As Coisas Como Realmente São

Extraído de um discurso proferido no serão do Sistema Educacional realizado na Universidade Brigham Young–Idaho em 3 de maio de 2009.


David A. Bednar
Ergo a voz apostólica de advertência para a possível influência repressiva, sufocante, anuladora e restritiva que alguns tipos de interações e experiências realizadas no mundo virtual podem ter sobre nossa alma.

Durante a preparação para esta oportunidade de aprender com vocês, passei a compreender melhor os fortes sentimentos que teve Jacó, o irmão de Néfi. Ele disse: “Hoje, (…) sinto-me curvado sob o peso de um desejo e ansiedade (…) pelo bem-estar de vossa alma” (Jacó 2:3). A mensagem que desejo transmitir a vocês com o tempo destilou-se sobre minha alma como “o orvalho do céu” (D&C 121:45). Peço que prestem bastante atenção a um assunto muito sério que tem implicações tanto imediatas como eternas. Oro para que o Espírito Santo esteja conosco e nos ensine durante o tempo que passarmos juntos.

Há muito me impressiona a definição simples e clara da verdade que se encontra no Livro de Mórmon: “O Espírito fala a verdade e não mente. Portanto fala de coisas como realmente são e de coisas como realmente serão; assim, estas coisas nos são manifestadas claramente para a salvação de nossa alma” (Jacó 4:13; ver também D&C 93:24).

Vamos nos concentrar no primeiro elemento importante da verdade identificado nesse versículo: “as coisas como realmente são”. Primeiramente examinaremos diversos elementos-chave do plano do Pai Celestial, que são o alicerce doutrinário para conhecermos e compreendermos as coisas como realmente são. Em seguida, vamos abordar as estratégias de ataque empregadas pelo adversário para prejudicar ou inibir nossa capacidade de discernir as coisas como realmente são. Por fim, discutiremos as responsabilidades que recaem sobre vocês, que formam a nova geração. Vocês terão de ser obedientes, honrar convênios sagrados e discernir as coisas como realmente são no mundo de hoje, que está tornando-se cada vez mais confuso e iníquo.

Nosso Destino Divino

Em “A Família: Proclamação ao Mundo”, a Primeira Presidência e o Conselho dos Doze Apóstolos declararam que, como filhos e filhas espirituais de Deus, “[aceitamos] Seu plano, segundo o qual Seus filhos poderiam obter um corpo físico e adquirir experiência terrena a fim de progredirem rumo à perfeição, terminando por alcançar [nosso] destino divino como herdeiros da vida eterna”.1 Observem a importância primordial da obtenção de um corpo físico no processo de progredirmos rumo a nosso destino divino.

O Profeta Joseph Smith ensinou claramente a importância de nosso corpo físico:

“Viemos a este mundo com o objetivo de obter um corpo e poder apresentá-lo puro diante de Deus no reino celestial. O grande princípio de felicidade consiste em ter um corpo. O diabo não tem corpo, e esse é seu castigo. Ele fica contente quando pode obter o tabernáculo de um homem e, quando foi expulso pelo Salvador, pediu para entrar numa manada de porcos, mostrando que preferia o corpo de um suíno a não ter corpo algum. Todos os seres com corpo possuem domínio sobre os que não os têm. (…)

O diabo não tem poder sobre nós a menos que o permitamos; no momento em que nos revoltamos contra qualquer coisa que vem de Deus, o diabo assume o poder.”2

Nosso corpo físico permite uma amplitude, profundidade e intensidade de experiências que não nos eram possíveis em nossa existência pré-mortal. O Presidente Boyd K. Packer, presidente do Quórum dos Doze Apóstolos, ensinou: “O espírito e o corpo estão combinados de modo que o corpo seja um instrumento da mente e o alicerce de nosso caráter”.3 Portanto, o relacionamento que temos com as pessoas, nossa capacidade de reconhecer a verdade e de agir de acordo com ela, bem como nossa capacidade de obedecer aos princípios e às ordenanças do evangelho de Jesus Cristo, são ampliados por intermédio de nosso corpo físico. Na escola da mortalidade, sentimos ternura, amor, bondade, felicidade, tristeza, frustração, dor e até os desafios de limitações físicas, de modo a preparar-nos para a eternidade. Em termos simples, há lições que precisamos aprender e experiências que precisamos ter “segundo a carne”, como descrevem as escrituras (1 Néfi 19:6; Alma 7:12–13).

