Redenção

Élder D. Todd Christofferson

Do Quórum dos Doze Apóstolos


D. Todd Christofferson
Quando seguimos Cristo, procuramos participar de Sua obra redentora e divulgá-la.

Nos tempos coloniais, havia grande demanda de mão de obra na América. Durante o Século XVIII e o início do Século XIX, foram recrutados possíveis imigrantes na Inglaterra, Alemanha e outros países europeus, mas muitos daqueles que estavam dispostos a ir não podiam arcar com as despesas de viagem. Não era incomum que eles viajassem com um contrato em que prometiam trabalhar por um certo período após sua chegada sem receber salário, para pagar a passagem. Outros vinham com a promessa de que os familiares que já estavam na América pagariam a passagem quando eles chegassem, mas se isso não acontecesse, os recém-chegados eram obrigados a pagar suas próprias despesas por meio de serviço sem salário. O termo usado para descrever esses imigrantes era “redimidores”. Eles tinham que redimir o custo de sua passagem, ou seja, comprar sua liberdade com trabalho.1

Entre os mais significativos títulos descritivos de Jesus Cristo está o de Redentor. Conforme indicado em meu breve relato dos imigrantes “redimidores”, a palavra redimir significa pagar uma obrigação ou dívida. Redimir também pode significar resgatar ou libertar, pagando-se um resgate. Se alguém comete um erro e depois o corrige ou o compensa, dizemos que ele se redimiu. Cada um desses significados sugere uma faceta diferente da grande Redenção realizada por Jesus Cristo com Sua Expiação, que segundo o dicionário inclui “a libertação do pecado e de suas penalidades, por meio de sacrifício feito em favor do pecador”.2

A Redenção do Salvador tem duas partes. Primeiro, ela expia a transgressão de Adão e a consequente Queda do homem, vencendo os assim chamados efeitos diretos da Queda: a morte física e a morte espiritual. A morte física é bem compreendida. A morte espiritual é a separação entre o homem e Deus. Nas palavras de Paulo: “Assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (I Coríntios 15:22). Essa redenção da morte física e da morte espiritual é universal e incondicional.3

O segundo aspecto da Redenção do Salvador é a redenção das assim chamadas consequências indiretas do pecado: nossos próprios pecados em contraposição à transgressão de Adão. Em virtude da Queda, nascemos num mundo mortal em que o pecado, ou seja, a desobediência à lei instituída por Deus, é generalizado. Falando de todos nós, o Senhor disse:

“Quando eles começam a crescer, concebe-se o pecado em seu coração, e eles provam o amargo para saber apreciar o bom.

E a eles é dado distinguir o bem do mal, de modo que são seus próprios árbitros” (Moisés 6:55–56).

Como somos responsáveis e fazemos escolhas, a redenção de nossos próprios pecados é condicional — ela está condicionada à confissão e ao abandono do pecado e à adoção de uma vida virtuosa, ou em outras palavras, ao arrependimento (ver D&C 58:43). “Portanto”, ordena o Senhor, “ensina a teus filhos que todos os homens, em todos os lugares, devem arrepender-se, ou de maneira alguma herdarão o reino de Deus, porque nenhuma coisa impura pode ali habitar ou habitar em sua presença” (Moisés 6:57).

O sofrimento do Salvador no Getsêmani e Sua agonia na cruz nos redimem do pecado, satisfazendo as exigências da justiça sobre nós. Ele concede misericórdia e perdoa aqueles que se arrependem. A Expiação também satisfaz a dívida que a justiça tem para conosco curando-nos e compensando-nos de todo sofrimento que suportamos inocentemente. “Pois eis que ele sofre as dores dos homens, sim, as dores de toda criatura vivente, tanto homens como mulheres e crianças, que pertencem à família de Adão” (2 Néfi 9:21; ver também Alma 7:11–12).4

Quando seguimos Cristo, procuramos participar de Sua obra redentora e divulgá-la. O maior serviço que podemos prestar aos outros nesta vida, começando por nossos próprios familiares, é o de levá-los a Cristo por meio da fé e do arrependimento, para que possam vivenciar Sua Redenção — paz e alegria nesta vida e imortalidade e vida eterna no mundo vindouro. O trabalho de nossos missionários é uma magnífica expressão do amor redentor do Senhor. Como Seus mensageiros autorizados, eles oferecem as incomparáveis bênçãos da fé em Jesus Cristo, do arrependimento, do batismo e do dom do Espírito Santo, abrindo o caminho para um renascimento espiritual e uma redenção.

