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Abril 2010 | “Vós Sois Minhas Mãos”

“Vós Sois Minhas Mãos”

Abril 2010 Conferência Geral

Como discípulos de Jesus Cristo, nosso Mestre, somos chamados a apoiar e curar, em vez de condenar.

Conta-se a história de que, durante o bombardeio de uma cidade na Segunda Guerra Mundial, uma grande estátua de Jesus Cristo foi seriamente danificada. Quando os moradores encontraram a estátua entre os escombros, eles se lamentaram porque ela fora um símbolo querido de sua fé e da presença de Deus em sua vida.

Peritos conseguiram reparar a maior parte da estátua, mas as mãos haviam sido tão danificadas que não puderam ser restauradas. Algumas pessoas sugeriram que contratassem um escultor para fazer novas mãos, mas outros queriam deixá-la como estava — uma lembrança permanente da tragédia da guerra. Ao final, a estátua permaneceu sem as mãos. Contudo, o povo da cidade acrescentou ao pé da estátua de Jesus Cristo uma placa com estas palavras: “Vós sois minhas mãos”.

Somos as Mãos de Cristo

Existe uma lição profunda nessa história. Quando penso no Salvador, com frequência imagino-O com as mãos estendidas para consolar, curar, abençoar e amar. Ele sempre conversava de igual para igual com as pessoas —, nunca as fazia sentir-se inferiores. Ele amava o humilde e o manso, e caminhava ao lado deles, ministrando-lhes e oferecendo-lhes esperança e salvação.

Foi isso que fez durante Sua vida mortal; é isso que estaria fazendo caso vivesse entre nós hoje; e é isso que devemos fazer como Seus discípulos e membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Nesta linda manhã de Páscoa, nossos pensamentos e nosso coração estão voltados para Ele — a Esperança de Israel e a Luz do Mundo.

Ao seguirmos Seu exemplo perfeito, nossas mãos podem tornar-se Suas mãos; nossos olhos, Seus olhos, e nosso coração, Seu coração.

Nossas Mãos Podem Abraçar

Sinto-me profundamente impressionado pela maneira como os membros da Igreja servem aos outros. Ao ouvirmos sobre seu sacrifício altruísta e imensa compaixão, nosso coração se enche de gratidão e felicidade. Vocês são uma luz que brilha no mundo e são conhecidos por sua bondade e compaixão no mundo inteiro.

Infelizmente, de tempos em tempos também ficamos sabendo de membros da Igreja que ficam desanimados e, em seguida, deixam de frequentar as reuniões da Igreja e de participar delas porque acham que não fazem parte dela.

Quando eu era pequeno, a Alemanha ficou falida e em ruínas como consequência da Segunda Guerra Mundial. Muitas pessoas estavam famintas, doentes e outras estavam morrendo. Lembro-me bem dos carregamentos humanitários de comida e roupas enviados pela sede da Igreja em Salt Lake City. Até hoje, ainda lembro o cheiro das roupas e sinto a doçura dos pêssegos enlatados.

Houve algumas pessoas que se filiaram à Igreja por causa do que receberam naquela época. Alguns membros humilhavam esses recém-conversos. Até os chamavam por nomes ofensivos. Büchsen Mormonen ou “Mórmons de Comida Enlatada”. Ressentiam-se desses novos membros porque acreditavam que, uma vez que suas necessidades materiais fossem atendidas, eles se afastariam.

Apesar de alguns terem-se afastado, muitos ficaram — foram para a Igreja, provaram a doçura do evangelho e sentiram o terno abraço de irmãos e irmãs que se importavam com eles. Eles descobriram que estavam “em casa”. E agora, três ou quatro gerações depois, muitas famílias refazem o caminho de seus antepassados na Igreja até chegarem a esses conversos.

Espero que tratemos bem e amemos todos os filhos de Deus, inclusive aqueles que talvez se vistam, pareçam, falem ou apenas ajam diferentemente. Não é bom fazer com que outros se sintam como se fossem deficientes. Que ergamos os que estiverem ao nosso redor. Vamos recebê-los bem. Tratemos nossos irmãos e nossas irmãs da Igreja com uma medida especial de humanidade, compaixão e caridade para que sintam, finalmente, que chegaram em casa.

Quando formos tentados a julgar, pensemos no Salvador, que “ama o mundo a ponto de entregar sua própria vida para atrair a si todos os homens.

