Quão Astuto É o Plano do Maligno

M. Russell Ballard

Do Quórum dos Doze Apóstolos


Há esperança para quem tem vícios e essa esperança existe graças à Expiação do Senhor Jesus Cristo.
 

Irmãos e irmãs, a chegada do outono aqui nas Montanhas Rochosas traz consigo as gloriosas cores das folhas que passam do verde a um vibrante alaranjado, vermelho e amarelo. Durante o outono, toda a natureza está em transição, preparando-se para a fria e austera beleza do inverno.

O outono traz ainda mais emoções para quem gosta de pescar, pois esta é a época em que as trutas são levadas por uma fome insaciável a comer sem parar para ficarem fortes antes dos tempos de escassez de comida no inverno.

A meta do pescador é fisgar as trutas enganando-as com astúcia. O bom pescador estuda o comportamento das trutas, as condições climáticas, a corrente aquática, os tipos de insetos que as trutas comem e a época em que esses insetos nascem. Muitas vezes ele prepara à mão as iscas que usa. Sabe que esses insetos artificiais que levam anzóis minúsculos dentro precisam ser cópias perfeitas, porque as trutas percebem as menores diferenças e rejeitam a isca.

Que emoção é ver uma truta romper a superfície da água, engolir o inseto e resistir até que, finalmente, exausta, é recolhida pelo pescador. A prova está no embate entre a habilidade e o conhecimento do pescador e a habilidade da nobre truta.

O uso de iscas artificiais para enganar e pegar peixes ilustra a maneira como muitas vezes Lúcifer nos tenta, engana e procura nos fisgar.

Assim como o pescador sabe que as trutas são motivadas pela fome, Lúcifer sabe qual é a nossa “fome” ou quais são as nossas fraquezas e nos tenta com iscas fabricadas que, se aceitas, podem fazer com que sejamos puxados do ribeirão da vida para suas garras impiedosas. Há pescadores que pescam e depois soltam os peixes na água sem fazer-lhes mal, Lúcifer não é assim, ele não liberta ninguém espontaneamente. Sua meta é tornar suas vítimas tão miseráveis quanto ele.

Leí disse: “E [Lúcifer] por haver caído do céu, tendo-se tornado miserável para sempre, procurou também a miséria de toda a humanidade” (2 Néfi 2:18).

Uno minha voz à das outras Autoridades Gerais e digo que Lúcifer é esperto e cheio de astúcia. Um dos principais métodos que ele emprega contra nós é sua habilidade de mentir e enganar para convencer-nos de que o mal é o bem e o bem é o mal. Desde o início, no grande conselho no céu, Satanás procurou “destruir o arbítrio do homem, o qual (…) o Senhor Deus, lhe dera. (…)

E ele tornou-se Satanás, sim, o próprio diabo, o pai de todas as mentiras, para enganar e cegar os homens e levá-los cativos segundo sua vontade” (Moisés 4:3–4).

A batalha pelo arbítrio dado por Deus continua até hoje. Satanás e seus subordinados mantêm suas iscas a nossa volta, na esperança de que vacilemos e as mordamos para que ele nos fisgue por meio do engano. Ele usa os vícios para roubar nosso arbítrio. Os vícios são tudo o que nos leva a render-nos a algo que nos faça abrir mão de nosso arbítrio e passar a ser dependente de qualquer substância ou comportamento destrutivos. 1

Os pesquisadores dizem que existe um mecanismo em nosso cérebro chamado de “centro de prazer”. 2 Quando ativado por certas drogas ou ações, ele se sobrepõe à parte de nosso cérebro que governa a força de vontade, o discernimento, a lógica e a moral. Isso leva o viciado a abandonar aquilo que sabe ser certo. Quando isso acontece, a pessoa foi fisgada e Lúcifer assume o controle.

Satanás sabe como nos capturar fazendo uso de substâncias artificiais e ações que nos dão prazer temporário. Já observei o impacto disso ao ver como é dura a luta para recobrar o controle, libertar-se dos vícios destrutivos e recuperar a autoestima e a independência.

Entre as drogas que mais causam dependência e que, quando tomadas de forma indevida, podem controlar nosso cérebro e eliminar nosso arbítrio estão: a nicotina; os opiáceos — heroína, morfina e outros analgésicos; os tranquilizantes; a cocaína; as bebidas alcoólicas; a maconha; e as metanfetaminas.