Os apóstolos e profetas sempre nos ensinaram a importância temporal e eterna de nosso corpo. Paulo declarou:

“Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?

Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” (I Coríntios 3:16–17).

Nesta dispensação, o Senhor revelou: “O espírito e o corpo são a alma do homem” (D&C 88:15). Uma verdade atual e eterna é a de que o corpo e o espírito constituem nossa realidade e identidade. Quando corpo e espírito estiverem inseparavelmente unidos, poderemos receber a plenitude da alegria; quando estão separados, é-nos impossível receber essa plenitude (ver D&C 93:33–34).

O plano do Pai tem por objetivo orientar Seus filhos, ajudá-los a alcançar felicidade e levá-los em segurança de volta à presença Dele com um corpo ressurreto e exaltado. Lúcifer trabalha para deixar os filhos de Deus confusos e infelizes e para impedir seu progresso eterno. O principal objetivo do pai das mentiras é tornar-nos “tão miseráveis como ele próprio” (2 Néfi 2:27). E empenha-se para deturpar os elementos do plano do Pai que ele mais odeia.

Satanás não tem um corpo, e seu progresso eterno foi interrompido. Assim como a água que flui no leito de um rio é contida por uma represa, o progresso eterno do adversário cessou por ele não ter um corpo físico. Devido a sua rebelião, Lúcifer negou a si mesmo todas as bênçãos e experiências mortais que são possíveis graças a um tabernáculo de carne e ossos. Ele não pode aprender as lições que só um espírito com corpo é capaz de aprender. Não pode casar-se nem desfrutar as bênçãos da procriação e da vida em família. Não pode vivenciar a realidade da ressurreição literal e universal de toda a humanidade. Um dos mais fortes significados da palavra condenado, conforme figura nas escrituras, evidencia-se por essa incapacidade de continuar a desenvolver-se e de tornar-se semelhante ao Pai Celestial.

Uma vez que o corpo físico é um elemento tão importante no plano de felicidade do Pai e em nosso desenvolvimento espiritual, não admira que Lúcifer procure frustrar nosso progresso tentando-nos a usar o corpo para fins iníquos. Uma das maiores ironias da eternidade é a de que o adversário, que é miserável justamente por não ter um corpo físico, procure seduzir-nos e tentar-nos a partilhar de sua desgraça utilizando nosso corpo de modo impróprio. A própria ferramenta que ele não tem e não pode usar torna-se, assim, o alvo principal de seu empenho em levar-nos à destruição física e espiritual.

Os Ataques do Adversário

O adversário tenta influenciar-nos tanto a fazer mau uso de nosso corpo físico como a subestimar a importância dele. É importante que reconheçamos e combatamos esses dois métodos de ataque.

Quando qualquer filho do Pai Celestial faz mau uso de seu tabernáculo mortal, seja quebrando a lei da castidade, usando drogas ou substâncias que viciam, desfigurando ou deformando a si mesmo ou adorando o falso ídolo da aparência física (a sua própria ou a de outra pessoa), Satanás se deleita. Para nós que conhecemos e compreendemos o plano de salvação, qualquer forma de profanação do corpo constitui rebelião e uma negação de nossa verdadeira identidade como filhos de Deus (ver Mosias 2:36–37; D&C 64:34–35).

Nem sei dizer, irmãos, todas as maneiras pelas quais é possível fazer mau uso do corpo, “porque há vários modos e meios, tantos que não os posso enumerar” (Mosias 4:29). Vocês sabem o que é certo e o que é errado e têm a responsabilidade de aprender por si mesmos “pelo estudo e também pela fé” (D&C 88:118) quais são as coisas que devem e não devem fazer, bem como a razão doutrinária disso. Testifico que, se vocês tiverem o desejo de aprender isso, “[tomando] cuidado com vós mesmos e vossos pensamentos e vossas palavras e vossas obras; e (…) observardes os mandamentos de Deus [e] continuardes tendo fé no que ouvistes concernente à vinda de nosso Senhor, até o fim de vossa vida” (Mosias 4:30), vocês serão espiritualmente iluminados e protegidos. E de acordo com sua fidelidade e diligência, terão a capacidade de discernir as ciladas e repelir os ataques do adversário quando ele os tentar a fazer mau uso do corpo físico.