[E] ele diz: Vinde a mim todos vós, extremos da Terra (…) [pois], todo homem tem tanto privilégio quanto qualquer outro e nenhum é excluído”.1

Ao ler as escrituras, parece que aqueles que recebem as maiores reprimendas do Salvador são, com frequência, aqueles que se consideram os melhores devido a sua riqueza, influência ou seu senso de retidão.

Certa ocasião, o Salvador ensinou a parábola de dois homens que foram ao templo orar. Um dos homens, um fariseu respeitado, orou: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens: roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo”.

O outro homem, um publicano odiado, estava em pé, “de longe, [e] nem queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador”. E Jesus disse:

“Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele”.2

Na verdade, nós “todos [pecamos] e destituídos [estamos] da glória de Deus.”3 Todos precisamos de misericórdia. No último dia, quando formos chamados ao tribunal do julgamento de Deus, não esperamos que muitas de nossas imperfeições sejam perdoadas? Não ansiamos por sentir o abraço do Salvador?

Parece correto e adequado que façamos aos outros aquilo que tão sinceramente desejamos para nós mesmos.

Não estou sugerindo que aceitemos o pecado e ignoremos o mal, seja em nossa própria vida ou no mundo. Contudo, em nosso zelo, algumas vezes confundimos o pecado com o pecador e condenamos rápido demais e com pouquíssima compaixão. Sabemos, por revelação moderna, que “o valor das almas é grande à vista de Deus”.4 Não podemos avaliar o valor de outra alma, da mesma forma que não podemos medir a envergadura do universo. Toda pessoa que encontramos é VIP, muito importante para o nosso Pai Celestial. Uma vez que compreendamos isso, podemos começar a entender como devemos tratar o próximo.

Certa mulher que passara por anos de provações e tristezas disse, em meio às lágrimas: “Cheguei à conclusão de que sou como uma velha nota de vinte dólares — amassada, rasgada, suja, maltratada e manchada. Mas ainda sou uma nota de vinte dólares. Valho alguma coisa. Muito embora não tenha boa aparência e esteja danificada e usada, ainda valho todos os vinte dólares”.

Nossas Mãos Podem Consolar

Com isso em mente, estendamos nosso coração e nossas mãos com compaixão para as outras pessoas, pois todos trilham seu próprio e penoso caminho. Como discípulos de Jesus Cristo, nosso Mestre, somos chamados a apoiar e curar, em vez de condenar. Recebemos o mandamento de “chorar com os que choram e consolar os que necessitam de consolo”.5

É indigno de nós, como cristãos, pensar que as pessoas que sofrem merecem seu sofrimento. O domingo de Páscoa é um bom dia para lembrar que nosso Salvador tomou voluntariamente sobre Si as dores, as enfermidades e o sofrimento de todos nós — até mesmo daqueles dentre nós que parecem merecer esse sofrimento.6

No livro de Provérbios lemos que: “Em todo o tempo ama o amigo e para a hora da angústia nasce o irmão”.7 Amemos sempre. E, especialmente, que estejamos ao lado de nossos irmãos e nossas irmãs durante seus momentos de adversidade.

Nossas Mãos Podem Servir

Uma antiga lenda judaica fala de dois irmãos, Abram e Zimri, que possuíam um campo e trabalhavam nele juntos. Concordaram em dividir igualmente o trabalho e a colheita. Certa noite, quando haviam terminado a colheita, Zimri não conseguia dormir, porque não parecia certo que Abram, que tinha esposa e sete filhos para alimentar, recebesse apenas metade da colheita, enquanto ele, que só precisava sustentar a si mesmo, tinha tanto.

Então, Zimri vestiu-se e silenciosamente foi para o campo, de onde pegou um terço de sua colheita e colocou na pilha do irmão. Depois, voltou para a cama, satisfeito por saber que havia feito a coisa certa.

Nesse meio tempo, Abram também não conseguia dormir. Ele pensava em seu pobre irmão Zimri, que estava completamente sozinho e não tinha filhos para ajudá-lo no trabalho. Não parecia certo que Zimri, que trabalhava tão arduamente sozinho, somente tivesse metade da colheita. Certamente isso não agradava a Deus. Então, Abram foi silenciosamente ao campo, de onde pegou um terço de sua colheita e colocou na pilha de seu amado irmão.

