Sião em Meio à Babilônia

David R. Stone

Of the Second Quorum of the Seventy


David R. Stone
Não precisamos adotar os padrões, os costumes e a moral da Babilônia. Podemos estabelecer Sião no meio dela.

No verão passado, minha mulher e eu tivemos a oportunidade de viajar para San Diego, Califórnia e lá assistir à peça Macbeth, de Shakespeare, no Teatro Old Globe. Assistimos a duas apresentações, porque nossa filha, Carolyn, fazia o papel de uma das três bruxas da peça. Claro que ficamos encantados em vê-la atuar e ainda mais maravilhados quando, num momento dramático, ela disse aquela famosa frase: “Meu dedão está coçando. Vem algum patife andando” (Macbeth: ato IV, cena 1, linhas 40–41).

Quando ouvi isso, pensei como seria útil ter um sistema que avisasse com antecedência a aproximação do mal, permitindo que nos preparássemos para ele.

O mal vem em nossa direção, quer tenhamos ou não um alarme que nos avise.

Numa ocasião posterior, minha mulher e eu viajávamos de carro certa noite e nos aproximamos de uma grande cidade. Ao descermos as colinas via-se luzes brilhantes no horizonte. Acordei minha mulher e disse: “Contemple a cidade de Babilônia!”

Claro que não existe nenhuma cidade hoje que personifique a Babilônia. Na época da antiga Israel, a Babilônia foi uma cidade que se tornou sensual, decadente e corrupta. O edifício principal da cidade era um templo erigido a um falso deus, ao qual muitas vezes nos referimos como Bel ou Baal.

No entanto, a sensualidade, a corrupção, a decadência e a adoração a falsos deuses podem ser vistas em muitas cidades, grandes e pequenas, espalhadas pelo mundo todo. Como o Senhor disse: “Não buscam o Senhor para estabelecer sua justiça, mas todo homem anda em seu próprio caminho e segundo a imagem de seu próprio deus, cuja imagem é à semelhança do mundo” (D&C 1:16).

Gente demais no mundo está-se parecendo com a antiga Babilônia, trilhando seu próprio caminho e seguindo um deus “cuja imagem é à semelhança do mundo”.

Um dos grandes desafios que enfrentaremos é o de sermos capazes de viver no mundo, mas, de alguma forma, não sermos do mundo. Temos que criar Sião no meio da Babilônia.

Sião no meio da Babilônia. Que frase magnífica, como uma luz brilhando em meio à escuridão espiritual. Que conceito para termos enraizado no coração, vendo a Babilônia espalhar-se cada vez mais. Vemos a Babilônia em nossa cidade, em nossa comunidade, em todo o lugar.

E com o crescimento da Babilônia, temos que estabelecer Sião no meio dela. Não devemos permitir ser tragados pelas influências maléficas do mundo que estão ao nosso redor. Raramente percebemos até que ponto somos um produto da cultura do local e da época em que vivemos.

Nos dias da antiga Israel, o povo do Senhor era como uma ilha que acreditava no único e verdadeiro Deus, cercada por um oceano de idolatria. As ondas daquele oceano quebravam incessantemente nas praias de Israel. Apesar do mandamento de não fazer imagens de escultura, nem de se inclinar perante elas, Israel aparentemente não conseguia ajudar a si mesma, influenciada pela cultura do lugar e da época. Muitas e muitas vezes, apesar da proibição do Senhor, a despeito do que o profeta e sacerdote dissera, Israel foi atrás de deuses estranhos e inclinou-se perante eles.

Como Israel poderia ter-se esquecido do Senhor que a tirara do Egito? Eles eram constantemente pressionados pelo que era popular no ambiente em que viviam.

Que coisa insidiosa é a cultura em que vivemos. Ela permeia o ambiente, e achamos que estamos sendo razoáveis e lógicos quando, com muita freqüência, somos moldados pelo espírito de uma cultura, o que os alemães chamam de zeigeist, ou cultura de um lugar e época.

Como minha mulher e eu tivemos a oportunidade de morar em 10 países diferentes, vimos o efeito que esse espírito cultural exerce no comportamento. Costumes que são perfeitamente aceitos numa cultura, são vistos como inaceitáveis em outra; uma linguagem educada em alguns lugares é vista como detestável em outros. Em toda cultura as pessoas vivem num casulo de auto-satisfação e auto-fingimento, totalmente convencidas de que o modo como vêem as coisas é o modo como elas realmente são.

Nossa cultura tende a ditar que comida nós gostamos, como nos vestimos, o que constitui um comportamento educado, de que esportes devemos gostar, qual deve ser nosso gosto musical, a importância da educação e nossa atitude em relação à honestidade. Ela também influencia os homens quanto à importância da recreação ou da religião, influencia mulheres a respeito da prioridade da carreira ou da maternidade e tem um efeito poderoso na maneira como encaramos a procriação e assuntos morais. Com muita freqüência, somos como marionetes, pois nossa cultura determina o que é “legal”.

Existe é claro um zeigeist a qual devemos prestar atenção. E este é o espírito da cultura do Senhor, a cultura do povo do Senhor. Como declara Pedro: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (I Pedro 2:9).

É a cultura daqueles que guardam os mandamentos, andam em Seus caminhos e “[vivem] de toda a palavra que sai da boca de Deus” (D&C 84:44). Se isso nos faz peculiares, então, que assim sejamos.

Meu envolvimento com a construção do Templo de Manhattan deu-me a oportunidade de estar no templo várias vezes antes de sua dedicação. Era maravilhoso sentar-me na sala celestial e ficar lá em perfeito silêncio, sem ouvir um único som vindo das barulhentas ruas de Nova York. Como era possível que o templo fosse tão reverentemente silencioso quando a agitação da metrópole estava apenas a alguns metros dali?

