Preparação no Sacerdócio: “Preciso de Sua Ajuda”

Henry B. Eyring

Primeiro Conselheiro na Primeira Presidência


Não se preocupem com o quão inexperientes vocês são, ou pensam que são, mas pensem no que podem tornar-se, com a ajuda do Senhor.

Meus queridos irmãos, é uma alegria estar com vocês, nesta reunião mundial do sacerdócio de Deus. Falarei hoje sobre a preparação no sacerdócio, tanto a nossa própria quanto aquela que ajudamos a prover a outros.

A maioria de nós já deve ter questionado algumas vezes: “Será que estou preparado para esta designação do sacerdócio?” Minha resposta é: “Sim, você foi preparado”. Meu objetivo hoje é ajudá-los a reconhecer essa preparação e adquirir coragem por meio dela.

Como sabem, o Sacerdócio Aarônico é designado um sacerdócio preparatório. A grande maioria dos portadores do Sacerdócio Aarônico é de jovens diáconos, mestres e sacerdotes, entre doze e dezenove anos de idade.

Podemos pensar que a preparação no sacerdócio ocorre nos anos do Sacerdócio Aarônico. Mas nosso Pai Celestial vem nos preparando desde que fomos ensinados a Seus pés, em Seu reino, antes de nascermos. Ele está nos preparando hoje à noite. E continuará a preparar-nos, enquanto permitirmos que Ele o faça.

O propósito de toda preparação no sacerdócio, tanto na existência pré-mortal quanto nesta vida, é o de fazer com que nós e as pessoas a quem servimos em nome Dele tornemo-nos aptos para a vida eterna. Algumas das primeiras lições aprendidas na existência pré-mortal sem dúvida incluíram o plano de salvação, com Jesus Cristo e Sua Expiação como pontos centrais. Não apenas aprendemos o plano, mas também estivemos em conselhos nos quais o escolhemos.

Devido ao véu de esquecimento colocado sobre nossa mente ao nascermos, temos de encontrar um meio de reaprender nesta vida o que já sabíamos e defendíamos outrora. Parte de nossa preparação nesta vida foi a de encontrar essa preciosa verdade para podermos novamente comprometer-nos com ela por meio de convênio. Isso exigiu fé, humildade e coragem de nossa parte, além da ajuda de pessoas que haviam encontrado a verdade e que depois a compartilharam conosco.

Podem ter sido pais, missionários ou amigos. Essa ajuda fez parte de nossa preparação. Nossa preparação no sacerdócio sempre inclui outros que já se prepararam para oferecer-nos a oportunidade de aceitar o evangelho e depois decidir agir, cumprindo os convênios, para que eles entrassem em nosso coração. A fim de qualificar-nos para a vida eterna, nosso serviço precisa incluir o empenho de trabalhar com todo o coração, poder mente e força, preparando outras pessoas para retornar conosco à presença de Deus.

Portanto, nesta vida, parte da preparação que teremos no sacerdócio serão as oportunidades de servir e ensinar outras pessoas. Isso pode incluir a oportunidade de sermos professores na Igreja, pais sábios e amorosos, membros de um quórum e missionários para o Senhor Jesus Cristo. O Senhor oferecerá as oportunidades, mas a preparação depende de nós. Meu intento hoje é apontar algumas das escolhas cruciais que são necessárias para uma preparação no sacerdócio bem-sucedida.

As boas escolhas, feitas pela pessoa que está sendo instruída e pela que a instrui, dependem de alguma compreensão de como o Senhor prepara Seus servos no sacerdócio.

Primeiro, Ele chama pessoas, jovens e idosos, que podem parecer fracos e simples aos olhos do mundo e até a seus próprios olhos. O Senhor pode transformar essas aparentes imperfeições em pontos fortes. O entendimento disso muda a maneira pela qual o líder sábio decide a quem e como treinar. E isso pode mudar o modo como o portador do sacerdócio reage às oportunidades de desenvolvimento que lhe são oferecidas.

