Mensagem da Primeira Presidência

Encontrar a Paz

Presidente Thomas S. Monson

Primeiro Conselheiro na Primeira Presidência

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    Num mundo em que a paz é uma busca universal, muitas vezes nos perguntamos por que a violência caminha por nossas ruas, relatos de assassinatos e mortes sem sentido enchem as colunas dos jornais, e brigas e disputas familiares prejudicam a santidade do lar e sufocam a tranqüilidade de tantas vidas.

    Talvez estejamos nos desviando do caminho que leva à paz e percebamos ser necessário parar, ponderar e refletir sobre os ensinamentos do Príncipe da Paz e tomar a decisão de incorporá-los a nossos pensamentos e ações, viver a lei maior, caminhar por uma estrada mais elevada e ser melhores discípulos de Cristo.

    Os Inimigos da Paz

    A devastação causada pela fome na África, a brutalidade do ódio no Oriente Médio e as lutas étnicas por todo o globo lembram-nos de que a paz que buscamos não será alcançada sem esforço e determinação. É difícil dominar adversários como a raiva, o ódio e a contenda. Esses inimigos deixam inevitavelmente em seu rastro destrutivo lágrimas de pesar, a dor causada pelos conflitos e a tristeza de vermos destruída a esperança do que poderia ter sido. Sua esfera de influência não se restringe aos campos de batalha, mas todas essas coisas podem ser observadas, com muita freqüência, no lar, na família e dentro do coração. Muitos esquecem rapidamente e lembram-se tardiamente do conselho do Senhor: “Não haverá disputas entre vós. (…)

    Pois em verdade, em verdade vos digo que aquele que tem o espírito de discórdia não é meu, mas é do diabo, que é o pai da discórdia e leva a cólera ao coração dos homens, para contenderem uns com os outros.

    Eis que esta não é minha doutrina, levar a cólera ao coração dos homens, uns contra os outros; esta, porém, é minha doutrina: que estas coisas devem cessar”.1

    Ao retrocedermos os ponteiros do relógio do tempo, recordamo-nos que houve, há cerca de 65 anos, uma tentativa desesperada de paz; uma conferência de paz realizada na cidade alemã de Munique. Os líderes das potências européias reuniram-se, enquanto o mundo vacilava à beira da guerra. Seu propósito, claramente declarado, era tomar um rumo que, a seu ver, talvez evitasse a guerra e garantisse a paz. A falta de confiança, as intrigas e o desejo de poder condenaram essa conferência ao fracasso. O resultado não foi “paz em nossos tempos”, mas, sim, guerra e destruição em um nível nunca visto anteriormente. Ignorou-se, ou ao menos deixou-se de lado o apelo tocante de alguém que sucumbira em outra guerra. Ele parecia estar escrevendo em defesa de milhões de companheiros de batalha, tanto amigos quanto inimigos:

    Nos campos de Flandres as papoulas florescem

    Entre as cruzes enfileiradas

    Que indicam a nossa morada; e lá no céu,

    As cotovias ainda cantam, intrépidas a voar

    Porém, quase não são ouvidas em meio aos tiros de canhão.

    Somos os mortos. Há poucos dias

    Vivíamos, sentíamos o amanhecer, víamos o pôr-do-sol,

    Amávamos e éramos amados,

    Agora jazemos nos campos de Flandres.

    Prossigam nossa luta contra o inimigo:

    Passamos a vós, de nossas mãos debilitadas,

    A tocha, para que seja vossa e a mantenhais erguida.

    Se faltardes com a palavra para conosco que morremos

    Jamais descansaremos, embora as papoulas floresçam

    Nos campos de Flandres.2

    Estaremos fadados a repetir os erros do passado? O renomado estadista William Gladstone descreveu a fórmula da paz, ao declarar: “Ansiamos pela época em que o poder do amor substituirá o amor pelo poder. Então o mundo conhecerá as bênçãos da paz”.

    A Paz de Deus

    A paz mundial, embora seja uma meta grandiosa, nada mais é do que o resultado da paz pessoal que o indivíduo procura alcançar. Não me refiro à paz promovida pelo homem, mas a paz prometida por Deus. Refiro-me à paz no lar, à paz no coração e até à paz na vida. A paz, segundo o homem, perecerá. A paz, à maneira de Deus, prevalecerá.