Sou grato por haver médicos treinados para prescrever a medicação certa para aliviar a dor e o sofrimento. Infelizmente hoje, em muitas comunidades, inclusive em algumas formadas por membros da nossa Igreja, muitas pessoas se tornam dependentes e abusam do uso de medicamentos. Lúcifer, que é o pai de todas as mentiras, sabe disso e usa sua influência para roubar o arbítrio das pessoas e aprisionar o usuário com suas terríveis correntes (ver 2 Néfi 28:22).

Há pouco tempo falei com uma irmã que estava na unidade psiquiátrica de um hospital local. Ela contou-me seu doloroso trajeto que a levou de um estado de total saúde física e mental, com um casamento e uma família excelentes, a um estado de doença mental, saúde debilitada e a dissolução de sua família; e tudo começou com o uso indevido de um analgésico que lhe foi receitado.

Dois anos antes de nossa conversa, ela machucou as costas num acidente de carro. O médico receitou um remédio para aliviar a dor quase insuportável. Ela achou que precisava de mais remédios; então, falsificou receitas e, por fim, recorreu à compra de heroína. Com isso ela foi presa e encarcerada. Devido a sua obsessão por drogas, seu casamento se desfez. O marido divorciou-se dela e ficou com a guarda dos filhos. Ela contou-me que além de amenizar a dor, as drogas lhe davam temporariamente uma grande sensação de euforia e bem-estar. Mas o efeito de cada dose das drogas só durava algumas horas e parecia que essa sensação de alívio durava menos a cada vez. Ela começou a tomar a droga em quantidades cada vez maiores e entrou em um ciclo vicioso da dependência. As drogas passaram a ser sua vida. Na noite anterior a nossa conversa, ela tentou cometer suicídio. Ela disse que não suportava mais o sofrimento físico, emocional e espiritual. Sentia-se encurralada, sem saída e sem esperanças.

Essa irmã não é a única pessoa com problemas quanto ao abuso de medicamentos e uso de outras drogas; vemos isso em toda parte. Há lugares em que mais pessoas morrem devido ao abuso de medicamentos do que em acidentes de carro. 3 Irmãos e irmãs, fiquem longe de toda e qualquer substância que possa aprisioná-los; cheirar uma vez só, tomar um comprimido só ou tomar só um copinho pode levar ao vício. Um alcoólatra em recuperação me disse que uma única dose é a diferença entre o vício e a sobriedade. Satanás sabe disso. Não deixem que ele os fisgue com as iscas mentirosas que rapidamente podem levá-los ao vício.

Agora, irmãos e irmãs, peço que não interpretem mal o que eu digo: Não estou questionando o uso de medicamentos restritos receitados pelo médico para aqueles que estão tratando uma doença ou enfrentam grande dor física. Esses remédios são de fato uma bênção. O que estou dizendo é que precisamos seguir fielmente a dosagem prescrita pelo médico e temos que manter esses remédios em um lugar seguro fora do alcance das crianças e de outras pessoas.

Também me preocupo muito com as práticas perniciosas e que levam ao vício como, por exemplo, as apostas e a maléfica pornografia que são tão destrutivas para o indivíduo, e que se alastram em nossa sociedade. Lembrem-se, irmãos, todo e qualquer vício implica em nos rendermos a algo, em abrirmos mão de nosso arbítrio e em tornarmo-nos dependentes. Sendo assim, os videogames e as mensagens de texto pelo celular precisam ser acrescentados à lista. Há quem admita passar até dezoito horas por dia jogando, seguindo nível após nível em jogos eletrônicos, negligenciando todos os outros aspectos de sua vida. O ato de passar mensagens de texto pelo celular pode tornar-se um vício que faz com que se perca a comunicação humana pessoal e direta, que é tão importante. Há não muito tempo um bispo falou-me de dois jovens da sua ala que estavam lado a lado, mandando mensagens de texto um para o outro em vez de falarem um com o outro.

As pesquisas médicas dizem que os vícios ou dependências são “doenças do cérebro”. 4 Isso é verdade, mas acredito que uma vez que Satanás tenha a pessoa em suas mãos, o vício também se torna uma doença do espírito. Seja qual for o ciclo de dependência e vício em que alguém se encontre, sempre há esperança. O profeta Leí ensinou esta verdade eterna a seus filhos: “Portanto os homens são livres segundo a carne; e todas as coisas de que necessitam lhes são dadas. E são livres para escolher a liberdade e a vida eterna por meio do grande Mediador de todos os homens, ou para escolherem o cativeiro e a morte, de acordo com o cativeiro e o poder do diabo” (2 Néfi 2:27).