Vamos analisar alguns exemplos. Eu era um sacerdote inexperiente em uma grande ala. Meu bispo telefonou para mim numa tarde de domingo. Quando atendi, ele disse: “Tem tempo de sair comigo? Preciso de sua ajuda”. Ele só explicou que queria que eu fosse como seu companheiro visitar uma irmã que eu não conhecia, que estava sem comida e que precisava aprender a administrar melhor as finanças.

Na época eu sabia que ele tinha dois conselheiros experientes no bispado. Ambos eram homens maduros e muito experientes. Um dos conselheiros era proprietário de uma grande empresa e mais tarde tornou-se presidente de missão e Autoridade Geral. O outro conselheiro era um preeminente juiz naquela cidade.

Eu era o recém-chamado primeiro assistente do bispo no quórum de sacerdotes. Ele sabia que eu pouco conhecia sobre os princípios de bem-estar. Eu sabia menos ainda sobre administração financeira. Nunca tinha preenchido um cheque, não tinha conta bancária nem sequer tinha visto um orçamento pessoal. Mas a despeito de minha inexperiência, senti que ele estava falando muito sério quando disse: “Preciso de sua ajuda”.

Compreendi o que aquele inspirado bispo queria dizer. Ele viu em mim uma oportunidade de ouro para preparar um portador do sacerdócio. Tenho certeza de que ele não previu que aquele rapaz destreinado seria um futuro membro do Bispado Presidente. Mas ele me tratou naquele dia, e em todos os dias que convivi com ele ao longo dos anos, como um projeto de preparação que tinha grandes perspectivas.

Ele parecia gostar do que fazia, mas era um trabalho árduo para ele. Em nossa volta para casa, depois de visitar a viúva necessitada, ele estacionou o carro. Abriu as escrituras, que estavam muito gastas e repletas de passagens marcadas, e corrigiu-me com bondade. Disse que eu precisava estudar as escrituras e aprender mais. Deve ter visto, porém, que eu era fraco e simples o suficiente para ser ensinável. Até hoje me lembro do que ele me ensinou naquela tarde. Mas lembro-me ainda mais de como senti sua confiança de que eu poderia aprender e ser melhor — e que eu seria melhor.

Ele viu além da realidade de quem eu era, enxergando o potencial que havia dentro de alguém que se sentia fraco e simples o suficiente para querer a ajuda do Senhor e acreditar que ela viria.

Os bispos, presidentes de missão e pais podem decidir tomar uma atitude a respeito desse potencial. Vi isso acontecer recentemente no testemunho de um presidente do quórum de diáconos que estava prestes a tornar-se mestre e mudar de quórum.

Testificou com muita sinceridade sobre o crescimento dos membros de seu quórum em virtude e poder. Nunca ouvi alguém elogiar uma organização de maneira tão extraordinária. Elogiou o serviço deles. E depois, disse que sabia que conseguira ajudar os novos diáconos quando estes se sentiram sobrecarregados, pois ele havia sentido assoberbado quando entrou para o sacerdócio.

Seus sentimentos de fraqueza o tornaram mais paciente, mais compassivo e, portanto, mais capaz de fortalecer e servir aos outros. Naqueles dois anos no Sacerdócio Aarônico, pareceu-me que ele tinha tornado-se experiente e sábio. Tinha aprendido que fora ajudado quando foi presidente do quórum pela clara e vívida lembrança de suas próprias necessidades, quando era dois anos mais jovem. O desafio de liderança, para ele e para nós, virá quando essas lembranças obscurecerem e dissiparem por causa do tempo e do nosso sucesso.

Paulo deve ter visto esse perigo ao aconselhar seu companheiro mais jovem no sacerdócio, Timóteo. Ele o incentivou e instruiu em sua preparação no sacerdócio e na tarefa de ajudar o Senhor a preparar outros.

Eis o que Paulo disse a Timóteo, seu jovem companheiro:

“Ninguém despreze a tua mocidade; mas sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, no amor, no espírito, na fé, na pureza.

Persiste em ler, exortar e ensinar, até que eu vá.

