A Expiação

Presidente Boyd K. Packer

Presidente do Quórum dos Doze Apóstolos


Boyd K. Packer
Aonde quer que nossos membros ou missionários possam ir, nossa mensagem é de fé e esperança no Salvador Jesus Cristo.

Minha mensagem é direcionada àqueles que entre nós estão sofrendo, sobrecarregados com culpa, fraqueza, fracasso, tristeza e desespero.

Em 1971, fui designado a participar de conferências de estaca na Samoa Ocidental, incluindo a organização de uma nova estaca na Ilha Upolu. Depois das entrevistas, alugamos um pequeno avião para as Ilhas Savai’i, a fim de realizar uma conferência de estaca ali. O avião aterrissou em um campo gramado em Faala e deveria retornar na tarde seguinte para nos levar de volta à Ilha Upolu.

No dia em que deveríamos voltar de Savai’i, estava chovendo. Sabendo que o avião não conseguiria pousar no campo molhado, fomos de carro até a extremidade ocidental da ilha, onde havia uma espécie de pista em cima de uma barreira de corais. Esperamos até escurecer, mas não chegou nenhum avião. Por fim, ficamos sabendo pelo rádio que houve uma tempestade e o avião não pôde decolar. Enviamos uma mensagem de volta pelo rádio dizendo que retornaríamos de barco. Alguém iria encontrar-se conosco em Mulifanua.

Ao partir do porto de Savai’i, o capitão do barco de 12 metros perguntou ao presidente da missão se ele tinha uma lanterna. Felizmente, ele tinha e a presenteou ao capitão. Fizemos a travessia de 21 quilômetros até a Ilha Upolu em meio a mares bem revoltos. Nenhum de nós se dera conta de que uma forte tempestade tropical havia atingido a ilha, e que estávamos indo bem na direção dela.

Chegamos ao porto de Mulifanua. Havia uma estreita passagem que teríamos de passar em meio aos recifes. Uma luz posicionada na montanha que ficava acima da praia e uma segunda luz inferior marcavam a passagem estreita. Quando o barco era manobrado de modo que as duas luzes se alinhavam uma acima da outra, isso fazia com que a embarcação se colocasse no rumo certo para passar por entre as rochas perigosas que ladeavam a passagem.

Mas naquela noite havia uma única luz. Dois élderes estavam esperando em terra para nos receber, mas a travessia levara bem mais tempo do que de costume. Depois de esperarem por horas pelos sinais de nosso barco, os élderes ficaram cansados e caíram no sono, deixando de acender a segunda luz, a de baixo. Consequentemente, a passagem em meio aos recifes não estava clara.

O capitão manobrou o barco da melhor maneira que pôde em direção à luz superior, enquanto um tripulante apontava a lanterna emprestada por sobre a murada do barco, procurando rochas à frente. Podíamos ouvir as ondas quebrando sobre os recifes. Quando chegávamos perto o suficiente para vê-los com a luz da lanterna, o capitão gritava freneticamente para que recuássemos, então tentávamos localizar novamente a passagem.

Depois de muitas tentativas, ele viu que seria impossível encontrar a passagem. Tudo o que podíamos fazer era tentar alcançar o porto que ficava em Ápia, a 64 quilômetros dali. Estávamos indefesos contra a força bruta dos elementos. Não me lembro de ter estado num lugar que estivesse tão escuro como aquele.

Não fizemos nenhum progresso na primeira hora, embora o motor estivesse funcionando a todo vapor. O barco avançava com dificuldade até o alto de uma onda gigantesca e depois se detinha, exausto, na sua crista, com as hélices fora da água. A vibração das hélices sacudia o barco até quase parti-lo em pedaços, antes que ele descesse pelo outro lado.

Estávamos deitados de bruços sobre a tampa do reservatório de carga, agarrando-nos com as mãos de um lado e com os pés do outro, para não ser varridos pelas ondas para fora do barco. O irmão Mark Littleford se soltou e foi jogado contra a mureta de metal. Sofreu um corte na cabeça, mas a mureta impediu que fosse jogado no mar.

