Recato: Reverência pelo Senhor

Do Quórum dos Doze Apóstolos

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    Ao viajarmos por todo o mundo, nós, Autoridades Gerais e líderes das auxiliares da Igreja, percebemos claramente que o mundo está tornando-se cada vez mais informal e desleixado. Isso se manifesta de várias formas, mas sobretudo no vestuário. Observamos esse fenômeno até mesmo em alguns membros da Igreja.

    Essa informalidade pode resultar em parte da indiferença. Pode ainda ser fruto da falta de entendimento ou da ausência de modelos de referência. Já faz duas ou três gerações que o uso de trajes informais se generalizou, e talvez nem todos disponhamos em casa de um exemplo sólido de vestuário adequado e recatado. A cultura popular também não tem dado, de modo geral, um bom exemplo. Essa tendência preocupante também se deve em parte à dificuldade de achar roupas no mercado atual que correspondam aos padrões da Igreja.

    É com tais observações e desafios em mente que desejo salientar a necessidade de mostrar reverência ao Pai Celestial e de guardar os convênios que fizemos com Ele, principalmente os relacionados ao recato e ao vestuário adequado.

    O Princípio do Recato

    Alguns membros da Igreja talvez tenham a impressão de que o recato é uma mera tradição perpetuada pela Igreja ou um comportamento conservador e puritano. Mas o recato não é apenas cultural. É um princípio do evangelho que se aplica a todos, seja qual for a cultura ou a idade. De fato, o recato é fundamental para sermos dignos da companhia do Espírito. Ser recatado é ser humilde, e a humildade convida o Espírito a estar conosco.

    É claro que o recato não é algo recente. Foi ensinado a Adão e Eva no Jardim do Éden. “E fez o Senhor Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu” (Gênesis 3:21; ver também Moisés 4:27). Assim como a Adão e Eva, foi-nos ensinado que nosso corpo foi criado à imagem de Deus e que, portanto, é sagrado.

    “Não sabeis vós que sois o templo Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?

    (…) O templo de Deus, que sois vós, é santo” (I Coríntios 3:16–17).

    Nosso corpo é o templo de nosso espírito. Além disso, é o meio pelo qual podemos trazer almas da presença de Deus para seu estado mortal. Ao reconhecermos nosso corpo como a dádiva que de fato é e ao compreendermos as missões que ele nos ajuda a cumprir, vamos protegê-lo e honrá-lo por meio de nosso comportamento e vestuário.

    Em nosso dia-a-dia, não são aceitáveis os trajes indiscretos como saias ou shorts muito curtos, roupas justas, camisas e blusas que não cubram a barriga e outras roupas impróprias. Os homens e as mulheres — o que inclui os rapazes e as moças — devem usar roupas que cubram os ombros e evitar roupas decotadas na frente ou atrás ou que sejam reveladoras de qualquer outra forma. Calças ou camisas apertadas, roupas excessivamente folgadas, roupas amarrotadas e cabelo desgrenhado não são apropriados. Todos devem evitar os extremos no vestuário, corte de cabelo, penteado e em outros aspectos da aparência. Devemos sempre andar limpos e apresentáveis, sem desleixo ou excesso de informalidade. 1

    O recato é um dos traços principais da pureza e castidade, tanto em pensamento como em atos. Assim, por guiar e influenciar nossos pensamentos, conduta e decisões, o recato é uma característica primordial do nosso caráter. Nossas vestimentas servem para muito mais do que cobrir o corpo: refletem quem somos e o que desejamos ser, tanto na mortalidade quanto na eternidade por vir.

    O Recato no Vestuário nas Reuniões da Igreja

    Ao assistirmos a uma reunião da Igreja, nosso objetivo é adorar o Pai Celestial e Seu Filho, Jesus Cristo. Nosso vestuário deve refletir nossa reverência por Eles. Não nos devemos vestir para chamar atenção para nós mesmos, o que desconcentraria os outros e afastaria o Espírito.

    Os pais têm a responsabilidade de ensinar os filhos a vestir-se e a preparar-se para a adoração na casa do Senhor. A mãe e o pai podem educar os filhos tendo o cuidado de se vestirem de modo a demonstrar recato e reverência em sua própria aparência e comportamento.

    Quando eu era criança, minha mãe me ensinou a usar meus “trajes domingueiros” — ou seja, minhas melhores roupas — para ir à Igreja. O que acontece na sua casa durante a preparação para ir à Igreja? Antes de saírem de casa, há um momento em que param para se olharem no espelho ou pedirem a opinião de alguém sobre sua aparência?

    Mostre respeito pelo Senhor e por si mesmo vestindo-se adequadamente para as reuniões e atividades da Igreja, seja no domingo seja durante a semana. Caso tenha dúvidas sobre o que convém ou não usar, consulte os líderes.