Na manhã seguinte, os irmãos foram para o campo e ambos ficaram espantados com as pilhas, que pareciam ter ainda o mesmo tamanho. Naquela noite, os dois irmãos saíram de sua casa para repetir o trabalho da noite anterior. Mas dessa vez, descobriram um ao outro e, quando o fizeram, choraram e abraçaram-se. Nenhum deles conseguia falar, pois seu coração estava tomado pelo amor e pela gratidão.8

Esse é o espírito da compaixão: que amemos o próximo como a nós mesmos,9 que busquemos a felicidade deles e que façamos a eles o que esperamos que façam a nós.10

O Verdadeiro Amor Requer Ação

O verdadeiro amor requer ação. Podemos falar de amor o dia todo — podemos escrever bilhetes e poemas que o proclamem, cantar canções que o louvem e pregar sermões que o incentivem; mas, até que coloquemos esse amor em ação, nossas palavras serão nada mais que “o metal que soa ou como sino que tine”.11

Cristo não falou de amor simplesmente; Ele o demonstrou em cada dia de Sua vida. Ele não Se afastou da multidão. Ao ficar em meio ao povo, Jesus estendeu a mão ao necessitado. Resgatou o perdido. Jesus não apenas deu uma aula sobre servir com amor e, depois, delegou o trabalho a outros. Ele não apenas ensinou, mas também mostrou-nos como “[socorrer] os fracos, [erguer] as mãos que pendem e [fortalecer] os joelhos enfraquecidos”.12

Cristo sabe como ministrar a outros perfeitamente. Quando o Salvador estende Suas mãos, aqueles a quem Ele toca são edificados e, como resultado, tornam-se pessoas excelentes, mais fortes e melhores.

Se somos Suas mãos, por que não fazemos o mesmo?

Podemos Amar Como Ele Ama

O Salvador revelou as prioridades perfeitas para nossa vida, nosso lar, nossa ala, comunidade e nossa nação, quando falou do amor como o grande mandamento de que “dependem toda a lei e os profetas”.13 Podemos passar o tempo ocupados com os detalhes mais minuciosos da vida, com a lei e uma longa lista de coisas para fazer, mas ao negligenciarmos os grandes mandamentos, perderemos nosso objetivo e seremos nuvens sem água, levadas pelo vento, e árvores infrutíferas.14

Sem esse amor por Deus, o Pai, e por nossos semelhantes, somos apenas o formato de Sua Igreja, mas sem a substância. Qual é o valor de nosso ensino sem o amor? Quão bom é o missionário, o templo ou o trabalho de bem-estar, sem amor?

O amor que inspirou nosso Pai Celestial a criar nosso espírito é o que levou nosso Salvador ao Jardim do Getsêmani para fazer de Si o resgate por nossos pecados. O amor é o grandioso motivo do plano de salvação; é a fonte da felicidade, é o poço sempre renovável da cura, a fonte preciosa da esperança.

Ao estendermos nossas mãos e o nosso coração com amor cristão, na direção de outras pessoas, algo maravilhoso acontecerá a nós. Nosso próprio espírito fica curado, mais refinado e mais forte. Ficamos mais alegres, mais calmos e mais receptivos aos sussurros do Espírito Santo.

Do fundo de meu coração e de minha alma, dou graças a nosso Pai Celestial por Seu amor por nós, pela dádiva de Seu Filho, pela vida e pelo exemplo de Jesus, o Cristo, e por Seu sacrifício altruísta e livre de pecado. Regozijo-me no fato de que Cristo não está morto, mas ressuscitou do túmulo! Ele vive e voltou à Terra para restaurar a Sua autoridade e o Seu evangelho ao homem. Ele nos deu o exemplo perfeito do tipo de homens e mulheres que devemos ser.

Neste domingo de Páscoa, e em todos os outros dias, ao considerarmos com reverência e assombro como nosso Salvador nos abraça, consola-nos e nos cura, que assumamos o compromisso de nos tornarmos Suas mãos, para que outros possam, por nosso intermédio, sentir Seu abraço amoroso. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

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    1. 2 Néfi 26:24–25, 28; grifo do autor.

    2. Ver Lucas 18:9–14.

    3. Romanos 3:23.

    4. Doutrina e Convênios 18:10.

    5. Mosias 18:9.

    6. Ver Alma 7:11–13; Doutrina e Convênios 19:16.

    7. Provérbios 17:17.

    8. Ver Clarence Cook, Abram and Zimri”, em Poems, by Clarence Cook, 1902, pp. 6–9.

    9. Ver Mateus 22:39.

    10. Ver Mateus 7:12.

    11. I Coríntios 13:1.

    12. Doutrina e Convênios 81:5.

    13. Mateus 22:40.

    14. Ver Judas 1:12.