Aprender as Lições do Passado

M. Russell Ballard

Of the Quorum of the Twelve Apostles


Aprender as lições do passado permite que vocês desenvolvam um testemunho sobre o sólido alicerce da obediência, da fé e do testemunho do Espírito.
 

Vivemos numa época fascinante e às vezes confusa. Outro dia, comentei com um dos meus netos que ia revisar o texto do meu discurso para a conferência geral. Pela expressão do seu rosto, percebi que ele ficou confuso. “Você vai enviar seu discurso por e-mail?” perguntou ele. “Achei que você tivesse que fazê-lo pessoalmente no Centro de Conferências.”

Embora para alguns seja mais fácil enviar o discurso, sou grato pela oportunidade de falar a vocês hoje, porque tenho uma mensagem que julgo ser importante para aquele meu neto, bem como para meus outros netos e para toda a juventude da Igreja.

Há anos, quando eu tinha uma empresa, aprendi uma lição que me custou muito caro porque não ouvi com atenção o conselho do meu pai, nem tampouco atentei para os sussurros do Espírito dando-me a orientação do Pai Celestial. Meu pai e eu trabalhávamos no ramo automobilístico e a Companhia Ford Motor estava procurando distribuidores para vender sua nova linha de carros. Os executivos da Ford convidaram meu pai e a mim para uma exposição de lançamento do que eles achavam que seria um produto de sucesso espetacular. Quando vimos os carros, meu pai, que tinha mais de 35 anos de experiência no negócio, aconselhou-me a não me tornar distribuidor. Mas o pessoal da Ford foi muito persuasivo, e decidi tornar-me o primeiro distribuidor do Edsel em Salt Lake City —e de fato o último. Se vocês não sabem o que é um Edsel, perguntem ao seu avô. Ele vai lhes contar. O Edsel foi um fiasco de vendas.

Vejam que há uma grande lição para todos nessa experiência. Quando vocês estão dispostos a ouvir e aprender, alguns dos ensinamentos mais significativos da vida vêm daqueles que viveram antes de vocês. Eles trilharam o caminho que vocês estão trilhando e passaram por muitas das coisas que vocês estão passando. Se vocês os ouvirem e seguirem seus conselhos, eles vão ajudá-los a fazer escolhas que vão beneficiá-los, que trarão bênçãos e que vão guiá-los para que não tomem decisões potencialmente destrutivas. Ao levarem em consideração seus pais e outros que nasceram antes de vocês, vocês encontrarão exemplos de fé, compromisso, trabalho árduo, dedicação e sacrifício, que deveriam esforçar-se por copiar.

É difícil imaginar uma situação em que não valesse a pena considerar as experiências dos outros e aprender com elas. Muitas profissões exigem períodos de estágio em que os futuros profissionais observam os veteranos mais tarimbados para aprender com os anos de experiência e com a sabedoria que eles acumularam. Os novatos, nos esportes profissionais, sentam no banco e aprendem observando os jogadores mais experientes. Os novos missionários trabalham com um companheiro sênior cuja experiência ajuda o novo missionário a aprender a maneira correta de servir ao Senhor de modo eficaz.

Claro que há momentos em que não temos escolha e nos quais só nos resta aventurar-nos sozinhos e fazer o melhor possível para resolver as coisas enquanto seguimos em frente. Por exemplo, não há muitos da minha geração cuja experiência seja útil quando se trata das tecnologias mais modernas. Quando temos problemas com a tecnologia moderna devemos procurar alguém que saiba mais do que nós — o que geralmente significa perguntar a um de vocês, jovens.

Minha mensagem e testemunho a vocês hoje, meus jovens amigos, é a de que para as perguntas mais importantes de sua vida eterna há respostas nas escrituras e nas palavras e testemunhos dos apóstolos e profetas. O fato de essas palavras virem em grande parte de homens mais velhos, do passado e do presente, não as torna menos relevantes. Na verdade, faz com que suas palavras sejam ainda mais valiosas para vocês, porque vêm de pessoas que aprenderam muito durante anos de vida íntegra.