Satanás também procura incentivar os filhos e filhas de Deus a subestimarem a importância do corpo físico. Esse tipo de ataque é extremamente sutil e diabólico. Quero dar vários exemplos de como o adversário pode pacificar-nos e acalentar-nos com uma sensação de segurança carnal (ver 2 Néfi 28:21) e incentivar-nos a colocar em risco as experiências terrenas de aprendizado com as quais jubilamos (ver Jó 38:7) na existência pré-mortal.

Todos nós podemos, por exemplo, achar alegria numa vasta gama de atividades salutares, divertidas e envolventes. Contudo, subestimamos a importância de nosso corpo e pomos em risco nosso bem-estar físico ao chegarmos a extremos inusitados e perigosos em busca de uma descarga de adrenalina cada vez maior e mais intensa. Podemos justificar-nos dizendo que nada há de errado nessas aventuras e experiências aparentemente inocentes. Contudo, quando colocamos em risco o próprio instrumento que Deus nos deu para ter experiências de aprendizado na mortalidade — simplesmente na busca de sensações fortes ou supostas diversões, por vaidade ou para ganhar aceitação — estamos verdadeiramente menosprezando a importância de nosso corpo físico.

Infelizmente, alguns rapazes e moças da Igreja atualmente ignoram “as coisas como realmente são” e negligenciam relacionamentos eternos em troca de distrações, diversões e subterfúgios digitais sem nenhum valor duradouro. Dói-me o coração quando um jovem casal — selado na Casa do Senhor para o tempo e a eternidade pelo poder do santo sacerdócio — tem dificuldades conjugais por causa do efeito viciante do uso excessivo de videogames ou de redes de relacionamentos sociais da Internet. Um rapaz ou uma moça pode desperdiçar incontáveis horas, adiar ou perder realizações profissionais ou acadêmicas e, por fim, sacrificar ternos relacionamentos humanos por causa de videogames e jogos on-line que embotam a mente e o espírito. O Senhor declarou: “Portanto dou-lhes o seguinte mandamento: Não desperdiçarás teu tempo nem enterrarás teu talento, de modo que não seja conhecido” (D&C 60:13).

Vocês podem estar-se perguntando: “Mas irmão Bednar, você começou seu discurso falando sobre a importância do corpo físico para nosso progresso eterno. Está sugerindo que os videogames e os vários tipos de comunicação computadorizada podem fazer com que menosprezemos a importância do corpo físico?” É exatamente isso que estou declarando. Deixem-me explicar.

Vivemos numa época em que a tecnologia pode ser usada para imitar a realidade, para intensificá-la e para criar uma realidade virtual. Um médico, por exemplo, pode usar um programa de simulação para adquirir valiosa experiência na realização de intervenções cirúrgicas complicadas, sem jamais colocar a vida de um paciente humano em risco. Um piloto, num simulador de voo, pode praticar diversas vezes os procedimentos de aterrissagem de emergência que podem salvar muitas vidas humanas. Arquitetos e engenheiros podem usar tecnologias inovadoras para modelar sofisticados métodos de projeto e construção, que reduzem as perdas humanas e os danos materiais causados por terremotos e outras catástrofes naturais.

Em cada um desses exemplos, o alto nível de fidelidade na simulação ou modelo contribui para a eficácia da experiência. O termo fidelidade denota a semelhança entre a realidade e a representação da realidade. Essas simulações podem ser construtivas se a fidelidade for elevada e os propósitos forem bons, como, por exemplo, as que proporcionam experiências que salvam vidas ou melhoram a qualidade de vida.

Observem a fidelidade da representação da realidade na imagem de computador (página 26) em relação à realidade da sala já pronta na fotografia da próxima página.

