Reflexões sobre a Páscoa


Andrew W. Peterson


“Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação. Portanto, não te envergonhes do testemunho do Senhor ( . . . )” (II Tm. 1:7–8).

Daqui a duas sema­nas cele­bra­re­mos a Páscoa e espe­ro que nossa aten­ção se volte para Jesus Cristo. Para mui­tas pes­soas, esta será uma Páscoa como outra qual­quer, mas, para ­alguns, será um perío­do de medi­ta­ção, refle­xão e ava­lia­ção.


Há uma Páscoa em par­ti­cu­lar da qual me lem­bro vivi­da­men­te, há vinte e sete anos, quan­do eu era mis­sio­ná­rio na Missão Argentina-Norte. A mis­são envia­ra mis­sio­ná­rios à ­região sul da Bolívia. Passei aque­le domin­go de Páscoa de 1968 em Quiriza, Bolívia, um povoa­do situa­do nos con­tra­for­tes do Altiplano do sul do país. Lembro-me dos pre­pa­ra­ti­vos fei­tos pelos habi­tan­tes para aque­la Páscoa. A dis­po­si­ção das pes­soas, a músi­ca, a sen­sa­ção daque­le momen­to per­ma­ne­cem em minha lem­bran­ça até hoje.


Na manhã do domin­go de Páscoa, bem cedo, o Élder Arce per­gun­tou-me se pode­ria acom­pa­nhá-lo na visi­ta a uma famí­lia que esta­va pes­qui­san­do a Igreja. Pouco ­depois, andá­va­mos pelas ruas poei­ren­tas daque­le povoa­do, cujas casas de adobe enfi­lei­ra­vam-se pelo cami­nho. Visitamos a famí­lia e com ela exa­mi­na­mos per­gun­tas impor­tan­tes, como: De onde vie­mos? Por que esta­mos aqui? e Para onde ire­mos ­depois desta vida? Para expli­cá-las, dese­nha­mos figu­ras com o dedo no chão de terra. O Espírito esta­va pre­sen­te; con­vi­da­mos a famí­lia para ser bati­za­da e o con­vi­te foi acei­to. Naquela tarde, fize­mos uma bela reu­nião batis­mal. Os batis­mos foram fei­tos nas águas bar­ren­tas do rio San Juan de Oro, pró­xi­mo dali. As esta­ções na América do Sul ocor­rem ao inver­so das dos Estados Unidos: quan­do aqui é pri­ma­ve­ra, lá é outo­no.


Os que iriam ser bati­za­dos desa­pa­re­ce­ram por ­detrás das gran­des e recém-cor­ta­das medas de milho, para só rea­pa­re­ce­rem ves­ti­dos em


belas rou­pas bran­cas de batis­mo. Tenho gra­va­da na mente, até hoje, a visão daque­les ­irmãos de pele more­na, cabe­los escu­ros e sor­ri­so radian­te. Quando refli­to na uni­ver­sa­li­da­de do con­vi­te de Cristo a todas as pes­soas de ache­ga­rem-se a Ele, ainda fico com os olhos mare­ja­dos de lágri­mas pela forte impres­são em mim cau­sa­da por aque­le domin­go de Páscoa.


Para mim, ter repre­sen­ta­do Jesus Cristo quan­do fui mis­sio­ná­rio naque­le país fez-me pen­sar nas pala­vras aos dis­cí­pu­los duran­te Seu minis­té­rio ter­re­no: “Ainda tenho ­outras ove­lhas que não são deste apris­co; tam­bém me con­vém agre­gar estas, e elas ouvi­rão a minha voz, e have­rá um reba­nho e um Pastor.” (Ver João 10:16.)


Antes de sair­mos de Quiriza, Bolívia, rumo à Argentina, fize­mos uma fer­vo­ro­sa ora­ção. Eu gos­ta­va muito de meu com­pa­nhei­ro e, jun­tos, ajoe­lha­dos no chão poei­ren­to de um campo de fute­bol sob o céu estre­la­do, reve­za­mo-nos em ora­ções ao Pai Celestial, reve­lan­do-Lhe nos­sos sen­ti­men­tos mais pro­fun­dos. Expressamos nosso amor e gra­ti­dão por aque­le povo, pela mis­são, por nosso pre­si­den­te e pelo pri­vi­lé­gio de ser­mos mis­sio­ná­rios. Prometemos tam­bém aju­dar as pes­soas.


Os anos que se segui­ram a minha mis­são deram-me opor­tu­ni­da­de de cum­prir tal pro­mes­sa. Voltei para casa e casei-me com Christine Swensen, minha que­ri­da namo­ra­da dos tem­pos de esco­la, uma com­pa­nhei­ra mara­vi­lho­sa, que amo muito. Sendo enfer­mei­ra for­ma­da, Christine aju­dou a ter­mi­nar a facul­da­de de odon­to­lo­gia. Quando esta­va quase me for­man­do e pres­tes a com­ple­tar seis anos de casa­men­to, ainda não tínha­mos tido ­filhos. Então, abriu-se uma porta e sur­giu a opor­tu­ni­da­de de incluir­mos Ashley em nossa vida. Nosso que­ri­do e amado Ashley.