Por fim, movemo-nos à frente e, quase ao raiar do dia, chegamos finalmente ao porto de Ápia. Os barcos estavam todos amarrados uns aos outros, por segurança. Havia muitos deles no ancoradouro. Engatinhamos por entre eles, tentando não perturbar os que dormiam no cais. Fomos até Pesega, secamos nossas roupas e rumamos para Vailuutai para organizar a nova estaca.

Não sei quem estava esperando por nós na praia em Mulifanua. Recusei-me a deixar que me contassem. Mas é verdade que sem aquela luz de baixo, poderíamos todos ter perdido a vida.

Há em nosso hinário um hino muito antigo, e raramente cantado, que tem um significado muito especial para mim.

Brilham raios de clemência
Do farol do eterno Deus
Cumpre a nós, com nossas luzes,
Ajudar os filhos Seus.
Projetemos nossas luzes,
Através do escuro mar
Ao errante marinheiro
Poderemos resgatar.
Noite escura do pecado
Traz seu negro e denso horror
Ansiosos, muitos buscam
Um farol orientador.
Nossas luzes acendamos
Para aos náufragos mostrar
Um caminho mais seguro
Para o doce e eterno lar.1

Dirijo-me hoje aos que talvez estejam perdidos e buscam aquela luz de baixo para guiá-los de volta.

Era sabido, desde o princípio, que na mortalidade não conseguiríamos ser perfeitos. Não era esperado que vivêssemos sem transgredir uma ou outra lei.

“Porque o homem natural é inimigo de Deus e tem-no sido desde a queda de Adão e sê-lo-á para sempre; a não ser que ceda ao influxo do Santo Espírito e despoje-se do homem natural e torne-se santo pela expiação de Cristo, o Senhor”.2

Na Pérola de Grande Valor, aprendemos que “nenhuma coisa impura pode [habitar no reino de Deus]”,3 por isso um meio foi providenciado para que todos os que pecarem se arrependam e se tornem dignos de voltar à presença de nosso Pai Celestial.

Um Mediador, um Redentor, foi escolhido, alguém que viveria uma vida perfeita, não cometeria pecado e Se ofereceria “em sacrifício pelo pecado, cumprindo, assim, todos os requisitos da lei para todos os quebrantados de coração e contritos de espírito; e para ninguém mais podem todos os requisitos da lei ser cumpridos”.4

No tocante à importância da Expiação, em Alma aprendemos: “Pois é necessário que haja uma expiação; (…) do contrário, toda a humanidade inevitavelmente perecerá”.5

Se não cometermos nenhum erro, não precisamos da Expiação. Se cometermos erros, e todos cometemos, sejam pequenos ou graves, então temos imensa necessidade de descobrir como eles podem ser apagados para que não permaneçamos nas trevas.

“[Jesus Cristo] é a luz e a vida do mundo.”6 Se fixarmos a vista firmemente em Seus ensinamentos, seremos guiados para o porto da segurança espiritual.

A terceira regra de fé declara: “Cremos que, por meio da Expiação de Cristo, toda a humanidade pode ser salva por obediência às leis e ordenanças do Evangelho”.7

O Presidente Joseph F. Smith ensinou: “Os homens não podem perdoar seus próprios pecados; não podem limpar-se das consequências de seus pecados. Os homens podem parar de pecar e fazer o certo no futuro, de modo que seus atos sejam aceitáveis perante o Senhor e dignos de consideração. Mas quem irá reparar os erros que fizeram a si mesmos e a outros, que parecem ser impossíveis de serem consertados por conta própria? Por meio da Expiação de Jesus Cristo, os pecados da pessoa que se arrependeu serão lavados; embora sejam vermelhos como carmesim, ficarão brancos como a neve [ver Isaías 1:18]. Essa é a promessa que nos foi feita”.8

Não sabemos exatamente como o Senhor realizou a Expiação. Mas sabemos que a tortura cruel da crucificação foi apenas parte da horrível dor que começou no Getsêmani — aquele local sagrado de sofrimento — e foi concluída no Gólgota.