    O Recato no Vestuário para Ir ao Templo

    Visualize a si mesmo se aproximando do templo, prestes a entrar na casa do Senhor. Consegue imaginar-se descabelado e usando chinelo, calça jeans e camiseta? Claro que não. Mas é admissível usar roupas informais de qualquer tipo para ir ao templo? Ao irmos à casa do Senhor, não devemos usar as melhores roupas domingueiras?

    Na próxima vez que passar perto de um templo, observe os jardins. Já parou para pensar por que os templos são cercados de belas plantas e fontes e têm uma bela concepção arquitetônica? Isso confere uma aura e cria uma atmosfera que preparam o freqüentador para as ordenanças sagradas que o aguardam dentro do templo. Mesmo que se situe no centro de uma cidade grande, a arquitetura do templo o distingue dos prédios ao redor.

    Nossas roupas são igualmente importantes. Trata-se do “paisagismo” que visa a apresentar nosso corpo como um templo. Assim como os jardins do templo simbolizam o caráter sagrado e reverente do que acontece lá dentro, as roupas que usamos deixam transparecer a beleza e a pureza de nossa alma. Nosso modo de vestir revela se demonstramos o devido respeito pelas ordenanças do templo e pelos convênios eternos e se estamos preparados para recebê-los.

    Num conto de fadas clássico, Cinderela foi a um baile na corte com um magnífico vestido. Até mesmo seus sapatos refletiam a importância daquela noite! Seria impensável ir ao baile com os sapatos usados no trabalho cotidiano. De fato, ninguém compareceu com trajes impróprios ou informais. Todos estavam elegantemente vestidos para a ocasião.

    Não haverá ocasião mais significativa na sua vida do que o seu casamento. Será um dos acontecimentos mais sagrados da sua vida e espera-se que ocorrerá no santo templo — o edifício mais sagrado do Pai Celestial na Terra. Se você compreender verdadeiramente a natureza dos convênios que fará, isso se refletirá no seu modo de vestir. Assim, as noivas escolherão um vestido branco para o templo cuja parte superior e as mangas permitam o uso dos garments. Agirão dessa forma por causa da cerimônia e dos convênios da investidura que tomaram sobre si em preparação para a cerimônia de selamento. O noivo também apresentará vestuário e aparência recatados e asseados. Não usará no templo camisa amarrotada ou calça mal-ajustada.

    Quando esse dia chegar, você fará convênios sagrados com o Pai Celestial. Por isso terá o desejo de ter a melhor aparência possível ao se ajoelhar no altar perante Deus.

    Pais, assim como a fada madrinha da Cinderela a ajudou a se arrumar, vocês podem ajudar a preparar seus filhos. Ajudem-nos a compreender o significado dos convênios que assumirão. A obediência aos nossos convênios, começando com o batismo, afeta quem somos e o que fazemos, inclusive as palavras que usamos, a música que ouvimos e as roupas que vestimos. Ao fazermos e guardarmos convênios, saímos do mundo e ingressamos no reino de Deus. Nossa aparência deve espelhar isso.

    Antes de ir ao templo — para se casar, receber a investidura ou realizar ordenanças vicárias — pare por alguns instantes e faça as seguintes perguntas a si mesmo: “Se o Senhor estivesse no templo hoje, como me vestiria? Como desejaria me apresentar a Ele?” A resposta é óbvia. Você se esforçaria para se apresentar e se sentir da melhor maneira possível.

    Faça as mesmas perguntas ao ir à Igreja aos domingos na sua capela. Lá, você renovará seus convênios batismais ao tomar o sacramento. Lembre-se: você está indo a uma casa do Senhor que foi dedicada para adorá-Lo.

    Aparência Física: as Mensagens que Emitimos

    Imagine estar assistindo a uma peça. Um ator entra em cena vestido de palhaço, mas começa a atuar no papel sério do protagonista. É bem provável que você estranhe — desconfiando de algum erro de contra-regra ou de escalação do elenco.

    Agora pense como seria inadequado sair pela rua ou ir à Igreja usando roupas que não correspondessem a quem você realmente é em espírito. Nossa aparência externa e conduta emitem mensagens às pessoas a nossa volta. Que mensagem estamos enviando? Ela reflete que somos filhos de Deus? Quando vamos à Igreja ou ao templo, é importante que nossos trajes demonstrem que estamos preparados para adorar o Senhor e prontos mental e espiritualmente para convidar o Espírito a estar sempre conosco.

    Há muitos anos, como pai e bispo na Igreja, eu não conseguia entender a lógica de jovens que usavam cores chamativas e roupas extravagantes a fim de ostentarem agressivamente sua rejeição das regras e tradições recatadas e conservadoras. Afinal, eu observava que, ironicamente, a observância estrita por parte desses jovens a tais códigos de vestuário bizarros exigia uma obediência e conformidade muito maiores a modismos do que a padrões estipulados pela sociedade como um todo.