A resposta estava na construção do templo. O templo foi construído a partir de paredes já existentes e as paredes internas do templo conectavam-se com as paredes externas apenas em alguns pontos de junção. Dessa maneira, o templo (Sião) limitava os efeitos da Babilônia ou do mundo lá fora.

Deve haver uma lição para nós nisso tudo. Podemos criar a verdadeira Sião entre nós, limitando a influência da Babilônia em nossa vida.

Quando, 600 anos a.C., Nabucodonosor veio da Babilônia e conquistou Judá, levou com ele o povo do Senhor. Nabucodonosor selecionou alguns jovens para receberem educação e treinamento especiais.

Entre eles estavam Daniel, Hananias, Misael e Azarias. Eles foram privilegiados entre os jovens trazidos para a Babilônia. O servo do rei instruiu-os a comerem a comida e a beberem o vinho do rei.

Vamos entender claramente a pressão sob a qual estavam os quatro jovens. Eles tinham sido levados cativos pela força de um conquistador e estavam na casa do rei que detinha o poder da vida e da morte sobre todos eles. Mesmo assim, Daniel e seus irmãos recusaram-se a fazer o que acreditavam ser errado, embora a maior parte da cultura Babilônica achasse que era certo. E por essa fidelidade e coragem, o Senhor os abençoou e “lhes deu o conhecimento e a inteligência em todas as letras, e sabedoria” (Daniel 1:17).

Seduzidos por nossa cultura, muitas vezes quase nem reconhecemos nossa idolatria, pois somos manipulados por aquilo que é popular no mundo da Babilônia. De fato, como disse o poeta Wordsworth: “Passamos todo nosso tempo envolvidos com as coisas do mundo”(“The World Is Too Much with Us; Late and Soon”.Em The Complete Works of William Wordsworth [1924], p. 353).

Em sua primeira epístola, João escreve:

“Eu vos escrevi (…) porque sois fortes, e a palavra de Deus está em vós, e já vencestes o maligno.

Não ameis o mundo, nem o que no mundo há” (I João 2:14–15).

Não precisamos adotar os padrões, os costumes e a moral da Babilônia. Podemos estabelecer Sião no meio dela. Podemos ter nossos próprios padrões de música, literatura, dança, filmes e linguagem. Podemos ter nossos próprios padrões de vestimenta e conduta para educação e respeito. Podemos viver de acordo com as leis morais do Senhor. Podemos limitar quanto da Babilônia vamos permitir que entre em nosso lar por intermédio da mídia de comunicação.

Podemos viver como o povo de Sião, se o desejarmos. Será difícil? Claro que sim; pois as ondas da Babilônia quebram incessantemente em nossas praias. Exigirá coragem? Sem dúvida.

Sempre fomos fascinados por histórias de coragem, daqueles que enfrentaram desafios impossíveis e venceram. A coragem é a base e o alicerce de todas as outras virtudes; a falta dela diminui todas as outras qualidades que possuímos. Se quisermos ter Sião no meio da Babilônia, precisaremos de coragem.

Vocês já se imaginaram passando por um teste e tendo a certeza de que seriam capazes de realizar um ato de bravura? Eu já senti isso quando era menino. Imaginava que alguém estava em perigo e, arriscando minha própria vida, eu o salvava. Ou enfrentando algum terrível oponente, eu tinha coragem de vencê-lo. Assim é nossa imaginação infantil!

Quase 70 anos de vida ensinaram-me que essas oportunidades de heroísmo são poucas e raras, se ocorrerem.

Mas a oportunidade de defender o que é certo — quando as pressões são sutis e quando até nossos amigos estão nos encorajando a ceder à idolatria da nossa época — essa vem com mais freqüência. Não há nenhum fotógrafo ali para registrar o ato de heroísmo, nenhum jornalista escreverá sobre isso nem publicará na primeira página do jornal. Apenas na calma reflexão da nossa consciência saberemos que enfrentamos o teste da coragem: Sião ou Babilônia?

Não se enganem: muita coisa na Babilônia, senão quase tudo, é do mal. E não teremos a “um dedão coçando” para nos alertar. Mas as ondas estão quebrando em nossas praias, uma após a outra. Escolheremos Sião ou a Babilônia?

Se Babilônia é a cidade mundana, Sião é a Cidade de Deus. O Senhor assim falou sobre ela: “Sião não pode ser edificada a não ser pelos princípios da lei do reino celestial” (D&C 105:5) e “Pois isto é Sião — o puro de coração” (D&C 97:21).

Entretanto, onde quer que estejamos, em qualquer cidade que vivamos, podemos erguer a nossa Sião, se vivermos de acordo com os princípios da lei do reino celestial e se sempre procuramos ser puros de coração. Sião é bela e o Senhor a segura em Suas próprias mãos. Nosso lar pode tornar-se um lugar de refúgio e proteção, assim como Sião.

Não precisamos nos tornar marionetes nas mãos da cultura do lugar ou da época. Podemos ser corajosos e andar nos caminhos do Senhor, seguindo Seus passos. E se o fizermos, seremos chamados Sião e seremos o povo do Senhor.

Oro para sermos fortalecidos e para resistirmos aos ataques da Babilônia e para estabelecermos Sião em nosso lar e comunidade. Na verdade, para que tenhamos “Sião em meio à Babilônia”.

Buscamos Sião porque é a habitação do nosso Senhor, que é Jesus Cristo, nosso Salvador e Redentor. Em Sião e de Sião, Sua luz brilhante e incandescente brilhará e Ele reinará para sempre. Presto testemunho de que Ele vive, que Ele nos ama e vela por nós.

Em nome de Jesus Cristo. Amém.