Também podemos auxiliar na redenção oferecida pelo Salvador àqueles que já faleceram. “Os élderes fiéis desta dispensação, quando deixam a vida mortal, continuam seus labores na pregação do evangelho do arrependimento e da redenção, por meio do sacrifício do Filho Unigênito de Deus, entre aqueles que estão nas trevas e sob a servidão do pecado no grande mundo dos espíritos dos mortos” (D&C 138:57). Com o benefício dos ritos vicários que lhes oferecemos nos templos de Deus, até os que morreram sob o cativeiro do pecado podem ser libertados.5

Embora os aspectos mais importantes da redenção tenham a ver com o arrependimento e o perdão, há um aspecto secular bastante significativo também. Foi dito que Jesus andou fazendo o bem (ver Atos 10:38), que incluía curar enfermos e doentes, prover alimento a multidões famintas e ensinar de modo mais excelente. “O Filho do homem (…) não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mateus 20:28). Assim, sob a influência do Santo Espírito, podemos também fazer o bem, de acordo com o padrão redentor do Mestre.

Esse tipo de trabalho de redenção significa ajudar as pessoas a solucionar seus problemas. Significa ajudar os pobres e fracos, aliviar sofrimentos, corrigir males, defender a verdade, fortalecer a nova geração e prover segurança e felicidade no lar. Grande parte do trabalho de redenção na Terra consiste em ajudar as pessoas a crescer e alcançar suas justas esperanças e aspirações.

Um exemplo do romance de Vitor Hugo, Os Miseráveis, embora fictício, sempre me tocou e inspirou. Quase no início da história, o bispo Bienvenu dá comida e abrigo ao sem-teto Jean Valjean, que acaba de ser libertado após 19 anos de prisão por ter roubado um pão para alimentar os filhos famintos de sua irmã. Endurecido e amargurado, Valjean retribuiu a bondade do bispo Bienvenu roubando-lhe objetos de prata. Mais tarde, detido por policiais que dele suspeitavam, Valjean declara falsamente que a prataria lhe foi dada de presente. Quando os policiais o arrastaram de volta para a casa do bispo, para surpresa de Valjean, o bispo confirma sua história e para comprová-la exclama: “Ora! Eu lhe dei também os castiçais, que também são de prata, e que lhe renderiam uns duzentos francos. Por que você não os levou também junto com os pratos?’ (…)

O bispo se aproximou dele e lhe disse baixinho:

‘Não se esqueça, não se esqueça de que você me prometeu usar essa prataria para se tornar um homem honesto’.

Jean Valjean, que não tinha lembrança de ter feito essa promessa, continuou confuso. O bispo (…) prosseguiu, solenemente:

‘Jean Valjean, meu irmão: você já não pertence ao mal, mas ao bem. É sua alma que estou comprando para você. Eu a tiro dos pensamentos tenebrosos e do espírito de perdição e a entrego a Deus!’”

Jean Valjean realmente se tornou um novo homem, um homem honesto e benfeitor de muitos. Durante toda a sua vida, ele guardou os dois castiçais de prata, como lembrete de que sua vida havia sido redimida para Deus.6

Algumas formas de redenção secular ocorrem pelo empenho colaborativo. Esse é um dos motivos pelos quais o Salvador criou uma igreja. Estando organizados em quóruns e auxiliares, e em estacas, alas e ramos, podemos não apenas ensinar e encorajar uns aos outros no evangelho, mas também podemos convocar a ajuda de pessoas e recursos para lidar com as exigências da vida. As pessoas que agem sozinhas ou em grupos reunidos para fins específicos nem sempre conseguem prover meios na escala necessária para abordar problemas maiores. Como seguidores de Jesus Cristo, somos uma comunidade de santos organizados para ajudar a redimir as necessidades de nossos membros e de muitas outras pessoas, estendendo a mão no mundo inteiro.