    Se nos vestirmos com o intuito de chamar atenção, não convidaremos o Espírito Santo. Quando nos vestimos para atrair a atenção do mundo, agimos de modo diferente. Além do mais, o que vestimos influencia a atitude das pessoas para conosco.

    Pensem no motivo que leva os missionários a se vestirem de modo conservador — saia e blusa ou terno com camisa branca e gravata. Qual seria a reação das pessoas diante de missionários com cabelo despenteado ou usando jeans surrados, sandália de dedo e uma camiseta com mensagens pouco ortodoxas? As pessoas se perguntariam: “Esse é um representante de Deus?” Por que alguém desejaria travar uma conversa séria sobre o propósito da vida ou da Restauração do evangelho com um missionário assim?

    Claro que não precisamos vestir-nos como os missionários o tempo todo. Certamente há ocasiões em que roupas informais recatadas são perfeitamente aceitáveis. O que desejo salientar é o seguinte: nosso vestuário influencia o modo como as pessoas nos tratam. Mostra também onde nosso coração e nosso espírito desejam estar.

    O que sentimos interiormente se reflete no exterior. Demonstramos amor e respeito por nós mesmos e pelos outros por meio de nossa atitude, palavras e roupas. Mostramos amor e respeito pelos líderes da Igreja e pelos membros da ala ou ramo ao falarmos, vestirmo-nos e nos comportarmos de modo a não atrairmos indevidamente atenção para nós mesmos. Externamos amor e respeito por amigos e conhecidos quando nosso linguajar, vestuário e conduta não são provocantes ou descuidados. E mostramos amor e respeito pelo Senhor por meio de um vestuário e aparência humildes. “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João 13:35).

    Revestir-se de “Toda a Armadura de Deus”

    Quando soubermos quem somos — filhos de Deus — e compreendermos que nossa aparência externa afeta nossa espiritualidade e também nosso comportamento, demonstraremos respeito por Deus, por nós mesmos e pelas pessoas a nossa volta atentando para o recato e a conduta adequados.

    Meu pai, que era artista, ajudou-me a entender esse conceito quando eu era criança. Desenhou um cavaleiro protegido por uma armadura e escreveu o nome das partes principais de “toda a armadura de Deus”, conforme descritos nas escrituras (ver Efésios 6:11–17; D&C 27:15–18). Esse desenho ficou pendurado no meu quarto e serviu para lembrar que devemos permanecer fiéis e leais aos princípios do evangelho.

    Assim como devemos “revestir-nos” da armadura de Deus, devemos “revestir-nos” de roupas que ofereçam proteção para nós mesmos e para os outros. Ao nos vestirmos e agirmos com recato — demonstrando misericórdia, bondade, humildade, paciência e caridade — convidaremos a companhia do Espírito e influenciaremos para o bem as pessoas ao nosso redor (ver Colossenses 3:12, 14).

    Será que estamos determinados a ser santos no reino de Deus ou ficamos mais à vontade adotando os padrões do mundo? Em última análise, nosso vestuário exercerá grande influência em nossa obediência aos mandamentos e fidelidade aos convênios. O recato no vestir guiará nossas atitudes e comportamento ao agirmos no dia-a-dia. Nosso vestuário acabará até por determinar quem serão nossos amigos e colegas, o que repercutirá em nosso merecimento ou não das bênçãos de felicidade neste mundo e por toda eternidade.

    Desejo sinceramente que honremos nossos convênios e mostremos recato no vestir e agir ao freqüentarmos a Igreja, irmos ao templo e vivermos no cotidiano. Se assim procedermos, mostraremos respeito por nós mesmos, nossos pais, nossos líderes da Igreja e as demais pessoas e demonstraremos amor ao Pai Celestial e convidaremos o Espírito a estar sempre conosco.

    Toda a Armadura de Deus

    O “capacete da salvação” protege nosso raciocínio, intelecto e pensamentos.

    A “couraça da retidão” nos ajuda a ter o Espírito sempre conosco, preservando-nos o coração e a alma.

    Ter “cingidos os lombos com a verdade” nos proporciona o alicerce necessário para edificarmos a fé e desenvolvermos o testemunho pessoal.

    A “espada do Espírito” é a palavra de Deus para romper a escuridão, a fim de termos luz e verdade para guiar nossos caminhos na vida.

    O “escudo da fé” nos ajuda a resistir aos dardos inflamados do adversário.

    Ter “calçados os pés na preparação do evangelho da paz” por meio da leitura das escrituras nos ajuda a ser obedientes às leis, ordenanças, mandamentos e convênios de Deus.

    — Élder Robert D. Hales

    Exibir Referências

      Nota

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      Ver Para o Vigor da Juventude: Cumprir Nosso Dever para com Deus (2001), “Vestuário e Aparência”.