As Palavras Que Dissermos

Rosemary M. Wixom

Presidente Geral da Primária


A maneira como falamos a nossos filhos e as palavras que usamos podem incentivá-los, inspirá-los e fortalecê-los em sua fé.

Um jovem pai soube do falecimento de sua extraordinária professora da segunda série. Em memória dela, ele escreveu: “De todos os sentimentos e de todas as experiências pessoais que me recordo, o sentimento dominante em minha mente é ‘consolo’. Ela pode ter-me ensinado ortografia, gramática e matemática, mas algo bem mais importante que me ensinou foi adorar ser criança. Em sua sala de aula, não fazia mal errar de vez em quando a grafia desta ou daquela palavra. ‘Vamos trabalhar nisso’, dizia ela. Não fazia mal derramar, rasgar ou manchar algo. ‘Vamos consertar e limpar tudo’, respondia ela. Não fazia mal tentar, não fazia mal vencer limites, não fazia mal sonhar, e não fazia mal ter prazer naquelas coisas mínimas que só as crianças consideram emocionantes.

Uma das maiores influências que uma pessoa pode exercer neste mundo é sobre uma criança. As crenças e a autoestima das crianças são moldadas bem cedo na vida. Todos os que me ouvem têm o poder de aumentar a confiança que uma criança tem em si mesma e de aumentar a fé que uma criança tem no Pai Celestial e em Jesus Cristo, por meio das palavras que dizem.

Em Helamã, capítulo 5, lemos: “E agora, meus filhos, lembrai-vos, lembrai-vos de que é sobre a rocha de nosso Redentor, que é Cristo, o Filho de Deus, que deveis construir os vossos alicerces”.1

Essas foram as palavras que Helamã ensinou a seus filhos. Então lemos, em seguida: “E eles lembraram-se de suas palavras; e (…) foram pregar a palavra de Deus a todo o povo”.2

Embora os filhos de Helamã fossem perseguidos e lançados na prisão, aquelas palavras que ouviram nunca os abandonaram. Foram protegidos e envolvidos por um pilar de fogo. Então, ouviu-se uma voz, dizendo a seus captores:

“Arrependei-vos e não procureis mais destruir meus servos. (…)

Não era uma voz de trovão nem uma voz de ruído tumultuoso, mas eis que era uma voz mansa, de perfeita suavidade, semelhante a um sussurro”.3

Podemos aprender com essa voz do céu. Não era uma voz que falava alto, em tom de repreensão ou desprezo. Era uma voz suave, de perfeita mansidão, que dava uma ordem firme, porém oferecia esperança.

A maneira como falamos a nossos filhos e as palavras que usamos podem incentivá-los, inspirá-los e fortalecê-los em sua fé para permanecerem no caminho de volta à presença do Pai Celestial. Eles vieram à Terra prontos para ouvir.

Um exemplo de como uma criança ouve aconteceu em uma loja de tecidos. A loja estava cheia de compradores quando todos perceberam que uma mãe estava em pânico por não saber onde estava seu filhinho. A princípio, ela chamava o nome dele. “Connor”, dizia ela, enquanto percorria apressada a loja. Com o passar do tempo, sua voz foi ficando mais alta e frenética. Logo os seguranças foram alertados e todos os que estavam no estabelecimento se puseram a procurar o menino. Vários minutos se passaram sem que ninguém conseguisse achá-lo. A mãe do Connor, como era de se prever, ia ficando mais desesperada a cada minuto e logo passou a gritar o nome dele muitas e muitas vezes.

Uma cliente, depois de fazer uma oração silenciosa, teve o sentimento de que o Connor talvez estivesse assustado por ouvir a mãe gritar seu nome. Mencionou essa paraID=eia à outra mulher que ajudava na busca, e rapidamente as duas elaboraram um plano. Juntas, começaram a andar por entre as mesas de tecidos, serenamente repetindo as palavras: “Connor, se você me ouve, diga: ‘Estou aqui’”. Ao caminharem lentamente para os fundos da loja repetindo aquela frase, ouviram com clareza uma voz tímida e fraca dizer: “Estou aqui”. O Connor estava escondido entre os rolos de tecido, debaixo de uma mesa. Foi uma voz de perfeita mansidão que encorajou o Connor a responder.

Ore para Saber as Necessidades de uma Criança

Para falar ao coração de uma criança, precisamos saber quais são as necessidades dela. Se orarmos para saber quais são essas necessidades, as próprias palavras que dissermos podem ter o poder de tocar o coração delas. Nosso empenho é magnificado quando buscamos a orientação do Espírito Santo. O Senhor disse:

“Expressai os pensamentos que eu vos puser no coração (…);

Pois naquela mesma hora, sim, naquele mesmo momento, ser-vos-á dado o que dizer”.4

Desconecte-se e Ouça com Amor

Infelizmente, as distrações deste mundo impedem muitas crianças de ouvir palavras encorajadoras que poderiam moldar a visão que elas têm de si mesmas.