    Ouvimos dizer que “a ira nada resolve, nada edifica; pode, porém, destruir tudo”.3 As conseqüências do conflito são tão devastadoras que ansiamos por orientação — sim, um modo de assegurar o sucesso ao buscarmos um caminho que leve à paz. Como podemos conseguir essa bênção universal? Quais são os pré-requisitos? Lembremo-nos de que para recebermos as bênçãos de Deus, precisamos antes fazer a Sua vontade. Gostaria de sugerir três idéias para inspirar nossa mente e guiar nossos passos:

    1. Buscar dentro de nós;

    2. Estender a mão; e

    3. Olhar para o céu.

    Primeiro: Buscar dentro de nós. A auto-avaliação é sempre difícil. Somos freqüentemente tentados a atenuar áreas que exigem correção e a salientar constantemente os nossos pontos fortes. O Presidente Ezra Taft Benson (1899–1994) nos aconselhou: “O preço da paz é a retidão. Homens e nações podem proclamar em altos brados: ‘Paz, paz’, mas não haverá paz até que as pessoas nutram na alma os princípios da pureza pessoal, da integridade e do caráter, que promovem o desenvolvimento da paz. A paz não pode ser imposta. Precisa originar-se na vida e no coração dos homens. Não há outra maneira”.4

    O Élder Richard L. Evans (1906–1971) do Quórum dos Doze Apóstolos observou: “Para encontrar a paz — a paz interior, a paz que excede todo o entendimento — os homens precisam viver honestamente, amando e tratando os entes queridos com carinho, servindo e respeitando o próximo com paciência, com virtude, com fé e longanimidade, com a certeza de que a vida é para aprender, servir, arrepender-se e progredir. E devemos agradecer a Deus pelos princípios consagrados do arrependimento e do progresso, que é um caminho aberto a todos nós”.5

    Veremos que o papel dos pais no lar e na família é de vital importância ao examinarmos nossas responsabilidades pessoais nesse sentido. Há pouco tempo, um grupo eminente reuniu-se para examinar o aumento da violência na vida das pessoas, principalmente na vida dos jovens. Algumas de suas observações nos são úteis, ao examinarmos nossas prioridades:

    “Uma sociedade que encara a violência explícita como entretenimento (…) não deveria ficar surpresa ao ver a violência sem sentido destruir os sonhos dos jovens e dos mais inteligentes (…)

    (…) O desemprego e a falta de esperança podem levar ao desespero. Mas a maioria das pessoas não comete ações desesperadas, se tiver aprendido que a dignidade, a honestidade e a integridade são mais importantes que a vingança ou o ódio; e se entender que, em última análise, o respeito e a gentileza nos proporcionam melhor oportunidade de sucesso. (…)

    As mulheres reunidas num congresso contra a violência encontraram a solução — a única que pode reverter a tendência cada vez pior que vemos do comportamento destrutivo e da dor sem sentido. A volta aos valores familiares tradicionais fará prodígios.”6

    Com muita freqüência, cremos que nossos filhos precisam de mais coisas, quando na realidade suas súplicas silenciosas são simplesmente por mais de nosso tempo. O acúmulo de riquezas ou a multiplicação de bens desvirtuam o ensinamento do Mestre:

    “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam;

    Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam.

    Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”.7

    Outra noite, vi grandes grupos de pais e filhos atravessando um cruzamento em Salt Lake City, rumo a um ginásio, para assistir a um espetáculo de patinação no gelo que encenava “ A Bela e a Fera ”. Na verdade, parei meu carro junto ao meio-fio para observar a alegre multidão. Os pais, que com certeza foram persuadidos a assistir ao espetáculo, seguravam firmemente as mãos de seus preciosos filhos. Ali se via o amor em ação. Presenciava-se um sermão sobre o afeto. Ali estava o remanejamento do tempo de cada um, como uma prioridade dada por Deus.

    Verdadeiramente, a paz reinará triunfante quando nos aperfeiçoarmos de acordo com o padrão ensinado pelo Senhor. Então apreciaremos a profunda espiritualidade escondida atrás das palavras singelas de um hino familiar: “Tudo é belo em derredor com amor no lar”.8

    Segundo: Estender a mão. Embora saibamos que a exaltação é um assunto pessoal e que as pessoas não são salvas em grupos, mas sim individualmente, não se pode viver em um vácuo. Ser membro da Igreja faz nascer a determinação de servir. Um cargo de responsabilidade talvez não tenha sua importância reconhecida nem sua recompensa amplamente divulgada. O serviço, para ser aceitável ao Senhor, deve vir de uma mente solícita, mãos prontas e um coração dedicado.

