Tocar a Vida

Steven E. Snow

Of the Presidency of the Seventy


Dando ouvidos aos profetas, mantendo uma perspectiva eterna, tendo fé e bom ânimo, podemos enfrentar os desafios inesperados.

Durante seus primeiros anos de vida, nossa sobrinha, Lachelle, passava as manhãs com a avó. As duas criaram um vínculo especial por causa dessas horas que passavam juntas. Lachelle logo fez cinco anos e estava na época de começar a ir à escola. Em sua última manhã juntas, a vovó Squire leu uma história para a neta, sentada com ela numa grande cadeira de balanço. “Nós nos divertimos muito juntas, Lachelle”, disse ela, “agora está na hora de você ir para a escola. Eu te amo tanto, o que vou fazer sem você?”

Com uma sabedoria muito além dos seus cinco anos, Lachelle ergueu os grandes olhos castanhos para a avó. “Vovó”, disse ela, “eu também te amo, mas está na hora de eu tocar a minha vida”.

Esse é um bom conselho, e serve para todos nós. Também precisamos “tocar a vida”. A maioria de nós não procura mudanças dramáticas nem as recebe bem. Mas a mudança é uma parte essencial das experiências da vida.

Muitas dessas mudanças vêm naturalmente no decorrer de nossa jornada terrena. Nossa vida muda à medida que passamos da infância para a juventude, depois para a vida adulta e finalmente para a velhice. Escola, missão, casamento, emprego e aposentadoria são exemplos de mudanças significativas.

Muitas vezes, relutamos em passar para o próximo estágio, iniciar o próximo desafio. Talvez estejamos bem confortáveis do jeito que estamos ou com medo, ou não temos fé. O colo da vovó em geral é mais confortável do que as provações do jardim da infância. A casa dos pais, com incontáveis videogames, pode ser mais atraente do que a faculdade, o casamento ou uma carreira profissional.

Como podemos nos preparar melhor para as mudanças que devemos enfrentar inevitavelmente ao longo da vida?

Primeiro, siga os profetas. Ouça e viva de acordo com os conselhos das Autoridades Gerais. Os profetas geralmente advertem as pessoas, mas também dão conselhos seguros e práticos para ajudar-nos a enfrentar as tempestades da vida. Na primeira seção de Doutrina e Convênios, o Senhor nos lembra: “Seja pela minha própria voz ou pela voz de meus servos, é o mesmo” (D&C 1:38). Os profetas ajudam-nos a confrontar as mudanças e os desafios com os quais nos deparamos constantemente. O bem conhecido hino da Primária, “Segue o Profeta”, lembra-nos desse importante princípio: “Mas podemos ter segura orientação, se aos profetas de hoje dermos atenção” (Músicas para Crianças, p. 58).

Segundo, mantenha uma perspectiva eterna. Entenda que a mudança e os desafios fazem parte do plano de Deus. O propósito desta existência mortal é ser um período de testes ou um tempo “para ver se farão todas as coisas que o Senhor seu Deus lhes ordenar” (Abraão 3:25). A fim de testar o uso do arbítrio que Deus nos deu, nós mortais passamos por uma série de mudanças, desafios, provações e tentações no decorrer da vida. Somente assim somos devidamente testados. Em 2 Néfi lemos: “Porque é necessário que haja uma oposição em todas as coisas. Se assim não fosse (…) não haveria retidão nem iniquidade nem santidade nem miséria nem bem nem mal” (2 Néfi 2:11).

Os desafios e as mudanças da vida dão-nos oportunidades de crescer e exercitar nosso arbítrio ao tomarmos decisões corretas.

Terceiro, tenha fé. O Presidente Gordon B. Hinckley sempre incentivou os membros da Igreja a seguirem em frente com fé (ver “God Hath Not Given Us the Spirit of Fear”, Ensign, outubro de 1984, p. 4). Ao nos confrontarmos todos os dias com um mundo repleto de pessimismo, a dúvida, o medo e até o pavor podem entrar furtivamente em nosso coração. O Presidente Thomas S. Monson aconselhou-nos dizendo que “a fé e a dúvida não podem coexistir na mesma mente, porque uma repele a outra” (“Achegar-se a Ele com Oração e Fé”, A Liahona, março de 2009, p. 4). Em Morôni lemos que: “sem fé não pode haver qualquer esperança” (Morôni 7:42). Temos que exercer fé para enfrentar os desafios e as mudanças da vida. É assim que aprendemos e progredimos.

Quarto, tenha bom ânimo. Muitos de nossos irmãos no mundo estão enfrentando desafios econômicos, bem como desafios de outra natureza. Nessas horas, é fácil sentir desânimo e carência. Naqueles anos difíceis do começo da Igreja, o Senhor aconselhou os santos a serem felizes: “Tende bom ânimo, filhinhos; pois estou no vosso meio e não vos desamparei” (D&C 61:36).