Não desprezes o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição das mãos. (…)

Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina1. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem”.2

Paulo deu esse bom conselho para todos nós. Não se preocupem com o quão inexperientes vocês são, ou pensam que são, mas pensem no que podem tornar-se, com a ajuda do Senhor.

A doutrina na qual Paulo roga que nos banqueteemos na preparação no sacerdócio são as palavras de Cristo para assim nos qualificarmos para o recebimento do Espírito Santo. Então, poderemos saber o que o Senhor deseja que façamos em nosso serviço e receber a coragem para fazê-lo, sejam quais forem as dificuldades que viermos a enfrentar.

Estamos sendo preparados para o serviço no sacerdócio, que se tornará mais desafiador com o tempo. Nossos músculos e nosso cérebro envelhecem com a idade. Nossa capacidade de aprender e de lembrar o que lemos vai diminuir. Para prestar o serviço no sacerdócio, que o Senhor espera de nós, será necessário cada vez mais autodisciplina, todos os dias de nossa vida. Podemos preparar-nos para esse teste edificando fé por meio do serviço que prestamos ao longo do caminho.

O Senhor deu-nos a oportunidade de preparar-nos por meio de algo que ele chamou de “o juramento e convênio (…) [do sacerdócio]”.3

É um convênio que fazemos com Deus de guardar todos os Seus mandamentos e de prestar serviço como Ele faria se estivesse pessoalmente presente. O cumprimento desse padrão da melhor maneira que pudermos edifica a força de que precisaremos para perseverar até o fim.

Grandes treinadores do sacerdócio mostraram-me como edificar essa força. É adquirir o hábito de prosseguir mesmo que haja cansaço e temor que me façam pensar em desistir. Os grandes mentores do Senhor mostraram-me que recebemos um poder espiritual sustentador quando trabalhamos além do ponto em que outros teriam parado para descansar.

Vocês, grandes líderes do sacerdócio que edificaram essa força espiritual em sua juventude ainda a possuem quando a força física enfraquece.

Meu irmão caçula estava em uma pequena cidade de Utah a negócios. Ele recebeu um telefonema do Presidente Spencer W. Kimball, em seu hotel. Era tarde da noite depois de um dia árduo de trabalho para meu irmão e sem dúvida para o Presidente Kimball, que começou a conversa assim: “Ouvi dizer que você estava na cidade. Sei que é tarde e que talvez você já tenha se deitado , mas será que poderia ajudar-me? Preciso de você como companheiro para verificar as condições de todas as nossas capelas na cidade”. Meu irmão foi com ele naquela noite, sem ter conhecimento de manutenção de capelas ou de qualquer outra coisa sobre elas, sem saber por que o Presidente Kimball faria uma coisa daquelas depois de seu longo dia de trabalho ou por que precisava de ajuda.

Anos depois, recebi um telefonema semelhante, tarde da noite, em um hotel no Japão. Eu era na época o novo comissário de educação da Igreja. Eu sabia que o Presidente Gordon B. Hinckley estava hospedado naquele mesmo hotel, cumprindo uma designação à parte no Japão. Atendi o telefone pouco depois de ter-me deitado para dormir, exausto por ter feito tudo o que achava que tinha forças para fazer.

O Presidente Hinckley perguntou com sua voz agradável: “Por que está dormindo enquanto eu estou aqui lendo um manuscrito que nos foi pedido que revisássemos?” Por isso, levantei-me e pus-me a trabalhar, mesmo sabendo que o Presidente Hinckley poderia revisar o manuscrito bem melhor do que eu. Mas, de alguma forma, ele me fez sentir que precisava da minha ajuda.

O Presidente Thomas S. Monson, no fim de quase toda reunião, pergunta ao secretário da Primeira Presidência: “Estou em dia com meu trabalho?” E ele sempre sorri quando a resposta é dada: “Oh, sim, Presidente, está sim”. O sorriso feliz do Presidente Monson envia-me uma mensagem. Faz-me pensar: “Há algo mais que eu poderia fazer em minhas designações?” Então, volto para minha sala para trabalhar.

