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Outubro 2015 | Firmes Como os Navios de Bristol: Dignos de Entrar no Templo — Nos Bons e nos Maus Momentos

Firmes Como os Navios de Bristol: Dignos de Entrar no Templo — Nos Bons e nos Maus Momentos

Outubro 2015 Conferência Geral

A obediência aos princípios sagrados do evangelho permitirá que sejamos dignos de ir ao templo, permitirá que encontremos felicidade nesta vida e que voltemos ao lar celestial.

O Profeta Leí declarou: “Não havendo retidão, não há felicidade”.1

O adversário tem sido bem-sucedido em disseminar um grande mito na mente de muitas pessoas. Ele e seus mensageiros declaram que a real escolha que temos é entre a felicidade e o prazer agora, nesta vida, e a felicidade na eternidade — que, de acordo com o adversário, pode não existir. Esse mito é uma afirmação falsa, mas muito sedutora.2

O nobre e principal propósito do plano de felicidade estabelecido por Deus é que discípulos justos e famílias do convênio sejam unidos em amor, harmonia e paz nesta vida3 e que alcancem a glória celestial na eternidade com Deus, o Pai, nosso Criador; e Seu Filho Amado, Jesus Cristo, nosso Salvador.4

Quando jovem, servi na Missão Britânica, a primeira área em que trabalhei foi no que era então o Distrito Bristol. Um dos líderes locais da Igreja salientou que os missionários que serviam naquela área precisavam ser “firmes como os navios de Bristol”.

Navios no Porto de Bristol

A princípio, não compreendi o que ele estava dizendo. Logo aprendi o significado e a origem da expressão “firmes como os navios de Bristol”. Houve uma época em que Bristol era o segundo mais movimentado porto no Reino Unido. Lá, a amplitude das marés era a segunda mais elevada do mundo, com 13 metros. Na maré baixa, quando as águas recuavam, os velhos navios atingiam o solo e tombavam de lado. Se os navios não fossem bem construídos, eram danificados. Além disso, tudo o que não fosse cuidadosamente guardado ou amarrado era lançado em meio ao caos, acabando por ser arruinado ou estragado.5 Ao entender essa frase, compreendi que esse líder estava dizendo-nos que, como missionários, precisávamos viver em retidão, seguir as regras e estar preparados para situações difíceis.

Esse mesmo desafio se aplica a cada um de nós. Eu descreveria ser “firme como os navios de Bristol” como ser “digno de entrar no templo” — nos bons e maus tempos.

A flutuação da maré no Canal de Bristol é algo previsível, que se pode premeditar. No entanto, as tempestades e tentações da vida são, muitas vezes, imprevisíveis. Mas isto sabemos: elas virão! Para vencer os desafios e as tentações que cada um de nós inevitavelmente enfrenta, devemos preparar-nos em retidão e usar as proteções fornecidas por Deus. Devemos decidir ser dignos de entrar no templo, não importa o que aconteça. Se estivermos preparados, não temeremos.6

A felicidade nesta vida e a felicidade na eternidade são interligadas pela retidão. Mesmo no período entre a morte e ressurreição, “o espírito daqueles que são justos será recebido num estado de felicidade, que é chamado paraíso, um estado de descanso, um estado de paz”.7

No início do ministério terreno do Salvador em Israel e, mais tarde, entre os nefitas, o Salvador abordou a questão da felicidade tanto nesta vida como na eternidade. Ele salientou as ordenanças, mas também colocou grande ênfase no comportamento moral. Por exemplo, os discípulos seriam abençoados se tivessem fome e sede de retidão, se fossem misericordiosos, se fossem puros de coração e se seguissem outros princípios morais básicos. Sem dúvida, nosso Senhor Jesus Cristo salientou a conduta e as atitudes justas no cotidiano como a mensagem fundamental da doutrina. Seus ensinamentos não apenas substituíram e transcenderam elementos da lei de Moisés,8 mas também rejeitaram as falsas filosofias dos homens.

