Curar os Enfermos

Dallin H. Oaks

Do Quórum dos Doze Apóstolos


Dallin H. Oaks
Temos esse poder do sacerdócio e devemos todos estar preparados para usá-lo devidamente.

Nestes tempos de tumulto mundial, cada vez mais pessoas de fé buscam o Senhor para receber bênçãos de consolo e cura. Gostaria de dirigir-me a esta congregação de portadores do sacerdócio para falar da cura de enfermos: pela ciência médica, pelas orações da fé e pelas bênçãos do sacerdócio.

I.

Os santos dos últimos dias acreditam em aplicar as melhores técnicas e conhecimentos científicos disponíveis. Usamos a nutrição, os exercícios e outras práticas para preservar a saúde e recrutar a ajuda de profissionais da saúde, como médicos e cirurgiões, para restaurá-la.

A utilização das ciências médicas não está em desacordo com nossas orações de fé e nossa confiança nas bênçãos do sacerdócio. Quando uma pessoa solicitava uma bênção do sacerdócio, Brigham Young perguntava: “Já [usou] qualquer tipo de remédio?” Para os que respondiam que não porque “queremos que os élderes nos imponham as mãos e tenham fé para que [sejamos] curados”, o Presidente Young respondia: “Isso seria incoerente de acordo com minha fé. Se estivermos enfermos e pedirmos ao Senhor que nos cure, e faça tudo o que nos é necessário, de acordo com o meu entendimento do evangelho da salvação, eu poderia também pedir ao Senhor que fizesse crescer o trigo e o milho em meus campos, sem que eu tivesse o trabalho de ará-los e lançar a semente. Parece-me mais razoável aplicar todos os remédios que vierem ao alcance de meu conhecimento e pedir ao Pai Celestial (…) que santifique aquela aplicação para a cura de meu corpo”.1

Evidentemente, não precisamos esperar que todos os outros métodos tenham sido utilizados para orar com fé ou dar bênçãos do sacerdócio para cura. Nas emergências, as orações e as bênçãos vêm em primeiro lugar. É mais frequente utilizarmos todas essas coisas ao mesmo tempo. Isso está de acordo com o ensinamento das escrituras de que devemos “orar sempre” (D&C 90:24) e de que todas as coisas devem ser feitas com sabedoria e ordem.2

II.

Sabemos que a oração da fé, proferida em particular, em nosso lar ou no local de adoração, pode ser eficaz para curar os enfermos. Muitas escrituras falam do poder da fé na cura de uma pessoa. O Apóstolo Tiago ensinou que devemos “[orar] uns pelos outros, para que sareis”, acrescentando que “a oração feita por um justo pode muito em seus efeitos” (Tiago 5:16). Quando a mulher que tocou em Jesus foi curada, Ele disse a ela: “A tua fé te salvou” (Mateus 9:22).3 De modo semelhante, o Livro de Mórmon ensina que o Senhor “opera com poder, de acordo com a fé dos filhos dos homens” (Morôni 10:7).

Uma recente pesquisa realizada nos Estados Unidos revelou que quase oito em cada dez americanos “acreditam que ainda ocorrem milagres hoje em dia, como antigamente”. Um terço das pessoas que responderam à pesquisa disseram ter “vivenciado ou testemunhado uma cura divina”.4 Muitos santos dos últimos dias sentiram o poder da fé para curar os enfermos. Ouvimos também exemplos disso entre as pessoas fervorosas de outras religiões. Um jornalista do Texas descreveu um desses milagres. Quando sua filha de cinco anos ficou subitamente com febre e dificuldade para respirar, os pais a levaram correndo a um hospital. Quando ali chegou, os rins e os pulmões haviam parado de funcionar, ela estava com quase 42 graus de febre e com a pele toda vermelha, cheia de feridas roxas. Os médicos disseram que ela estava morrendo de uma síndrome de choque tóxico, de causa desconhecida. Quando a notícia chegou aos familiares e amigos, que eram pessoas tementes a Deus, eles começaram a orar por ela, e um culto especial de oração foi realizado em sua congregação protestante, em Waco, Texas. Milagrosamente, de repente ela deixou de estar à beira de morte e, em pouco mais de uma semana, recebeu alta do hospital. Seu avô escreveu: “Ela é uma prova viva de que Deus realmente responde as orações e opera milagres”.5

