sempre. Entretanto, precisamos ter o cuidado de não pôr de lado nossa fé nesse processo, pois a fé na verdade aumenta nossa capacidade de aprender.

O segundo obstáculo à perseverança são “os enganos das riquezas”. Deveríamos acabar com nossa obsessão pelo dinheiro. Ele é só um meio para alcançarmos um fim, e esse fim deve ter, como objetivo principal, a edificação do reino de Deus. Sinto que há pessoas que se preocupam tanto com o carro que dirigem, as roupas caras que usam, o tamanho da casa em comparação com a dos outros, que acabam desviando a atenção das coisas mais importantes.8 Devemos ter cuidado com nossa vida diária, e não devemos permitir que as coisas deste mundo tenham precedência sobre as coisas espirituais.

O terceiro obstáculo à perseverança mencionado pelo Salvador é “a cobiça por outras coisas ”. A praga da pornografia espalha-se ao nosso redor como nunca. A pornografia tem como resultado os frutos corruptos da imoralidade, de lares destruídos e de vidas arrasadas. A pornografia suga a força espiritual necessária para a perseverança. A pornografia pode ser comparada à areia movediça. A pessoa pode cair na armadilha facilmente e sucumbir tão logo entre nela, a ponto de não conseguir ter idéia dos sérios danos que provoca. É provável que a pessoa precise até de ajuda especializada para sair da areia movediça da pornografia. Quão melhor é jamais experimentá-la. Imploro a vocês, que sejam cuidadosos e fiquem alertas ao usar a Internet.

Perseverar até o Fim É um Princípio para Todos

Algumas semanas antes do falecimento do Presidente Heber J. Grant, uma Autoridade Geral foi visitá-lo em casa. Antes de sair, o Presidente Grant fez uma oração: “Ó Deus, abençoa-me para que eu não perca meu testemunho e me mantenha fiel até o fim!”9 Conseguem imaginar isso, o Presidente Grant, um dos grandes profetas da Restauração, Presidente da Igreja por aproximadamente 27 anos, orando para manter-se fiel até o fim?

Ninguém está livre da influência e das tentações de Satanás. Não tenham a pretensão de pensar que estão fora do alcance da influência do adversário. Tenham cuidado para não se tornarem presas de seus engodos. Permaneçam perto do Senhor por meio do estudo diário das escrituras e da oração diária. Não podemos nos dar ao luxo de relaxar e pensar que nossa salvação está garantida. Precisamos ocupar-nos zelosamente durante a vida toda.10 O Presidente Brigham Young disse as seguintes palavras, que nos motivam e nos lembram que não devemos jamais deixar de lutar para perseverar: “O homem e a mulher que desejar obter seu lugar no reino celestial, descobrirão que para tal será necessário esforçar-se diariamente [para alcançar essa meta sagrada]”.11

Força para Perseverar

Sei que há muitas pessoas que sofrem com a mágoa, solidão, dor e contratempos. Essas experiências são uma parte necessária da experiência humana. Entretanto, peço-lhes que não percam a esperança no Salvador e em Seu amor por vocês, que é constante, e Ele nos prometeu que não nos deixaria órfãos.12

Quando nos deparamos com as vicissitudes da vida, temos o consolo das palavras do Senhor que se encontram na seção 58 de Doutrina e Convênios:

“Por agora não podeis, com vossos olhos naturais, ver o desígnio de vosso Deus com respeito às coisas que virão mais tarde nem a glória que se seguirá depois de muitas tribulações.

Pois após muitas tribulações vêm as bênçãos. Portanto vem o dia em que sereis coroados de muita glória; ainda não é chegada a hora, mas está próxima.”13

Por isso, irmãos e irmãs, devemos prosseguir com firmeza, e, finalmente, nesse processo, nos tornaremos mais como o Senhor. Todos nós conhecemos quem já enfrentou grandes tribulações na vida e perseveraram fielmente. Um exemplo inspirador é o de um antigo santo do século 19, Warren M. Johnson que, por designação dos líderes da Igreja, foi enviado ao deserto para gerenciar a Estação de barcas Lee, uma importante interseção do rio Colorado, na região norte do Arizona. O irmão Johnson suportou grandes desafios, mas manteve-se fiel a vida toda. Ouçam à explicação do irmão Johnson sobre a tragédia de sua família, descrita em uma carta ao Presidente Wilford Woodruff:

“Em maio de 1891, certa família (…) veio para cá [Lee’s Ferry] vindo de Richfield Utah, onde eles (…) passaram o inverno visitando amigos. Em Panguitch, enterraram um dos filhos (…) sem limpar o carroção ou a si mesmos, vieram para nossa casa e passaram a noite, em contato com nossos filhos pequenos (…). Não sabíamos nada a respeito da natureza da doença [difteria], mas tínhamos fé em Deus, por estarmos aqui cumprindo tão árdua missão, e tentando com todo o empenho que podíamos obedecer aos [mandamentos] (…), que nossos filhos seriam poupados. Mas—ai de nós—em quatro dias e meio [o menino mais velho] veio a morrer em meus braços. Duas contraíram a doença e nós jejuamos e oramos o quanto entendíamos ser sábio, pois tínhamos muitos afazeres a desempenhar aqui. Jejuamos [por] vinte e quatro horas e uma vez jejuei [por] quarenta horas, mas em vão, pois minhas duas filhinhas também morreram. Cerca de uma semana depois de sua morte, minha filha Melinda, de quinze anos, também manifestou a doença e fizemos tudo ao nosso alcance por ela, mas [logo] seguiu os outros. (…) Três de minhas queridas filhas e um filho [foram] levados de nós e isso não foi o fim de tudo. Minha filha mais velha, de dezenove anos, encontra-se agora prostrada [devido à] doença, e estamos jejuando e orando em seu benefício hoje. (…) Quero porém pedir sua fé e orações em nosso benefício. O que fizemos para que o Senhor nos deixasse, e o que podemos fazer para receber seu favor novamente[?]”

Pouco tempo depois, o irmão Johnson escreveu a um líder local, amigo seu, expressando sua fé em trabalhar:

“Este é o maior desafio de minha vida, mas comecei minha jornada para a salvação e estou certo de que (…) com a ajuda do Pai Celestial, continuarei agarrado à barra de ferro, sejam quais forem as tribulações [que vierem] sobre mim. Não esmoreci no desempenho de meus deveres, e espero e confio em que terei a fé e as orações de meus irmãos, para que eu possa viver para receber as bênçãos. (…)”14

Ainda que os pesados fardos do Irmão Johnson possam nos ajudar a suportar os nossos desafios, permitam-me sugerir três chaves para perseverar nos dias de hoje.

Primeiro, o testemunho. O testemunho nos dá a perspectiva eterna necessária para atravessar as tribulações e dificuldades que inevitavelmente teremos de enfrentar. Lembrem-se do que Heber C. Kimball profetizou:

“Tempos virão em que nenhum homem ou mulher será capaz de perseverar com luz emprestada. Cada um terá de guiar-se pela luz que traz dentro de si. (…) Se você não a tiver, não resistirá; portanto, busquem o testemunho de Jesus e apeguem-se a ele, para que quando os tempos de tribulação chegarem, vocês não tropecem e caiam.”15

Segundo, a humildade. A humildade é o reconhecimento e a atitude que se deve ter na ajuda do Senhor para termos sucesso nesta vida. Não podemos perseverar até o fim contando com nossa própria força. Sem Ele, nada podemos fazer.16

Terceiro, o arrependimento. O dom glorioso do arrependimento permite-nos voltar ao caminho com um coração renovado, dando-nos forças para perseverar no caminho que nos conduz à vida eterna. O sacramento, assim, torna-se um componente-chave para nossa perseverança nesta vida. O sacramento oferece-nos uma oportunidade semanal preciosa de renovar nossos convênios batismais e de arrepender-nos e avaliar nosso progresso rumo à exaltação.

Somos filhos e filhas do Deus Eterno, com potencial de sermos co-herdeiros de Cristo.17 Sabendo quem somos, jamais devemos desistir do objetivo de chegar ao nosso destino eterno.

Testifico que nas eternidades, ao olharmos para trás, para nosso curtíssimo momento de existência aqui nesta Terra, que possamos elevar nossa voz e rejubilar-nos, porque apesar das dificuldades que encontramos, tivemos a sabedoria, a fé e a coragem de perseverar até o fim.

Que possamos assim proceder neste dia e para sempre, é minha oração, em nome de Jesus Cristo. Amém.

Exibir ReferênciasOcultar Referências
    1. Mateus 24:13.

    2. João 8:31.

    3. 2 Néfi 31:20.

    4. Ômni 1:26.

    5. Marcos 4:14–20.

    6. Ver Ezra Taft Benson, em Conference Report, abril de 1989, pp. 3–7, ou Ensign, maio de 1989, pp. 4–6.

    7. Ver D&C 130:18–19

    8. Ver Mateus 23:23.

    9. Citado por John Longden, em Conference Report, 1958, p. 70.

    10. Ver D&C 58:27.

    11. Discourses of Brigham Young, selecionados por John A. Widtsoe, 1954, p. 392.

    12. Ver João 14:18.

    13. D&C 58:3–4

    14. Citado por Jay A. Parry e outros, Best-Loved Stories of the LDS People, 3 volumes. (1997–2000), pp. 107–108

    15. Em Orson F. Whitney, Life of Heber C. Kimball, 1945, p. 450.

    16. Ver João 15:5.

    17. Ver Romanos 8:17.