Lucas relatou:

“E apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e, pondo-se de joelhos, orava,

Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua.

E apareceu-lhe um anjo do céu, que o fortalecia.

E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão”.9

Pelo que sei, há apenas um relato nas próprias palavras do Salvador que descreve o que Ele suportou no Jardim do Getsêmani. A revelação relata:

“Pois eis que eu, Deus, sofri essas coisas por todos, para que não precisem sofrer caso se arrependam;

Mas se não se arrependerem, terão que sofrer assim como eu sofri;

Sofrimento que fez com que eu, Deus, o mais grandioso de todos, tremesse de dor e sangrasse por todos os poros”.10

Ao longo de sua vida, há ocasiões em que você foi a lugares que não deveria ter ido e fez coisas que não deveria ter feito. Se abandonar seu pecado, poderá um dia conhecer a paz que advém de seguir o caminho do pleno arrependimento.

Não importa quais tenham sido nossas transgressões, não importa o quanto nossas ações tenham magoado outros, essa culpa pode ser inteiramente apagada. Para mim, talvez a mais bela frase de todas as escrituras seja quando o Senhor disse: “Eis que aquele que se arrependeu de seus pecados é perdoado e eu, o Senhor, deles não mais me lembro”.11

Esta é a promessa do evangelho de Jesus Cristo e da Expiação: tomar qualquer um que vier, qualquer um que se filiar e fazê-lo passar por uma experiência pessoal de modo que no final de sua vida, ele possa passar pelo véu, tendo se arrependido de seus pecados e tendo sido lavado e purificado pelo sangue de Cristo.12

É isso que os santos dos últimos dias fazem no mundo inteiro. Essa é a Luz que oferecemos aos que estão nas trevas e que perderam o rumo. Aonde quer que nossos membros ou missionários possam ir, nossa mensagem é de fé e esperança no Salvador Jesus Cristo.

O Presidente Joseph Fielding Smith escreveu a letra do hino “Parece Longa a Jornada?” Ele era um bom amigo meu. O hino contém um incentivo e uma promessa aos que procuram seguir os ensinamentos do Salvador:

Parece longa a jornada?
É o caminho acidentado e íngreme?
Há sarças e espinhos pelo caminho?
Há pedras afiadas que lhe cortam os pés
Ao esforçar-se para erguer-se
Às alturas no calor do dia?
Está seu coração cansado e triste,
Está sua alma exausta
Ao trabalhar sob o fardo das preocupações?
Parece pesado o fardo
Que você é obrigado a erguer agora?
Não há ninguém para compartilhar sua carga?
Que não lhe desfaleça o coração
A jornada começou
Há Um que ainda o convida.
Portanto, olhe para cima, com alegria
E pegue na mão Dele;
Ele vai guiá-lo a alturas que são novas,
A uma terra santa e pura,
Onde todos os problemas chegam ao fim,
E sua vida será livre de todo pecado,
Onde não serão derramadas lágrimas,
Porque ali não restam tristezas.
Pegue Sua mão e entre com Ele.13

Em nome de Jesus Cristo. Amém.

Exibir Referências

  1.  

    1. “Brilham Raios de Clemência”, Hinos, nº 202.

  2.  

    2.  Mosias 3:19.

  3.  

    3.  Moisés 6:57.

  4.  

    4.  2 Néfi 2:7.

  5.  

    5.  Alma 34:9.

  6.  

    6.  Mosias 16:9.

  7.  

    7.  Regras de Fé 1:3.

  8.  

    8.  Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Joseph F. Smith, 1998, pp. 99–100.

  9.  

    9.  Lucas 22:41–44.

  10.  

    10.  Doutrina e Convênios 19:16–18.

  11.  

    11.  Doutrina e Convênios 58:42.

  12.  

    12. Ver Apocalipse 1:5.

  13.  

    13. “Does the Journey Seem Long?” [A Jornada Parece Longa?] Hymns, nº 127.