Graças a nosso trabalho humanitário, mencionado pelo Élder Dallin H. Oaks, realizado especificamente no ano passado, 890.000 pessoas de 36 países têm água potável, 70.000 pessoas de 57 países têm cadeiras de rodas, 75.000 pessoas de 25 países têm visão melhorada e muitas pessoas de 52 países receberam auxílio após desastres naturais. Atuando com outros, a Igreja ajudou a vacinar aproximadamente 8 milhões de crianças e ajudou os sírios alojados em campos de refugiados da Turquia, do Líbano e da Jordânia com suprimentos vitais. Ao mesmo tempo, os membros da Igreja necessitados receberam em 2012 milhões de dólares em oferta de jejum e outros serviços de bem-estar. Obrigado por sua generosidade.

Tudo isso nem sequer chega a levar em conta inúmeros atos individuais de bondade e apoio — doações de alimentos, roupas, dinheiro, serviços prestados e milhares de outras formas de consolo e compaixão pelos quais participamos do trabalho cristão de redenção. Quando eu era menino, vi minha própria mãe agindo para redimir uma mulher necessitada. Há muitos anos, quando tinha os filhos ainda pequenos, minha mãe foi submetida a uma arriscada cirurgia que quase lhe tirou a vida, deixando-a acamada por quase um ano. Durante esse período, vários familiares e membros da ala ajudaram minha mãe e nossa família. Para obtermos mais auxílio, a presidente da Sociedade de Socorro, a irmã Abraham, recomendou que meus pais contratassem uma mulher da ala que precisava desesperadamente de trabalho. Ao recontar essa história, vou chamar essa mulher e sua filha pelos nomes fictícios de Sara e Ana. Este é o relato feito por minha mãe:

“Lembro-me claramente como se fosse ontem. Eu estava na cama, e a irmã Abraham trouxe Sara até a porta do quarto. Fiquei desalentada. Ali estava a pessoa de pior aspecto que eu já tinha visto — extremamente magra, o cabelo desgrenhado e despenteado, com os ombros encurvados, a cabeça baixa, olhando para o chão. Vestia uma roupa velha uns quatro números acima do seu. Não erguia o rosto e falava tão baixinho que eu mal conseguia ouvi-la. Escondendo-se atrás dela estava uma menininha de uns três anos de paraID=ade. O que é que eu ia fazer com aquela criatura? Depois que saíram do quarto, chorei e chorei. Eu precisava de ajuda, e não de mais problemas. A irmã Abraham ficou um pouco com ela e, em pouco tempo, as duas puseram a casa em ordem e prepararam uma bela refeição. A irmã Abraham pediu-me que experimentasse os serviços dela por alguns dias, [dizendo que] aquela moça tinha passado momentos realmente difíceis e precisava de ajuda.

Na manhã seguinte, quando Sara chegou, finalmente consegui fazer com que ela se aproximasse do leito para que eu conseguisse ouvi-la. Ela perguntou o que eu queria que ela fizesse. Expliquei a ela e depois acrescentei: ‘Mas o mais importante são os meus filhos. Passe um tempo com eles, leia para eles — são mais importantes do que a casa’. Ela cozinhava bem e deixava a casa limpa, lavava a roupa e era boa para os meninos.

No transcorrer das semanas, fiquei conhecendo a história de Sara. [Como ela tinha problemas de audição, não ia bem na escola e acabou largando os estudos. Casou-se com um homem que bebia muito. Ana nasceu e tornou-se a alegria da vida de Sara. Numa noite de inverno, o marido voltou para casa bêbado, obrigou Sara e Ana a entrarem no carro ainda de pijamas e largou-as na beira da estrada. Elas nunca mais o viram. Descalças e morrendo de frio, Sara e Ana caminharam vários quilômetros até a casa da mãe dela.] A mãe concordou em deixá-las ficar, se ela fizesse todo o trabalho doméstico, cozinhasse e cuidasse da irmã e do irmão dela que estavam cursando o Ensino Médio.

Levamos Sara ao otorrinolaringologista, e ela ganhou um aparelho auditivo. (…) Nós a levamos para fazer o supletivo, e ela conseguiu um diploma do Ensino Médio. Frequentou uma escola noturna, formou-se na faculdade e passou a dar aulas para crianças com deficiências. Comprou uma casinha. Ana casou-se no templo e teve dois filhos. Sara foi submetida a algumas cirurgias do ouvido e passou a ouvir bem. Anos depois, ela se aposentou e serviu missão. (…) Sara nos agradece com frequência e diz que aprendeu muito comigo, principalmente quando eu lhe disse que meus filhos eram mais importantes do que a casa. Ela disse que isso a ensinou a agir da mesma forma em relação à Ana. (…) Sara é uma mulher muito especial”.