No exemplo, emprega-se a alta fidelidade para cumprir um propósito de suma importância: o projeto e a construção de um belo templo sagrado. Contudo, uma simulação ou modelo pode resultar em dano e perigo espirituais se a fidelidade for elevada e os propósitos forem maus, como, por exemplo, quando com a ideia de que “é só um jogo”, somos levados a experimentar atos contrários aos mandamentos de Deus ou induzidos a pensar ou fazer coisas que, de outra forma, não faríamos nem sequer cogitaríamos.

Ergo hoje a voz apostólica de advertência para a possível influência repressiva, sufocante, anuladora e restritiva que alguns tipos de interações e experiências realizadas no mundo virtual podem ter sobre nossa alma. Essa preocupação não é algo novo: aplica-se igualmente a outros meios de comunicação como a televisão, o cinema e a música. No mundo virtual, porém, esses desafios são ainda mais difundidos e intensos. Rogo que tomem cuidado com a influência entorpecente e espiritualmente destrutiva das tecnologias do ciberespaço que são usadas para produzir alta fidelidade e promover propósitos degradantes e malignos.

Caso o adversário não consiga persuadir-nos a fazer mau uso de nosso corpo físico, uma de suas táticas mais eficazes é induzir-nos — nós que somos espíritos com corpo — a desligar-nos gradual e fisicamente das coisas como realmente são. Em essência, ele incentiva-nos a pensar e agir como se estivéssemos em nosso estado pré-mortal, sem corpo. Se permitirmos, ele pode utilizar astuciosamente alguns aspectos da tecnologia moderna para atingir seus objetivos. Peço-lhes que tomem muito cuidado para não ficarem tão imersos e concentrados nos pixels, torpedos, fones de ouvidos, Twitter, redes sociais on-line e usos potencialmente viciantes da mídia e da Internet, a ponto de deixarem de reconhecer a importância de seu corpo físico e de perderem a riqueza da verdadeira comunicação face a face. Tomem cuidado com as representações e informações digitais encontradas nas diversas formas de interação computadorizada que podem exibir toda a gama de capacidades e experiências físicas.

Leiam com cuidado o trecho abaixo, que descreve a intensa relação romântica de uma mulher com um namorado virtual. Observem como por esse meio de comunicação a importância do corpo físico foi menosprezada: “PFSlider [o pseudônimo do homem na Internet] tornou-se o centro de meu cotidiano. Todas as coisas concretas foram relegadas a segundo plano. Meu corpo deixou de existir. Eu não tinha pele, cabelo nem ossos. Todo o meu desejo havia-se convertido numa corrente cerebral que não chegava a lugar algum a não ser meu lobo frontal. Não havia mais atividades ao ar livre, convívio social, sol ou chuva. Havia apenas a tela do computador e o telefone, minha cadeira e talvez um copo d’água”.4

O contraponto é a seguinte admoestação de Paulo, que devemos observar: “Que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santificação e honra” (I Tessalonicenses 4:4).

Pensem novamente no exemplo que mencionei de dois jovens que se casaram recentemente na casa do Senhor. Um cônjuge imaturo ou iludido pode dedicar tempo excessivo a videogames e salas de bate-papo on-line ou permitir que, de alguma outra maneira, o mundo digital tome o lugar das coisas como realmente são. Inicialmente, o investimento de tempo pode parecer relativamente inócuo, com a justificativa de que não passam de alguns minutos necessários para aliviar a correria do cotidiano, mas com isso se perdem oportunidades importantes de desenvolver e aprimorar habilidades interpessoais, de compartilhar alegrias e tristezas e de criar um vínculo rico e duradouro de intimidade emocional. Pouco a pouco, um entretenimento aparentemente inocente torna-se uma forma de escravidão perniciosa.

O calor do doce abraço de um companheiro eterno ou a sinceridade nos olhos de alguém que nos presta seu testemunho — tudo que é sentido como realmente é graças ao corpo físico — são coisas que podem ser sacrificadas em troca de uma fantasia de alta fidelidade sem nenhum valor duradouro. Se não estivermos atentos, podemos “[perder] a sensibilidade” (1 Néfi 17:45), como aconteceu com Lamã e Lemuel no passado.