Por muitos séculos, o evangelho de Jesus Cristo tem inspirado crenças e estabelecido padrões de conduta sobre o que é justo, desejável e moral, e sobre o que leva à felicidade, à alegria e ao júbilo. No entanto, os princípios e a moralidade básicos que o Salvador ensinou estão sofrendo graves ataques no mundo de hoje. O cristianismo está sendo atacado. Muitos acreditam que o que é moral basicamente mudou.9

Vivemos em tempos difíceis. Há uma tendência crescente de “ao mal [chamar] bem e, ao bem, mal”.10 Um mundo que enfatiza o autoenaltecimento e o secularismo é motivo de grande preocupação. Um proeminente escritor, que não é da nossa religião, expressou esse conceito do seguinte modo: “Infelizmente, vejo pouca evidência de que as pessoas realmente estejam mais felizes na dispensação emergente, ou que seus filhos estejam melhores assim, ou que a causa da justiça social seja favorável, ou que o declínio do número de casamentos e o afinamento das árvores genealógicas (…) prometam coisa alguma, a não ser maior solidão para a maioria e estagnação geral”.11

Como discípulos do Salvador, espera-se que planejemos e preparemos nosso futuro. No plano de felicidade, o arbítrio moral é um princípio organizador central e nossas escolhas são importantes.12 O Salvador enfatizou isso em Seu ministério, inclusive em Suas parábolas das virgens insensatas e dos talentos.13 Em cada um deles, o Senhor elogiou a preparação e a ação e condenou a procrastinação e a ociosidade.

Reconheço que, apesar da imensa felicidade existente no plano divino de Deus, às vezes ela pode parecer distante e desconexa das nossas circunstâncias atuais. Pode parecer fora do nosso alcance, em meio às dificuldades. Em nossa perspectiva limitada, as distrações e tentações atuais podem parecer atraentes. As recompensas por resistir a essas tentações, por outro lado, podem parecer distantes e inacessíveis. No entanto o verdadeiro entendimento do plano do Pai revela que as recompensas advindas da retidão estão disponíveis agora mesmo. A iniquidade, tal como a conduta imoral, nunca faz parte da resposta. Alma explicou isso claramente a seu filho Coriânton: “Eis que te digo que iniquidade nunca foi felicidade”.14

Nossa doutrina é declarada por Amuleque, em Alma 34:32: “Pois eis que esta vida é o tempo para os homens prepararem-se para para o encontro com Deus; sim, eis que o dia desta vida é o dia para os homens executarem os seus labores”.

Como, então, nos preparamos em uma época tão difícil? Além da dignidade para entrar no templo, há muitos princípios que contribuem para a retidão. Vou salientar três.

Primeiro: Conduta e Autocontrole Justos

Acredito que, às vezes, nosso amoroso Pai Celestial nos observa com o mesmo encanto que sentimos ao ver nossos filhos pequenos aprender e crescer. Todos tropeçamos e caímos à medida que adquirimos experiência.

Experiência do marshmallow

Gosto do discurso que o Presidente Dieter F. Uchtdorf deu na conferência de 201015 sobre a famosa experiência do marshmallow realizada na Universidade de Stanford, na década de 1960. Na ocasião, crianças de 4 anos de idade ganharam um único marshmallow. Se elas conseguissem esperar por 15 ou 20 minutos sem comer o marshmallow, ganhariam mais um. Alguns vídeos produzidos sobre o experimento mostram os esforços que muitas crianças fizeram para evitar comer o marshmallow. Algumas não foram bem-sucedidas.16

No ano passado, o professor que conduziu o experimento original, o Dr. Walter Mischel, escreveu um livro em que explica que o estudo surgiu de suas preocupações sobre o autocontrole e sobre sua própria dependência do tabaco. Ele ficou particularmente preocupado depois que o relatório do diretor de saúde pública dos Estados Unidos, em 1964, concluiu que o fumo causava câncer de pulmão.17 Após anos de estudo, um de seus colegas de trabalho relatou que “o autocontrole é como um músculo: quanto mais for usado, mais será fortalecido. Evitar algo tentador uma vez vai ajudá-lo a desenvolver a capacidade de resistir a outras tentações no futuro”.18

Um dos princípios de progresso eterno determina que exercer o autocontrole e viver em retidão fortalecem nossa capacidade de resistir à tentação. Isso é verdade tanto na esfera espiritual como em assuntos temporais.

Nossos missionários são um excelente exemplo disso. Eles desenvolvem atributos cristãos e enfatizam a obediência e a espiritualidade. Espera-se que eles sigam uma rotina rigorosa e dediquem seus dias ao serviço ao próximo. Eles têm uma aparência modesta e discreta, em vez de aderirem às tendências de vestuário tão informais ou indecentes que prevalecem hoje em dia. Sua conduta e aparência transmitem uma mensagem moral, séria.19

Temos aproximadamente 230 mil jovens servindo missão atualmente ou que retornaram do serviço missionário nos últimos cinco anos. Eles desenvolveram notável força espiritual e autodisciplina que precisam ser exercidas continuamente, de modo a evitar que essas qualidades atrofiem como músculos não exercitados. Todos precisamos desenvolver e demonstrar conduta e aparência que declarem que somos verdadeiros seguidores de Cristo. Aqueles que abandonam a conduta justa ou a aparência saudável e recatada expõem-se a estilos de vida que não trazem alegria nem felicidade.