Em verdade, como ensina o Livro de Mórmon, Deus “se manifesta a todos os que nele creem, pelo poder do Espírito Santo; sim, a toda nação, tribo, língua e povo, fazendo grandes milagres (…) no meio dos filhos dos homens, de acordo com sua fé” (2 Néfi 26:13).

III.

Para esta congregação, formada por adultos que possuem o Sacerdócio de Melquisedeque e rapazes que logo receberão esse poder, vou concentrar meus comentários nas bênçãos de cura que envolvem o poder do sacerdócio. Temos esse poder do sacerdócio e devemos todos estar preparados para usá-lo devidamente. O aumento que tem havido atualmente nas calamidades naturais e nos problemas financeiros mostra que precisaremos desse poder no futuro ainda mais do que antes.

Muitas escrituras ensinam que os servos do Senhor “porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão” (Marcos 16:18).6 Os milagres acontecem quando a autoridade do sacerdócio é usada para abençoar os enfermos. Já vi esses milagres. Quando rapaz, e depois de adulto, vi curas tão milagrosas quanto as registradas nas escrituras, e muitos de vocês também já as viram.

Há cinco partes no uso da autoridade do sacerdócio para abençoar os enfermos: (1) a unção, (2) o selamento da unção, (3) a fé, (4) as palavras de bênção e (5) a vontade do Senhor.

Unção

O Velho Testamento frequentemente menciona a unção com óleo como parte de uma bênção conferida pela autoridade do sacerdócio.7 A unção era uma cerimônia bastante conhecida para a santificação8, e talvez também possa ser vista como símbolo das bênçãos que seriam derramadas do céu em consequência desse ato sagrado.

No Novo Testamento, lemos que os Apóstolos de Jesus “ungiam muitos enfermos com óleo, e os curavam” (Marcos 6:13). O livro de Tiago ensina o papel da unção em relação a outros elementos da bênção de cura pela autoridade do sacerdócio:

“Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor;

E a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados” (Tiago 5:14–15).

Selamento da Unção

Quando alguém for ungido pela autoridade do Sacerdócio de Melquisedeque, a unção é selada por essa mesma autoridade. Selar algo significa confirmá-lo e torná-lo válido para o propósito pretendido. Quando os élderes ungem uma pessoa enferma e selam a unção, abrem as janelas do céu para que o Senhor derrame a bênção que Ele deseja conceder à pessoa aflita.

O Presidente Brigham Young ensinou: “Quando imponho as mãos sobre um enfermo, espero ser um instrumento pelo qual o poder de cura e a influência de Deus manifestem-se em favor do paciente e a doença ceda. (…) Quando estamos preparados, quando somos vasos santos diante do Senhor, um fluxo de poder pode emanar do Todo-Poderoso, passar pelo tabernáculo do administrador para o organismo do paciente e, então, o enfermo é curado (…)”.9

Embora saibamos de muitos casos em que pessoas abençoadas pela autoridade do sacerdócio foram curadas, raramente relatamos essas curas em reuniões públicas porque a revelação moderna nos adverte para que não “[nos vangloriemos] destas coisas nem [falemos] delas diante do mundo; pois estas coisas vos são dadas para vosso proveito e salvação” (D&C 84:73).