Deixem-me dar outro exemplo do processo de desligamento gradual e físico das coisas como realmente são. Hoje em dia, uma pessoa pode entrar num mundo virtual, como o Second Life, e assumir uma nova identidade. Um indivíduo pode criar um avatar ou uma pessoa virtual, condizente com sua aparência e comportamento. Ou então, pode criar uma identidade falsa que não corresponda em nada às coisas como realmente são. Por mais que a nova identidade se assemelhe ao indivíduo, esse comportamento é, por excelência, as coisas como realmente não são. Já defini a fidelidade de uma simulação ou modelo. Quero agora enfatizar a importância da fidelidade pessoal, da correspondência entre a pessoa real e a identidade virtual assumida. Observem a falta de fidelidade pessoal no seguinte episódio relatado no Wall Street Journal:

Ric Hoogestraat é “um homem corpulento [de 53 anos] com um longo rabo de cavalo grisalho, costeletas grossas e um grande bigode grisalho. (…) [Ric passa] seis horas todas as noites e, muitas vezes, até catorze horas seguidas nos fins de semana, no papel de Dutch Hoorenbeek, sua identidade virtual, um personagem de dois metros de altura e muito musculoso (…). O personagem parece ser uma versão mais jovem e fisicamente melhorada do [Ric].

(…) [Ele] se senta diante do computador com as cortinas fechadas (…). Enquanto a esposa, Sue, assiste à televisão na sala, o Sr. Hoogestraat conversa on-line com uma mulher que na tela aparenta ser ruiva, alta e magra.

Ele nunca se encontrou com essa mulher fora do mundo computadorizado do Second Life, uma terra de fantasia digital bem documentada (…). Nem sequer conversou com ela ao telefone, mas seu relacionamento assumiu dimensões curiosamente reais. Os dois têm dois cachorros em conjunto, assumiram juntos o financiamento de um imóvel e passam horas [em seu mundo virtual] fazendo compras no shopping e andando de motocicleta. Seu vínculo é tão forte que, há três meses, o Sr. Hoogestraat pediu a Janet Spielman, a canadense de 38 anos por trás da ruiva, que se tornasse sua esposa virtual.

A mulher com quem ele é legalmente casado não viu graça nenhuma nisso. ‘É de partir o coração’, diz Sue Hoogestraat (…) que é casada com o Sr. Hoogestraat há sete meses.”5

Irmãos e irmãs, procurem entender: não estou sugerindo que toda tecnologia seja intrinsecamente ruim, pois não é. Tampouco digo que não devemos usar seus muitos recursos de modo adequado para aprender, comunicar-nos, inspirar e alegrar a vida e, também, para edificar e fortalecer a Igreja, pois é claro que devemos; mas ergo a voz de advertência declarando que não devemos descartar nem prejudicar um relacionamento autêntico pela obsessão por relacionamentos inventados. “Quase 40% dos homens e 53% das mulheres que participam de jogos on-line dizem que seus amigos virtuais são tão bons quanto os amigos da vida real ou mesmo melhores, segundo um estudo realizado com 30.000 usuários (…) por um pesquisador que concluiu recentemente o doutorado na Universidade Stanford. Mais de 25% dos usuários de jogos [que participaram da pesquisa responderam que] o momento mais emocionante da semana anterior havia ocorrido num mundo virtual computadorizado.”6

Quão importante, eterna e sempre atual é a definição que o Senhor deu da verdade: “as coisas como realmente são”. O profeta Alma perguntou: “Oh, então isto não é real?” (Alma 32:35). Estava falando da luz e do bem que eram tão evidentes que chegava a ser possível prová-los. De fato, “Aqueles que habitam [na] presença [do Pai] (…) veem como são vistos e conhecem como são conhecidos, tendo recebido de sua plenitude e de sua graça” (D&C 76:94).

Amados irmãos e irmãs, tomem cuidado! À medida que a fidelidade pessoal diminui nas comunicações virtuais e os propósitos dessas comunicações se tornam distorcidos, pervertidos e iníquos, o potencial para uma tragédia espiritual se eleva perigosamente. Imploro que se afastem imediata e permanentemente desses lugares e dessas atividades (ver ll Timóteo 3:5).