Como discípulos de Jesus Cristo, devemos fazer tudo a nosso alcance para redimir as pessoas dos sofrimentos e dos fardos. Mesmo assim, nosso maior serviço de redenção será o de levá-las a Cristo. Sem Sua Redenção da morte e do pecado, teríamos apenas um evangelho de justiça social. Isso pode prover algum auxílio e reconciliação no presente, mas não tem o poder de invocar a justiça perfeita e a infinita misericórdia do céu. A redenção final está em Jesus Cristo, e somente Nele. Com humildade e gratidão eu O reconheço como o Redentor, em nome de Jesus Cristo. Amém.

Exibir Referências

  1.  

    1. Ver Merriam-Webster’s Collegiate Dictionary, 10ª ed., 1993, “redemptioner”.

  2.  

    2. Webster’s New World College Dictionary, 3ª ed., 1988, “redeem”.

  3.  

    3. “O Filho de Deus [expiou] o pecado original, de modo que os pecados dos pais não podem recair sobre a cabeça dos filhos, pois estes são limpos desde a fundação do mundo” (Moisés 6:54). Pela Redenção de Cristo, todos vencem a morte e são ressuscitados para a imortalidade. Além disso, todos vencem a morte espiritual, sendo levados de volta à presença de Deus para ser julgados. Jesus disse: “Assim como fui levantado pelos homens [na cruz], assim sejam os homens levantados pelo Pai, para comparecerem perante mim a fim de serem julgados por suas obras” (3Néfi 27:14). Os que forem purificados do pecado permanecerão com Deus no reino celestial, mas os que não tiverem se arrependido e estiverem impuros não poderão habitar com um Deus santo, e após o Juízo terão de partir e assim sofrer novamente a morte espiritual. Isso às vezes é chamado de segunda morte ou sofrer a morte espiritual pela segunda vez (ver Helamã 14:15–18).

  4.  

    4. É no tocante a nossos próprios pecados que as escrituras declaram que alguns não receberão o benefício da redenção: “Os iníquos permanecerão como se não tivesse havido redenção, sendo apenas desatadas as ligaduras da morte” (Alma 11:41). “Aquele que não exerce fé para o arrependimento está exposto às exigências de toda a lei da justiça; portanto, apenas para o que possui fé para o arrependimento tem efeito o grande e eterno plano de redenção” (Alma 34:16). Se um homem rejeitar a Expiação do Salvador, ele próprio terá que redimir sua dívida para com a justiça. Jesus disse: “Pois eis que eu, Deus, sofri essas coisas por todos, para que não precisem sofrer caso se arrependam; mas se não se arrependerem, terão que sofrer assim como eu sofri” (Doutrina e Convênios 19:16–17). O sofrimento de uma pessoa não redimida por seus pecados é conhecido como inferno. Significa estar sujeito ao diabo, sendo descrito nas escrituras por metáforas, como a de estar acorrentado ou em um lago de fogo e enxofre. Leí implorou a seus filhos que escolhessem a Redenção de Cristo “e que não escolhêsseis a morte eterna, conforme a vontade da carne e o mal que nela há, que dá ao espírito do diabo poder para escravizar, para levar-vos ao inferno, a fim de reinar sobre vós em seu próprio reino” (2 Néfi 2:29). Mesmo assim, graças à Expiação de Jesus Cristo, o inferno tem fim, e aqueles que são obrigados a passar por ele são “redimidos do diabo [na] última ressurreição” (Doutrina e Convênios 76:85). Os relativamente poucos “filhos de perdição” são “os únicos sobre quem a segunda morte terá qualquer poder [duradouro]; sim, em verdade, os únicos que não serão redimidos no devido tempo do Senhor depois de terem sofrido a sua ira” (Doutrina e Convênios 76:32, 37–38).

  5.  

    5. O Profeta Joseph Smith exultou, dizendo: “Entoem os mortos hinos de eterno louvor ao Rei Emanuel, que estabeleceu, antes da fundação do mundo, aquilo que nos permitiria redimi-los de sua prisão; pois os prisioneiros serão libertados” (Doutrina e Convênios 128:22).

  6.  

    6. Ver Victor Hugo, Les Misérables, 1992, pp. 91–92.