Grandes professores mostraram-me como me preparar para cumprir o juramento e convênio quando o tempo e a idade tornarem isso mais difícil. Eles mostraram e ensinaram como me disciplinar de modo a trabalhar mais arduamente do que eu achava que podia, e ainda ter saúde e forças para isso.

Não consigo ser um servo perfeito toda hora, mas posso fazer um esforço a mais do que achava que podia. Com esse hábito adquirido, vocês estarão preparados para as provações que vierem. Podemos preparar-nos de modo a ter forças para cumprir nosso juramento e convênio ao longo dos testes que, sem dúvida, virão à medida que nos aproximamos do fim da vida.

Vi a prova disso em uma reunião da Junta Educacional da Igreja. O Presidente Spencer W. Kimball, que na época já havia prestado muitos anos de serviço, passava por uma série de problemas de saúde que só Jó entenderia. Ele estava presidindo a reunião naquela manhã.

De repente, ele parou de falar e afundou em sua cadeira. Seus olhos fecharam-se e a cabeça pendeu sobre o peito. Eu estava sentado ao lado dele. O Élder Holland estava ao nosso lado. Ambos erguemo-nos para ajudá-lo. Inexperientes em emergência como éramos, decidimos carregá-lo, ainda sentado na cadeira, para sua sala, que ficava próxima.

Ele foi nosso professor naquele momento extremo. Cada qual erguendo um lado de sua cadeira, saímos da sala de reuniões para o corredor do Edifício Administrativo da Igreja. Ele entreabriu os olhos, ainda atordoado, e disse: “Oh, por favor, tomem cuidado. Não vão distender a coluna”. Ao aproximar-nos da porta de sua sala, ele disse: “Oh, sinto-me péssimo por ter interrompido a reunião”. Minutos depois de o levarmos para sua sala, ainda sem saber o que lhe acontecia, ele ergueu o rosto para nós e disse: “Não acham que deveriam voltar para a reunião?”

Saímos e nos apressamos a voltar para a reunião, sabendo que nossa presença ali deveria importar para o Senhor. O Presidente Kimball desde a infância obrigava-se a ir além de seus limites de resistência para servir ao Senhor e amá-lo. Era um hábito tão arraigado que sempre estava disponível quando necessário. Ele estava preparado. E por isso era capaz de ensinar e mostrar-nos como estar preparados para cumprir o juramento e convênio, por meio da preparação constante ao longo dos anos, usando toda a nossa força no que nos parecem ser pequenas tarefas de pouca consequência.

Minha oração é que cumpramos nossos convênios do sacerdócio, a fim de qualificar-nos para a vida eterna com os que formos chamados para treinar. Prometo que se fizerem tudo o que puderem, Deus vai aumentar sua força e sua sabedoria. Ele vai torná-los experientes. Prometo-lhes que aqueles a quem vocês treinam e a quem dão exemplo vão bendizer seu nome, assim como faço hoje com aqueles que me treinaram.

Testifico que Deus, o Pai, vive e ama vocês. Ele os conhece. Ele e Seu Filho ressuscitado e glorificado, Jesus Cristo, apareceram para um menino inexperiente, Joseph Smith, e confiaram a ele a Restauração da plenitude do evangelho e da igreja verdadeira. Eles o encorajaram quando ele precisou. Fizeram-no sentir a amorosa repreensão quando o humilharam para elevá-lo. Eles o prepararam, e estão preparando-nos, a fim de que tenhamos forças para continuar trabalhando rumo à glória celestial, que é o objetivo e o motivo de todo o serviço no sacerdócio.

Deixo com vocês minha bênção de que serão capazes de reconhecer as gloriosas oportunidades que Deus lhes deu, ao chamá-los e prepará-los para Seu serviço e para o serviço ao próximo. Em nome de nosso amoroso líder e mestre, Jesus Cristo. Amém.

Exibir Referências

  1.  

    1. Ver 2 Néfi 32:3–6.

  2.  

    2.  I Timóteo 4:12–14, 16.

  3.  

    3.  Doutrina e Convênios 84:38.