A fé é essencial para a cura pelos poderes do céu. O Livro de Mórmon até ensina que “se não houver fé entre os filhos dos homens, Deus não pode fazer milagres entre eles” (Éter 12:12).10 Em um discurso extraordinário sobre a bênção de enfermos, o Presidente Spencer W. Kimball disse: “A necessidade da fé é frequentemente subestimada. O enfermo e a família geralmente parecem depender inteiramente do poder do sacerdócio e do dom de cura que os irmãos que ministram a bênção possam ter, quando na verdade a responsabilidade maior cabe àquele que é abençoado. (…) O elemento principal é a fé exercida pela pessoa, quando ela está consciente e lúcida. ‘A tua fé te salvou’ (Mateus 9:22) é uma frase repetida tantas vezes pelo Mestre que quase se tornou um refrão”.11

O Presidente Kimball até sugeriu que “bênçãos ministradas com muita frequência podem ser indício de falta de fé ou de que o enfermo está tentando passar a responsabilidade pelo desenvolvimento da fé para os élderes, em vez de assumi-la ele mesmo”. Ele contou-nos sobre uma irmã fiel que recebeu uma bênção do sacerdócio. Quando lhe perguntaram no dia seguinte se ela queria receber outra bênção, ela respondeu: “Não, já fui ungida e abençoada. A ordenança foi realizada. Agora cabe a mim reivindicar a bênção por meio da minha fé”.12

Palavras de Bênção

Outra parte da bênção do sacerdócio são as palavras de bênção proferidas pelo élder depois de selar a unção. Essas palavras podem ser muito importantes, mas seu conteúdo não é essencial, e elas não são registradas nos anais da Igreja. Em algumas bênçãos do sacerdócio, como a bênção patriarcal, as palavras proferidas são a essência da bênção. Mas, em uma bênção de cura, são as outras partes da bênção — a unção, o selamento, a fé e a vontade do Senhor — que são os elementos essenciais.

De modo ideal, o élder que oficia deve estar tão sintonizado com o Espírito do Senhor a ponto de conhecer e declarar a vontade do Senhor nessas palavras de bênção. Brigham Young ensinou aos líderes do sacerdócio: “Vocês têm o privilégio e o dever de viver de modo a poderem reconhecer quando a palavra do Senhor lhes for ensinada e quando Sua mente lhes for revelada”.13 Quando isso acontecer, a bênção proferida será literal e milagrosamente cumprida. Em certas ocasiões especiais, vi essa certeza de inspiração em uma bênção de cura e soube que estava exprimindo a vontade do Senhor. Contudo, como a maioria dos que oficiam nas bênçãos de cura, geralmente me debato com a incerteza do que devo dizer. Por várias razões, cada élder vivencia altos e baixos em seu grau de sensibilidade aos sussurros do Espírito. Todo élder que dá uma bênção está sujeito à influência daquilo que ele deseja em favor da pessoa aflita. Isso, além de outras imperfeições mortais, pode afetar o que dizemos.

Felizmente, as palavras pronunciadas em uma bênção de cura não são essenciais para seu efeito de cura. Se a fé for suficiente e se for da vontade do Senhor, a pessoa afligida será curada ou abençoada, quer a pessoa que ministra a bênção diga essas palavras ou não. Por outro lado, se a pessoa que profere a bênção ceder ao desejo pessoal ou, por inexperiência, exceder-se nas ordens ou nas palavras de bênção em relação ao que o Senhor deseja conceder, de acordo com a fé da pessoa, essas palavras não serão cumpridas. Consequentemente, irmãos, nenhum élder deve jamais hesitar em participar de uma bênção de cura por temor de não saber o que dizer. As palavras proferidas em uma bênção de cura podem edificar e vivificar a fé daqueles que as ouvem, mas o efeito da bênção depende da fé e da vontade do Senhor, e não das palavras proferidas pelo élder que ministra a bênção.

A Vontade do Senhor

Rapazes e homens mais idosos, prestem especial atenção ao que vou dizer agora. Ao exercermos o indubitável poder do sacerdócio de Deus tendo em mente Sua promessa de ouvir e responder a oração da fé, não podemos esquecer que a fé e o poder de cura do sacerdócio não podem produzir um resultado contrário à vontade Daquele a Quem o sacerdócio pertence. Esse princípio é ensinado na revelação que ordena aos élderes da Igreja que imponham as mãos sobre os enfermos. O Senhor prometeu que “aquele que tiver fé em mim para ser curado e não estiver designado para morrer, será curado” (D&C 42:48; grifo do autor). De modo semelhante, em outra revelação moderna o Senhor declara que, quando alguém “pede de acordo com a vontade de Deus (…) é feito como pede” (D&C 46:30).14

Com tudo isso, aprendemos que mesmo exercendo Seu divino poder em uma situação em que haja suficiente fé para curar, os servos do Senhor não podem dar uma bênção do sacerdócio que faça uma pessoa ser curada, se a cura não for a vontade do Senhor.