O Dr. Neal Halfon, o médico que dirige o Centro para Crianças, Famílias e Comunidades Mais Saudáveis da UCLA, chama a atenção para o que ele denomina “negligência benigna dos pais”. Um exemplo envolveu uma criança de 18 meses e seus pais:

‘O filho parecia feliz, ativo e participante, desfrutando o tempo que passava com os pais e a pizza. (…) No final do jantar, a mãe se levantou para realizar uma tarefa, passando para o pai o encargo de cuidar do filho’.

“O pai (…) começou a ler mensagens de texto no celular, enquanto o bebê se esforçava para chamar-lhe a atenção jogando pedacinhos de pizza nele. Então o pai voltou a interagir, olhando para o menino e brincando com ele. Pouco depois, porém, passou a ver um vídeo em seu celular com o filhinho até que a esposa voltasse.

O [Dr.] Halfon observou a luz interior do filho esmaecer, enfraquecendo a conexão que havia entre o pai e o filho”.5

A resposta a nossa oração sobre como atender às necessidades de nossos filhos pode ser a de que nos desconectemos com mais frequência dos dispositivos tecnológicos. Momentos preciosos de oportunidades de interação e diálogo com os filhos se desfazem quando estamos ocupados com distrações. Por que não escolher um horário a cada dia para desconectar-nos da tecnologia e reconectar-nos uns aos outros? Simplesmente desliguem tudo. Ao fazerem isso, sua casa pode a princípio parecer silenciosa. Pode ser até que se sintam perdidos em relação ao que fazer ou dizer. Então, ao darem plena atenção a seus filhos, terá início um diálogo e vocês poderão desfrutar o prazer de ouvir uns aos outros.

Escrevam para Persuadir os Filhos

Também podemos influenciar nossos filhos por meio das palavras que escrevemos para eles. Néfi escreveu: “Trabalhamos diligentemente para (…) persuadir nossos filhos (…) a acreditarem em Cristo e a reconciliarem-se com Deus”.6

O Presidente Thomas S. Monson contou o que aconteceu com Jay Hess, um aviador que foi derrubado ao sobrevoar o Vietnã do Norte, na década de 1960: “Durante dois anos, sua família ficou sem saber se ele estava vivo ou morto. Seus captores, em Hanói, acabaram permitindo que ele escrevesse para casa, mas limitaram sua mensagem a menos de 25 palavras”. O Presidente Monson perguntou: “O que diríamos para nossa família se estivéssemos nessa situação — sem poder vê-los, por mais de dois anos, e sem saber se os veríamos novamente? Querendo oferecer algo que sua família reconhecesse como vindo dele, e também querendo dar-lhes um valioso conselho, o irmão Hess escreveu [as seguintes palavras]: ‘Estas coisas são importantes: casamento no templo, missão, faculdade. Sigam em frente, estabeleçam metas, escrevam sua história, tirem fotos duas vezes por ano’”.7

Que palavras vocês escreveriam para seus filhos se tivessem apenas 25 palavras ou menos?

O jovem pai que mencionei, que escreveu a respeito das lembranças que tinha de sua professora da segunda série, hoje está criando uma linda filhinha bebê. Ele sente que a confiança do céu foi depositada nele. Ao crescer, qual será o futuro dela? O que ele dirá a ela que lhe ficará profundamente marcado no coração? Que palavras vão encorajá-la, inspirá-la e ajudá-la a manter-se no caminho? Fará alguma diferença se ele reservar um tempo para sussurrar-lhe: “Você é uma filha de Deus”? Será que ela vai se lembrar de que o pai costumava dizer-lhe as palavras: “Adoro tudo em você”?

Acaso não foi isso que o Pai Celestial estava dizendo a Seu Filho e a todos nós quando declarou: “Este é o meu Filho amado”; e depois acrescentou: “em quem me comprazo”?8

Façamos com que as palavras que dissermos e escrevermos para nossos filhos expressem o amor que nosso Pai Celestial tem por Seu Filho, Jesus Cristo, e por nós. E depois, façamos uma pausa para ouvir, porque uma criança é bem capaz de, em troca, dizer-nos grandes e maravilhosas coisas. Digo isso em nome de Jesus Cristo. Amém.

Show References

  1.  

    1. Helamã 5:12.

  2.  

    2. Helamã 5:14; grifo do autor.

  3.  

    3. Helamã 5:29–30.

  4.  

    4. Doutrina e Convênios 100:5–6.

  5.  

    5. Lois M. Collins, “Baby’s Development Potentially Harmed by Parents Texting”, Deseret News, 4 de junho de 2012. deseretnews.com/article/print/865556895/Babyes-development-potentially-harmed-by-parents-texting.html.

  6.  

    6. 2 Néfi 25:23.

  7.  

    7. Thomas S. Monson, “Alegria na Jornada”, A Liahona, novembro de 2008, p. 86.

  8.  

    8. Mateus 3:17.