    O desânimo poderá, às vezes, obscurecer nosso caminho; a frustração talvez se torne uma companheira constante. Em nossos ouvidos talvez soe o sofisma de Satanás, sussurrando: “Você não pode salvar o mundo; seus pequenos esforços são inúteis. Você não tem tempo para se preocupar com os outros”. Colocando nossa confiança em Deus, afastemo-nos dessas mentiras e asseguremo-nos de que nossos passos estejam firmemente voltados para o serviço, e nosso coração e nossa alma estejam totalmente dedicados a seguir o exemplo do Senhor. Quando a luz da decisão se enfraquece e o coração fica oprimido, podemos confortar-nos com Sua promessa: “Não vos canseis de fazer o bem. (…) De pequenas coisas provém aquilo que é grande. Eis que o Senhor requer o coração e uma mente solícita”.9

    Durante certo ano, a organização da Primária esforçou-se para que as crianças se familiarizassem com o templo sagrado de Deus. Esse trabalho freqüentemente resultava em uma visita aos jardins do templo. O riso das criancinhas, a alegria da juventude livre e a exuberância de energia demonstrada por elas alegraram meu coração ao observá-las. Enquanto uma professora dedicada encaminhava uma criancinha à grande porta do Templo de Salt Lake e ela estendia a mão para tocá-lo, eu quase vislumbrava o Mestre recebendo as crianças e ouvia Suas palavras confortadoras: “Deixai vir os meninos a mim, e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus”.10

    Terceiro: Olhar para o céu. Ao fazê-lo, descobrimos que a comunicação com nosso Pai Celestial por meio da oração, que é o caminho para o poder espiritual e um passaporte para a paz, é confortadora e satisfatória. Lembramo-nos de Seu Filho Bem Amado, o Príncipe da Paz, aquele pioneiro que literalmente nos mostrou o caminho. Seu plano divino pode salvar-nos das babilônias do pecado, da complacência e do erro. Seu exemplo indica o caminho. Quando Se defrontou com a tentação, Ele afastou-Se dela. Quando Lhe ofereceram o mundo, Ele recusou-o. Quando Lhe pediram a vida, Ele deu-a.

    Em uma ocasião muito significativa, Jesus leu um texto de Isaías: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim; porque o Senhor me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos”.11 Essa foi uma declaração formal da paz que excede todo o entendimento.

    Com freqüência, a morte chega como uma intrusa. É um inimigo que surge repentinamente no meio do banquete da vida, apagando-lhe a luz e a alegria. A morte pousa sua mão sombria sobre aqueles que nos são caros e, algumas vezes, deixa-nos perplexos e abismados. Em determinadas situações, como as de grande sofrimento e doença, a morte chega como um anjo de misericórdia. Mas aos que sofrem, a promessa de paz do Mestre é o bálsamo consolador que cura: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou: não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize”.12 “Vou preparar-vos lugar (…) para que onde eu estiver estejais vós também.”13

    Oro para que todos os que perderam alguém que amaram saibam da realidade da ressurreição e adquiram um conhecimento inabalável de que as famílias podem ser eternas. Um deles foi o major Sullivan Ballou que, durante a Guerra Civil Americana, escreveu uma carta comovente à esposa — apenas uma semana antes de morrer na Batalha de Bull Run. Sintam comigo o amor que tinha na alma, sua confiança em Deus, sua coragem e fé.

    “14 de julho de 1861.

    Campo Clark, Washington

    Minha adorada Sarah,

    Tudo indica que estaremos marchando nos próximos dias — talvez amanhã. Com receio de não poder mandar-lhe outra carta, senti o impulso de escrever-lhe algumas linhas, que talvez só venha a ler quando eu não mais existir. (…)

    Não tenho receio nem falta de confiança quanto à causa pela qual estou lutando e minha coragem não diminui nem vacila (…) estou (…) perfeitamente (…) disposto a oferecer todas as alegrias desta vida para ajudar a manter este governo. (…)

    Sarah, meu amor por você é imortal; parece que ele me prende com correntes tão fortes que nada, exceto a Onipotência, poderia rompê-las; e ainda assim, o amor que sinto por meu país domina meu ser como um vento forte e transporta-me irresistivelmente, com todas essas correntes, para o campo de batalha.