Como filhos de Deus, sabendo de Seu grande amor e de Seu conhecimento supremo do que é melhor para nosso bem-estar eterno, confiamos Nele. O primeiro princípio do evangelho é fé no Senhor Jesus Cristo, e fé significa confiança. Senti essa confiança em um discurso feito por um amigo meu no funeral de uma adolescente que morreu de uma doença grave. Ele proferiu estas palavras, que a princípio me surpreenderam, e, depois me edificaram: “Sei que foi da vontade do Senhor que ela morresse. Ela recebeu bons cuidados médicos. Recebeu bênçãos do sacerdócio. Seu nome foi colocado na lista de orações do templo. Ela foi o enfoque de centenas de orações para que sua saúde fosse restabelecida. E sei que havia suficiente fé em sua família para que ela fosse curada, a menos que fosse da vontade do Senhor levá-la de volta para casa nesta ocasião”. Senti essa mesma confiança nas palavras do pai de outra adolescente cuja vida foi levada por um câncer. Ele declarou: “Nossa família tem fé em Jesus Cristo, e essa fé não depende dos resultados”. Esses ensinamentos me soam como verdadeiros. Fazemos todo o possível para a cura de um ente querido e depois confiamos no Senhor para o resultado.

Presto testemunho do poder do sacerdócio de Deus, do poder da oração da fé e da veracidade desses princípios. Sobretudo, testifico do Senhor Jesus Cristo, de Quem somos servos, Daquele cuja Ressurreição dá-nos a certeza da imortalidade e cuja Expiação nos concede a oportunidade da vida eterna, o maior de todos os dons de Deus. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

Exibir Referências

  1.  

    1.  Discursos de Brigham Young, sel. John A. Widtsoe, 1954, p. 163.

  2.  

    2. Ver Mosias 4:27.

  3.  

    3. Ver também Marcos 10:46–52; Lucas 18:35–43.

  4.  

    4.  U.S. Religious Landscape Survey: Religious Beliefs and Practices: Diverse and Politically Relevant, (The Pew Forum on Religion and Public Life, junho de 2008) pp. 34–54, http://religions.pewforum.org /reports#.

  5.  

    5. Ver Steve Blow, “Sometimes, ‘Miracles’ Are Just That”, Dallas Morning News, 30 de janeiro de 2000, p. 31A.

  6.  

    6. Ver também Mateus 9:18; Marcos 5:23; 6:5; 7:32–35; 16:18; Lucas 4:40; Atos 9:12, 17; 28:8; Doutrina e Convênios 42:44, 48; 66:9.

  7.  

    7. Ver, por exemplo, Êxodo 28:41; Samuel 10:1; 16:13; II Samuel 5:3.

  8.  

    8. Ver Levítico 8:10–12.

  9.  

    9.  Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Brigham Young, 1997, p. 252; ver também Russell M. Nelson, “Não Confiar no Braço de Carne”, A Liahona, março de 2010, p. 40; Gordon B. Hinckley, Teachings of Gordon B. Hinckley, 1997, p. 474.

  10.  

    10. Ver também 1 Néfi 7:12; Doutrina e Convênios 35:9.

  11.  

    11. “President Kimball Speaks Out on Administration to the Sick”, Tambuli, agosto de 1982, pp. 36–37.

  12.  

    12.  Tambuli, agosto de 1982, p. 36.

  13.  

    13.  Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Brigham Young, p. 68.

  14.  

    14. Ver também I João 5:14; Helamã 10:5.