Em seu último discurso na conferência geral, o Élder Joseph B. Wirthlin ensinou como lidar com a adversidade. Parte de seu conselho incluía o seguinte: “Da próxima vez que se sentir tentado a remoer algo, procure experimentar o riso. Isso vai aumentar seu tempo de vida e vai fazer a vida de todos ao redor mais agradável” (“Aconteça o que Acontecer, Desfrute”, A Liahona, novembro de 2008, p. 27). O riso e um bom senso de humor podem suavizar os solavancos da jornada da vida.

Seria ótimo se pudéssemos prever todas as mudanças que porventura ocorressem. Algumas mudanças nós vemos chegar. Certamente todos os rapazes da Igreja são ensinados a preparar-se para uma missão de tempo integral, uma experiência marcante na vida. Todos os jovens adultos solteiros e dignos compreendem a importância de escolher um cônjuge e ser selados no templo sagrado. Sabemos que essas mudanças vão ocorrer e podemos planejar-nos para elas. Mas o que dizer das mudanças que nos chegam sem aviso prévio? Parece que sobre essas mudanças não temos nenhum controle. Períodos de crise econômica, desemprego, doenças debilitantes ou acidentes, divórcio e morte são exemplos de mudanças que não esperamos, não prevemos nem recebemos bem. Como lidamos com esses reveses inesperados na jornada da vida?

A resposta é a mesma. Dando ouvidos aos profetas, mantendo uma perspectiva eterna, tendo fé e bom ânimo, podemos enfrentar os desafios inesperados e “tocar nossa vida”.

A vida dos pioneiros serve de excelente exemplo de como devemos aceitar as mudanças e superar os desafios e as dificuldades.

Robert Gardner Jr. foi batizado na Igreja em janeiro de 1845 num lago coberto de gelo em uma região remota do leste do Canadá. Homem de fé e trabalhador, partiu com a família para Nauvoo e após muita tribulação chegou ao Vale do Lago Salgado em outubro de 1847. Depois de entrar no Vale, acamparam num lugar chamado Old Fort, situado a alguns quarteirões deste Centro de Conferências. Em sua história escrita de próprio punho, ele registrou: “Descarreguei os bois, sentei-me no varão do meu carroção quebrado e disse que não conseguiria viajar mais um dia sequer” (“Robert Gardner Jr. — Self History and Journal”, Biblioteca de História da Família, p. 23).

Começando do zero, Robert iniciou uma vida nova com sua família. Os primeiros anos foram difíceis, mas as coisas foram melhorando gradualmente enquanto ele e o irmão, Archibald, faziam moinhos em Mill Creek e no rio Jordan. Alguns anos mais tarde, a situação se inverteu. A água que alimentava seu moinho foi desviada, deixando seco o ribeirão que ele usava. Robert fez uma tentativa infrutífera de abrir um canal de seis milhas (10 quilômetros).

Vou ler novamente em seu diário: “O canal continuou se rompendo até que vimos que não daria certo. Isso fez com que eu perdesse toda minha colheita e que meu moinho não girasse. Meu armazenamento acabou e eu fiquei completamente sem dinheiro” (“Robert Gardner Jr.— Self History and Journal”, p. 26).

Como se esse teste não fosse o bastante, os registros seguintes em seu diário contam que ele foi chamado para uma missão no Canadá. Alguns meses depois, Robert deixou a família e partiu com um grupo de missionários, viajando de carrinho de mão, barco a vapor e trem para chegar ao campo de trabalho.

Ele terminou sua missão e voltou para a família. Com muito trabalho e diligência estabeleceu-se novamente e começou a prosperar.

Alguns anos depois, o irmão Gardner estava-se divertindo com alguns amigos em sua fazenda em Millcreek no Vale do Lago Salgado. Alguém comentou: “Fico feliz em vê-lo tão bem recuperado depois de ter perdido tudo. Você está quase tão bem financeiramente quanto estava antes de perder sua propriedade e ir para a missão”.

A história de Robert registra: “Minha resposta foi: ‘Sim, eu já estive bem financeiramente e perdi tudo, e estou com um pouco de medo de receber outro chamado [missionário]’. De fato, poucas horas mais tarde, alguns vizinhos que tinham estado numa reunião em Salt Lake City apareceram em casa e disseram que meu nome estava entre os que tinham sido chamados para uma missão no Sul para iniciar um novo assentamento e plantar algodão. Devíamos partir imediatamente”.

Ele registrou o seguinte: “Eu olhei e cuspi no chão, tirei o chapéu, cocei [a cabeça], pensei e disse: ‘Tudo bem’”. (“Robert Gardner Jr.— Self History and Journal”, p. 35; grifo do autor).

Robert Gardner sabia o que era lidar com mudanças na vida. Ele seguiu o conselho das Autoridades Gerais, aceitando chamados para servir quando não era conveniente para ele. Tinha um grande amor pelo Senhor e demonstrou uma fé firme e inabalável, com surpreendente bom humor e dignidade. Robert Gardner Jr. acabou tornando-se um dos principais colonizadores do sul de Utah. Ele e um número incontável de pioneiros dão-nos inspiração para seguir em frente e confrontar sem medo os muitos desafios e mudanças que surgem em nossa vida. Enquanto vamos em frente, “tocando a vida”, sejamos obedientes, fiéis e alegres, é minha oração em nome de Jesus Cristo. Amém.