Há um ditado famoso atribuído a George Santayana. Provavelmente vocês já o ouviram: “Os que não conseguem lembrar-se do passado estão condenados a repeti-lo” (John Bartlett, comp. Familiar Quotations, 15 ed., 1980, p. 703). Na verdade, há muitas variações dessa citação, incluindo esta: “Aqueles que não se lembram do passado são amaldiçoados com a sina de repeti-lo”. Sejam quais forem os termos exatos, o significado é profundo. Há grandes lições a serem aprendidas com o passado, e vocês devem aprendê-las para que não esgotem suas forças espirituais repetindo os erros e as más escolhas feitas anteriormente.

Não é preciso ser um santo dos últimos dias — nem é preciso ser religioso — para ver o padrão que se repete na história da vida dos filhos de Deus conforme registrado no Velho Testamento. Vemos repetirem-se muitas e muitas vezes o ciclo da retidão e iniquidade. Da mesma forma, o Livro de Mórmon registra que antigas civilizações deste continente seguiram exatamente o mesmo padrão: retidão seguida de prosperidade, seguida de conforto material, seguido de ambição, seguida de orgulho, seguido de iniquidade e colapso dos padrões morais até que o povo atraía sobre si calamidades suficientes para levá-los à humildade, ao arrependimento e à mudança.

No período relativamente pequeno de anos que abrangem o Novo Testamento, o padrão histórico se repete. Dessa vez, as pessoas voltaram-se contra Cristo e Seus Apóstolos. O colapso foi de tamanha proporção que ocorreu uma Grande Apostasia, levando a séculos de estagnação espiritual e ignorância conhecidos como a Idade das Trevas.

Agora, preciso ser bastante claro a respeito desses períodos historicamente recorrentes de apostasia e escuridão espiritual. Nosso Pai Celestial ama todos os Seus filhos e quer que todos tenham as bênçãos do evangelho Dele em sua vida. A luz espiritual não se perde porque Deus vira as costas para Seus filhos. Em vez disso, a escuridão espiritual ocorre como resultado de Seus filhos virarem as costas para Ele coletivamente. Isso é uma consequência natural das más escolhas feitas por indivíduos, comunidades, países e civilizações inteiras. Isso tem sido provado inúmeras vezes no decorrer do tempo. Uma das grandes lições desse padrão histórico é a de que nossas escolhas, tanto individuais quanto coletivas, sem dúvida trazem consequências espirituais para nós e nossa posteridade.

Em cada dispensação, o desejo amoroso que Deus tem de abençoar Seus filhos manifesta-se na miraculosa restauração do evangelho à Terra por meio de profetas vivos. A Restauração do evangelho pelo Profeta Joseph Smith no início do Século XIX é apenas o exemplo mais recente. Restaurações similares foram realizadas em épocas anteriores por profetas como Noé, Abraão, Moisés e, claro, pelo próprio Senhor Jesus Cristo.

Os 179 anos que se passaram desde que A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias foi oficialmente organizada foram extraordinários. Nunca na história documentada houve um período de progresso tão notável em termos de ciência e tecnologia. Esses avanços ajudaram a facilitar o crescimento e a expansão do evangelho pelo mundo afora, mas também contribuíram para o aumento do materialismo e da autoindulgência, bem como para o declínio da moralidade.

Vivemos em uma era na qual os padrões de bom gosto e decência em público estão sendo combatidos a tal ponto que parece não haver mais padrão nenhum. Os mandamentos de Deus têm sido atacados pelas ideias inconstantes do mundo que rejeitam totalmente a noção de certo e errado. Parece que certos grupos da sociedade geralmente desconfiam de qualquer pessoa que decida viver de acordo com uma crença religiosa. E quando pessoas de fé tentam alertar outras das possíveis consequências de suas escolhas pecaminosas, são escarnecidas e ridicularizadas e seus ritos mais sagrados e os valores que tanto prezam são motivo de zombaria em público.