Quem quer que tenha um vício, se tiver o desejo de vencê-lo encontrará um meio de alcançar a liberdade espiritual, um meio de escapar do cativeiro, e esse método é comprovado: Começa com a oração, com a comunicação sincera, fervorosa e constante com o Criador de nosso espírito e de nosso corpo — nosso Pai Celestial. É o mesmo princípio que utilizamos para tentar superar um mau hábito ou arrepender-nos de qualquer pecado. A fórmula para que nosso coração, corpo, mente e espírito sejam transformados encontra-se nas escrituras.

O profeta Mórmon aconselhou: “Portanto, meus amados irmãos, rogai ao Pai, com toda a energia de vosso coração, que sejais cheios desse amor que ele concedeu (…), que vos torneis os filhos de Deus; (…) que sejamos purificados, como ele é puro” (Morôni 7:48).

Essa e muitas outras escrituras testificam que há esperança para quem tem vícios e essa esperança existe graças à Expiação do Senhor Jesus Cristo, quando nos humilhamos perante Deus, rogando que sejamos libertados do cativeiro do vício e colocando completamente nossa alma a Seus pés, em oração fervorosa.

Os líderes do sacerdócio podem ajudar aqueles que têm dependência, se buscarem os seus conselhos. Quando necessário, podem encaminhá-los ao aconselhamento com profissionais credenciados e por meio dos Serviços Familiares SUD. O programa de recuperação de dependências, com base nos doze passos do programa dos Alcoólicos Anônimos, está facilmente à disposição por meio dos Serviços Familiares SUD.

Tanto ao próprio dependente como a sua família eu repito: a oração fervorosa é a chave para conquistar a força espiritual necessária para encontrar a paz e vencer a compulsão. O Pai Celestial ama a todos os Seus filhos, portanto agradeçam a Ele e expressem fé sincera Nele. Peçam-Lhe forças para vencer o vício que os aprisionou. Deixem todo o orgulho de lado e voltem completamente a própria vida e o coração para Ele. Peçam-Lhe que os encha do poder do puro amor de Cristo. É possível que tenham que fazer isso muitas vezes, mas eu lhes testifico que é possível transformar, purificar e curar seu corpo, mente e espírito, e vocês ficarão livres. Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (João 8:12).

Como nossa meta é tornar-nos mais semelhantes ao Salvador e, um dia, sermos merecedores de viver com o Pai Celestial, cada um de nós precisa passar pela grande mudança no coração descrita pelo profeta Alma no Livro de Mórmon (ver Alma 5:14). Nosso amor ao Pai Celestial e ao Senhor Jesus Cristo precisa transparecer em nossas escolhas e ações diárias. Eles prometeram paz, alegria e felicidade àqueles que cumprirem Seus mandamentos.

Irmãos e irmãs, fiquemos todos atentos às iscas enganadoras que nos são apresentadas pelo astucioso e falso pescador de homens que é Lúcifer. Que tenhamos a sabedoria e o discernimento espiritual para perceber e recusar as muitas coisas perigosas que ele nos oferece.

E, para aqueles que caíram em qualquer tipo de vício, há esperança, porque Deus ama a todos os filhos e porque, graças à Expiação do Senhor Jesus Cristo, tudo é possível.

Eu já vi a bênção maravilhosa da recuperação que é capaz de libertar as pessoas das correntes do vício. O Senhor é nosso Pastor e nada nos faltará se confiarmos no poder da Expiação. Sei que o Senhor é capaz de libertar, e libertará, quem se tornou prisioneiro do vício, pois o Apóstolo Paulo proclamou: “Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (Filipenses 4:13). Oro humildemente que isso aconteça aos que se debatem com esse desafio nesta época de sua vida, e faço isso humildemente em nome de Jesus Cristo. Amém.

Exibir Referências

  1.  

    1. Em inglês, a palavra addiction [vício] tem três sentidos, um dos quais se refere ao ato de “render-se a um amo” audioenglish.net/dictionary/addiction.html.

  2.  

    2. Ver National Institute on Drug Abuse, Drugs, Brains, and Behavior—the Science of Addiction, 2010, p. 18, drugabuse.gov/scienceofaddiction/sciofaddiction.pdf.

  3.  

    3. Ver Erika Potter, “Drug Deaths Overtake Auto Deaths in Utah”, dezembro de 2009, universe.byu.edu/node/4477.

  4.  

    4. Ver National Institute on Drug Abuse, “The Neurobiology of Drug Addiction,” seção IV, n.o 30, drugabuse.gov/pubs/teaching/teaching2/teaching5.html; ver também drugabuse.gov/funding/budget08.html.