O evangelho restaurado nos fornece o desenho do plano de felicidade e o incentivo para entender e exercer o autocontrole e resistir à tentação. Ele também ensina a arrepender-nos de violações que tenham ocorrido.

Segundo: Honrar o Dia do Senhor Aumentará a Retidão e Será uma Proteção para a Família

A Igreja Cristã primitiva passou a guardar o Dia do Senhor aos domingos, em vez de aos sábados, para comemorar a Ressurreição de Cristo. Outros propósitos sagrados básicos do Dia do Senhor permaneceram inalterados. Para os judeus e os cristãos, o Dia do Senhor simboliza as obras grandiosas de Deus.20

Minha esposa e eu, com dois colegas e a esposa de cada um deles, participamos recentemente de um Shabat judeu a convite de um amigo querido, Robert Abrams, e sua esposa, Diane, em sua casa em Nova York.21 O evento iniciou no sábado judaico, numa noite de sexta-feira. O foco foi honrar a Deus como o Criador. Começou com uma bênção proferida à família e um hino do Shabat.22 Então participamos da cerimônia de lavagem das mãos, da bênção do pão, das orações, da refeição kosher, da declamação de escrituras e dos cantos de músicas do Shabat, em um clima de comemoração. Ouvimos as palavras em hebraico, acompanhando a tradução em inglês. Dentre as escrituras lidas no Velho Testamento, as mais comoventes, que também são muito queridas para nós, eram de Isaías, declarando deleitoso o Dia do Senhor,23 e de Ezequiel, afirmando que o Dia do Senhor “[servirá] de sinal entre mim e vós, para que saibais que eu sou o Senhor vosso Deus”.24

A forte impressão que tivemos nessa noite maravilhosa foi de amor familiar, devoção e responsabilidade para com Deus. Ao refletir sobre essa ocasião, ponderei sobre a extrema perseguição que os judeus têm sofrido ao longo dos séculos. Sem dúvida, o ato de honrar o Dia do Senhor tem sido um “convênio perpétuo” para os judeus, preservando e abençoando seu povo em cumprimento das escrituras.25 Também tem contribuído para a vida familiar e felicidade extraordinárias que são evidentes na vida de muitos judeus.26

Para os membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, honrar o Dia do Senhor é um princípio de retidão que abençoa e fortalece as famílias, conecta-nos ao nosso Criador e aumenta a felicidade. O Dia do Senhor pode ajudar a nos distanciar de tudo o que é fútil, impróprio ou imoral. Ele possibilita que estejamos no mundo, sem ser do mundo.

Nos últimos seis meses, uma notável mudança ocorreu na Igreja. Isso aconteceu devido à resposta dos membros à renovada ênfase no Dia do Senhor, dada pela Primeira Presidência e pelo Quórum dos Doze, e ao desafio lançado pelo Presidente Russell M. Nelson, de tornar deleitoso o Dia do Senhor.27 Muitos membros entendem que santificar o Dia do Senhor com real intenção é um refúgio contra as tempestades da vida. Também é um sinal de nossa devoção ao Pai Celestial e de uma maior compreensão da santidade da reunião sacramental. Ainda assim, temos um longo caminho a percorrer, entretanto esse é um início maravilhoso. Estendo o desafio a todos nós para continuar aplicando esse conselho e melhorando nossa adoração no Dia do Senhor.

Terceiro: Proteções Divinas São Providenciadas Quando Vivemos em Retidão

Como parte do plano divino de Deus, somos abençoados com o dom do Espírito Santo. Esse dom “é o direito que tem todo membro da Igreja batizado e digno, de gozar da influência constante do Espírito Santo”.28 Esse membro da Trindade serve como um agente purificador se o evangelho for colocado em primeiro lugar na nossa vida. Ele também é uma voz de advertência contra o mal e uma voz de proteção contra o perigo. Ao navegarmos pelos mares da vida, seguir a inspiração do Espírito Santo é essencial. O Espírito vai nos ajudar a evitar as tentações e os perigos, além de nos consolar e nos ajudar a vencer os desafios. “O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança.”29

A obediência aos princípios sagrados do evangelho permitirá que sejamos dignos de ir ao templo, permitirá que encontremos felicidade nesta vida e que voltemos ao lar celestial.