Um ano ­depois, via­ja­mos para a Bolívia para bus­car Joshua num orfa­na­to. Ele tinha dois anos. Ainda me lem­bro daque­le lindo garo­ti­nho cami­nhan­do em minha dire­ção com os bra­ços aber­tos, dizen­do: “Papa, papa”.


Com menos de vinte e qua­tro horas de vida, trou­xe­mos Megan para casa. Depois, vol­ta­mos à Bolívia para bus­car Daniel, que tinha cinco meses quan­do o segu­ra­mos nos bra­ços pela pri­mei­ra vez.


Vários anos mais tarde, quan­do eu era pre­si­den­te da Missão México Merida, Jennifer ­entrou para a famí­lia: uma linda meni­ni­nha gua­te­mal­te­ca de duas sema­nas, nas­ci­da no México. Jennifer tocou o cora­ção de nos­sos mis­sio­ná­rios e dos mem­bros do sul do México. Natalie Joy (Natalie “Alegria”) uniu-se à famí­lia três sema­nas antes de ter­mi­na­mos nossa mis­são. O nome do meio, Joy (Alegria), é um lem­bre­te inde­lé­vel do tes­te­mu­nho que rece­be­mos de que ela deve­ria fazer parte da famí­lia.


Depois de dezes­seis anos de casa­men­to e seis ado­ções, nas­ce­ram em nossa famí­lia Anne e Andrew, para ale­gria e feli­ci­da­de de seus ­irmãos e irmãs. Nossa famí­lia é eter­na­men­te grata pelo poder de sela­men­to e união exis­ten­tes no tem­plo, que estão à dis­po­si­ção dos mem­bros da Igreja de Cristo.


Por eu ter feito pro­mes­sas ao Senhor sob o céu estre­la­do da Bolívia na Páscoa de 1968, Chris e eu não pas­sa­mos um dia ­sequer sem abra­çar nos­sos ­filhos e sen­tir o amor de Deus por todos os Seus ­filhos. Hoje, como na Páscoa de 1968, a Páscoa de 1995 nunca será esque­ci­da.


Seis meses atrás, os mem­bros da Igreja apoia­ram o Presidente Howard W. Hunter como déci­mo quar­to Presidente de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últi­mos Dias. Naquela con­fe­rên­cia, fui apoia­do como novo mem­bro do Quórum dos Setenta. No prin­cí­pio de março, o Presidente Hunter fale­ceu. Tenho uma vívi­da lem­bran­ça dele. Nunca esque­ce­re­mos do que o Presidente Hunter disse aos meus ­filhos quan­do fui desig­na­do: “Nós ama­mos vocês. Queremos que se sin­tam bem entre nós, como se fôs­se­mos uma famí­lia.” Após a desig­na­ção, o Presidente Hunter e seus con­se­lhei­ros, Presidente Hinckley e Presidente Monson, cum­pri­men­ta­ram cada um de nos­sos ­filhos—um momen­to ines­que­cí­vel. Seis meses ­depois, diri­jo-me a todos os pre­sen­tes neste Tabernáculo, para falar-lhes pela pri­mei­ra vez como Autoridade Geral.


E o Presidente Gordon B. Hinckley foi apoia­do como déci­mo quin­to Presidente de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últi­mos Dias.


Durante uma visi­ta à América do Sul, vinte e sete anos atrás, o Élder Gordon B. Hinckley disse algu­mas pala­vras aos mis­sio­ná­rios. Naquela época ele era mais jovem; era Apóstolo havia ape­nas sete anos. Na oca­sião, leu uma escri­tu­ra e fez uma admoes­ta­ção: “Porque Deus não nos deu o espí­ri­to de temor, mas de for­ta­le­za, e de amor, e de mode­ra­ção. Portanto, não te enver­go­nhes do tes­te­mu­nho de nosso Senhor ⌦( . . . )” (II Tm. 1:7–8).


O Élder Hinckley exor­tou-nos a não ter medo nem ver­go­nha do tes­te­mu­nho de Cristo. Como mis­sio­ná­rio, sua admoes­ta­ção foi tocan­te para mim na oca­sião e é igual­men­te impor­tan­te para todos nós hoje. O Senhor levan­tou um novo pro­fe­ta, que não tem medo e está reple­to de poder, amor e mode­ra­ção. Com seu exem­plo, o Élder Hinckley lem­bra-nos de nunca nos enver­go­nhar­mos do tes­te­mu­nho do Senhor.


Que esta seja uma Páscoa de medi­ta­ção, refle­xão e ava­lia­ção. Que tome­mos a deci­são de ser­mos obe­dien­tes às admoes­ta­ções dos pro­fe­tas que guar­dam as cha­ves do reino. Um de meus hinos pre­di­le­tos diz:


“Minha alma hoje tem a luz,

Um esplên­di­do cla­rão;

Brilha mais que o sol no céu azul,

Pois vem da sal­va­ção.”


Jesus é minha luz. Em nome de Jesus Cristo. Amém. 9