Isso soa familiar, meus jovens irmãos e irmãs? Vocês conseguem ver o padrão histórico emergir novamente — o padrão de retidão, seguido de prosperidade, seguida de conforto material, depois seguido da ambição, seguida do orgulho, seguido da iniquidade e do colapso dos padrões morais — o mesmo padrão que vimos repetir-se continuamente nas páginas do Velho e do Novo Testamentos e do Livro de Mórmon? Acima de tudo, que impacto terão as lições do passado nas escolhas pessoais que vocês fazem agora e nas que farão pelo resto de sua vida?

A voz do Senhor é clara e inconfundível. Ele conhece vocês. Ele os ama. Ele quer que sejam eternamente felizes. Mas de acordo com o livre-arbítrio que receberam de Deus, a escolha é sua. Cada um tem que decidir por si mesmo se vai ignorar o passado e cair nos dolorosos erros e nas trágicas ciladas das quais as gerações anteriores foram vítimas, sofrendo as devastadoras consequências das más escolhas. Como a vida de vocês será muito melhor se seguirem o nobre exemplo dos fiéis seguidores de Cristo como os filhos de Helamã, Morôni, Joseph Smith e os intrépidos pioneiros, e se escolherem permanecer fiéis aos mandamentos do Pai Celestial, como eles fizeram!

Desejo de todo o coração e oro para que vocês sejam sábios o bastante para aprenderem as lições do passado. Vocês não têm que gastar tempo sendo um Lamã ou um Lemuel para saberem que é muito melhor ser um Néfi ou um Jacó. Não têm que seguir o caminho que Caim ou os ladrões de Gadiânton seguiram para perceberem que “iniquidade nunca foi felicidade” (Alma 41:10). E não precisam permitir que sua comunidade se torne como Sodoma e Gomorra para entenderem que esse não é um bom lugar para criar os filhos.

Aprender as lições do passado permite que vocês caminhem corajosamente na luz sem correr o risco de tropeçar na escuridão. É assim que deve ser. Este é o plano de Deus: o pai e a mãe, o avô e a avó ensinando seus filhos, e os filhos aprendendo com eles e depois sendo uma geração mais justa, vivendo suas próprias experiências e tendo as próprias oportunidades. Aprender as lições do passado permite que vocês desenvolvam um testemunho sobre o sólido alicerce da obediência, da fé e do testemunho do Espírito.

É claro que não é o suficiente aprender essas lições como se fossem apenas história e cultura. Aprender os nomes, as datas e a sequência dos eventos em um texto não vai ajudar muito, a não ser que o significado e a mensagem estejam escritos em seu coração. Nutridas pelo testemunho e regadas pela fé, as lições do passado podem criar raízes em seu coração e tornar-se uma parte vital de quem vocês são.

No final, o que realmente importa, como sempre, é sua própria fé e testemunho. É isso que faz a diferença, meus jovens irmãos e irmãs. É assim que vocês sabem. É assim que vocês evitam os erros do passado e elevam sua espiritualidade para o nível seguinte. Se vocês estiverem abertos e receptivos aos sussurros do Espírito Santo em sua vida, entenderão as lições do passado e elas serão gravadas em sua alma pelo poder de seu testemunho.

E como vocês adquirem um testemunho assim? Bom, não existe nenhuma nova tecnologia para isso, nem jamais haverá. Não dá para obter um testemunho pesquisando no Google. Não podem adquirir fé enviando uma mensagem de texto. Vocês ganham um testemunho forte, capaz de mudar sua vida, do mesmo jeito de sempre. O processo não mudou. Ele vem com o desejo, o estudo, a oração, a obediência e o serviço. É por isso que os ensinamentos dos profetas e apóstolos, no passado e no presente, são tão relevantes em sua vida hoje como sempre o foram.

Que vocês encontrem alegria, felicidade e paz no futuro, aprendendo as grandes e eternas lições do passado é minha oração por todos vocês — por meus netos e por todos os jovens da Igreja, onde quer que estejam — que ofereço em nome de Jesus Cristo. Amém.