Meus queridos irmãos e irmãs, a vida não é nem foi destinada a ser fácil. Esta é uma época de testes e provações. Tal como a situação dos antigos navios no Porto de Bristol, há ocasiões em que as marés baixam e tudo o que nos mantém seguros parece desaparecer. Podemos atingir o fundo e até ser derrubados repentinamente. Em meio a essas provações, prometo-lhes que viver continuamente de modo a ser digno de entrar no templo sustentará tudo o que realmente importa. As doces bênçãos de paz, felicidade e alegria, com as bênçãos da vida eterna e da glória celestial com nosso Pai Celestial e Seu Filho, Jesus Cristo, serão cumpridas. Disso eu testifico em nome de Jesus Cristo. Amém.

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    Notas

    1. 2 Néfi 2:13. Essa escritura faz parte de um paralelismo no Livro de Mórmon. É interessante notar que muitos dos profetas cujos escritos e discursos estão incluídos no Livro de Mórmon utilizaram esse recurso literário para salientar conceitos doutrinários importantes. Ver, por exemplo, 2 Néfi 9:25 (Jacó) e 2 Néfi 11:7 (Néfi).

    2. Ver 2 Néfi 28.

    3. Ver 4 Néfi 1:15–17.

    4. Ver Doutrina e Convênios 59:23.

    5. Ver Wiktionary, “shipshape and Bristol fashion” [firmes como os navios de Bristol], wiktionary.org.

    6. Ver Doutrina e Convênios 38:30.

    7. Alma 40:12; grifo do autor.

    8. Ver Mateus 5, resumo do capítulo.

    9. Ver Carl Cederstrom, “The Dangers of Happiness” [Os Perigos da Felicidade],New York Times, 19 de julho de 2015, Sunday Review section, p. 8.

    10. 2 Néfi 15:20.

    11. Ross Douthat, “Gay Conservatism and Straight Liberation”, New York Times, domingo, 28 de junho de 2015, Sunday Review section, p. 11.

    12. Ver 2 Néfi 2.

    13. Ver Mateus 25:1–30.

    14. Alma 41:10.

    15. Dieter F. Uchtdorf, “Prosseguir com Paciência”, A Liahona, maio de 2010, p. 56.

    16. Ver Walter Mischel, The Marshmallow Test: Mastering Self-Control [O Teste do Marshmallow: Dominar o Autocontrole], 2014, pp. 136–138; ver também Jacoba Urist, “What the Marshmallow Test Really Teaches about Self-Control” [O Que o Teste do Marshmallow Realmente Ensina sobre o Autocontrole], Atlantic, 24 de setembro de 2014, theatlantic.com.

    17. Ver Mischel, The Marshmallow Test, pp. 136–138.

    18. Ver Maria Konnikova, “The Struggles of a Psychologist Studying Self-Control” [Os Desafios de um Psicólogo Que Estuda o Autocontrole], New Yorker, 9 de outubro de 2014, newyorker.com, citando Roy Baumeister, um professor de Psicologia na Universidade Estadual da Flórida, que estuda a força de vontade e o autocontrole.

    19. Ver Malia Wollan, “How to Proselytize” [Como Fazer Proselitismo], New York Times Magazine, 19 de julho de 2015, p. 21. Ela cita Mario Dias, do Centro de Treinamento Missionário do Brasil.

    20. Ver Guia para Estudo das Escrituras, “Dia do Senhor”.

    21. Élder Von G. Keetch e sua esposa, Bernice, e John Taylor e sua esposa, Jan, juntaram-se à minha mulher e eu para um agradável Shabat com Robert Abrams e sua esposa, Diane, em 8 de maio de 2015. O Sr. Abrams serviu quatro mandatos como procurador-geral para o Estado de Nova York e tem sido um amigo da Igreja por muitos anos. O Sr. Abrams também convidou dois de seus colegas judeus e a esposa de cada um deles.

    22. O conhecido hino do Shabat,Shalom Aleichem [A Paz sobre Ti], foi cantado.

    23. Ver Isaías 58:13–14.

    24. Ezequiel 20:20.

    25. Ver Êxodo 31:16–17.

    26. Ver Joe Lieberman, The Gift of Rest: Rediscovering the Beauty of the Sabbath [O Dom do Descanso: Redescobrir a Beleza do Sábado], 2011. O maravilhoso livro do Senador Lieberman descreve o Shabat judeu e fornece observações inspiradoras.

    27. Ver Isaías 58:13–14; ver também Russell M. Nelson, “O Dia do Senhor É Deleitoso”, A Liahona, maio de 2015, p. 129.

    28. Guia para Estudo das Escrituras, “Dom do Espírito Santo”.

    29. Gálatas 5:22.