    As lembranças dos momentos felizes que passei a seu lado tomam conta de mim e fazem com que me sinta grato a Deus e a você por tê-los desfrutado durante tanto tempo. É difícil desistir deles e transformar em cinzas as esperanças de anos futuros, quando, se Deus permitisse, poderíamos ainda ter vivido e amado juntos e visto nossos filhos crescerem, tornando-se adultos honrados a nosso lado. Tenho, sei, pouco direito à Providência Divina, mas algo me sussurra — talvez seja a oração de meu pequeno Edgar, trazida pelo vento, que eu voltarei ileso para meus entes queridos. Se isso não acontecer, minha querida Sarah, nunca se esqueça do quanto eu a amo; e quando eu exalar o último suspiro no campo de batalha, sussurrarei o seu nome. Perdoe[-me] por meus (…) erros e pelas muitas dores que lhe causei. Quantas vezes fui desatencioso e tolo! Como ficaria feliz se pudesse lavar com minhas lágrimas cada pequena mancha que empanou sua felicidade. (…)

    Mas, oh, Sarah! Se os mortos retornam à Terra sem serem vistos por aqueles a quem amam, eu estarei sempre a seu lado; nos dias mais felizes e nas noites mais escuras (…) sempre, sempre; e se sentir uma suave brisa na face, será minha respiração; quando o ar refrescar-lhe a têmpora latejante, será o meu espírito passando por você. Sarah, não chore por mim; pense que eu me fui e que vou esperá-la, pois nos encontraremos novamente.”14

    Nossa Mensagem de Paz

    A escuridão da morte poderá ser sempre dissipada pela luz da verdade revelada. O Mestre disse: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá”.15

    Além de Suas palavras estão as do anjo, dirigidas à Maria Madalena e à outra Maria, ao aproximarem-se do sepulcro para cuidar do corpo de seu Senhor: “Por que buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou”.16

    Essa é a nossa mensagem. Ele vive! E, porque vive, todos viveremos novamente. Este conhecimento concede-nos paz em relação aos entes queridos cujas sepulturas estão marcadas por cruzes na Normandia, que repousam em lugares santos nos campos de Flandres, onde as papoulas florescem na primavera, e que descansam em inúmeros locais, inclusive nas profundezas do mar. “Clamemos, hoje, com fervor: ‘Eu sei que vive meu Senhor!’” 17

    Idéias Para Os Mestres Familiares

    Depois de preparar-se em espírito de oração, transmita essa mensagem usando um método que incentive a participação das pessoas a quem for ensinar. Seguem-se alguns exemplos:

    1. Mostre um jornal com as manchetes atuais sobre os problemas do mundo e pergunte aos membros da família se já sentiram medo por causa desses problemas. Converse sobre maneiras pelas quais o Salvador pode ajudar-nos a encontrar paz e a vencer o temor, apesar dos problemas que existem no mundo.

    2. Pergunte a uma criança ou jovem da família se já precisou de ajuda porque alguém estava sendo rude ou porque as coisas não estavam indo bem na escola. Peça aos membros da família que digam como o Salvador poderia ajudar.

    3. A pessoa que você está ensinando já perdeu um ente querido? Preste seu testemunho da Ressurreição do Salvador e de seu efeito sobre todos nós, ou se for conveniente, peça que a pessoa preste seu testemunho aos outros membros da família.

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    Notas

    1. 1.

      3 Néfi 11:28–30.

    2. 2.

      John McCrae, “In Flanders Fields”, The Best Loved Poems of the American People, sel. Hazel Felleman 1936, p. 429.

    3. 3.

      L. Douglas Wilder, citado em “Early Hardships Shaped Candidates”, Deseret News, 1º de dezembro de 1991, p. A2.

    4. 4.

      “Purposeful Living”, Listen, A Journal of Better Living, janeiro–março, 1955, p. 19.

    5. 5.

      Conference Report, outubro de 1959, p. 128.

    6. 6.

      “Family Values in a Violent Society”, Deseret News, 16 de janeiro de 1994, p. A12.

    7. 7.

      Mateus 6:19–21.

    8. 8.

      “Com Amor no Lar”, Hinos, n.o 188

    9. 9.

      D&C 64:33–34.

    10. 10.

      Marcos 10:14.

    11. 11.

      Isaías 61:1; ver Lucas 4:17–20.

    12. 12.

      João 14:27.

    13. 13.

      João 14:2–3.

    14. 14.

      Citado em Geoffrey C. Ward, The Civil War, 1990, pp. 82–83.

    15. 15.

      João 11:25–26.

    16. 16.

      Lucas 24:5–6.

    17. 17.

      “Eu Sei Que Vive Meu Senhor”, Hinos, n.o 70.