Gostaria agora de abordar outras características dos ataques do adversário. Satanás costuma oferecer às pessoas uma sedutora ilusão de anonimato. Lúcifer sempre procurou realizar seu trabalho em segredo (ver Moisés 5:30). Lembrem-se, porém, que a apostasia não é anônima simplesmente por acontecer num blog ou por meio de uma identidade fictícia numa sala de bate-papo ou num ambiente virtual. Pensamentos, palavras e atos imorais sempre serão imorais, mesmo no mundo virtual. Atos desonestos supostamente acobertados pelo sigilo, como o download ilegal de músicas da Internet ou a reprodução de CDs ou DVDs para distribuição para amigos e familiares, não deixam de ser desonestos. Todos teremos de prestar contas a Deus e, no final, seremos julgados por Ele de acordo com nossos atos e desejos do coração (ver Alma 41:3). “Porque, como imaginou no seu coração, assim é ele” (Provérbios 23:7).

O Senhor sabe quem realmente somos, o que realmente pensamos, o que realmente fazemos e em quem realmente nos estamos tornando. Advertiu que “os rebeldes serão afligidos com muita tristeza, porque suas iniquidades serão proclamadas em cima dos telhados e seus feitos secretos serão revelados” (D&C 1:3).

Ergui a voz de advertência sobre apenas alguns dos perigos espirituais de nosso mundo dominado pela tecnologia e em rápida transformação. Permitam-me repetir: nem a tecnologia nem a rápida transformação são por si sós boas ou más; o verdadeiro desafio é compreender ambos os fenômenos no contexto do plano eterno de felicidade. Lúcifer vai incitá-los a fazer mau uso de seu corpo físico e a subestimar a importância dele. Vai incentivá-los a substituir a infinita variedade das criações de Deus pela repetitiva monotonia virtual e convencê-los de que somos meros mortais que recebem a ação, em vez de almas eternas abençoadas com o arbítrio moral para agir por nós mesmos. Insidiosamente, ele instiga os espíritos com corpo a privarem-se das bênçãos e experiências de aprendizado “segundo a carne” (1 Néfi 19:6; Alma 7:12–13) que são proporcionadas pelo plano de felicidade do Pai e a Expiação de Seu Filho Unigênito.

Para sua felicidade e proteção, convido-os a estudarem mais diligentemente a doutrina do plano de salvação e a ponderarem em espírito de oração as verdades que examinamos. Sugiro duas perguntas a serem examinadas em sua reflexão pessoal e em seu estudo fervoroso.

1. O uso das diversas tecnologias e meios de comunicação convida ou impede que vocês tenham a companhia constante do Espírito Santo em sua vida?

2. O tempo que vocês passam usando as diversas tecnologias e meios de comunicação amplia ou restringe sua capacidade de viver, amar e servir de modo significativo?

Vocês receberão respostas, inspiração e entendimento do Espírito Santo adaptados a sua situação e as suas necessidades individuais. Repito e confirmo o ensinamento do Profeta Joseph: “Todos os seres com corpo possuem domínio sobre os que não os têm. O diabo não tem poder sobre nós a menos que o permitamos”.

Essas verdades eternas sobre a importância de nosso corpo físico vão fortalecê-los contra os ardis e ataques do adversário. Um de meus desejos mais profundos é que vocês tenham um testemunho sempre crescente da Ressurreição e que por ela sejam sempre gratos, inclusive no tocante a sua própria ressurreição com um corpo celestial e exaltado, “por causa da vossa fé [no Senhor Jesus Cristo], de acordo com a promessa” (Morôni 7:41).

A Nova Geração

Quero falar-lhes especificamente sobre quem vocês realmente são. Vocês são de fato a nova geração de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Em outubro de 1997, o Élder Neal A. Maxwell (1926–2004), do Quórum dos Doze Apóstolos, visitou o campus da Universidade Brigham Young–Idaho para discursar num devocional. Durante o dia em que ele passou no campus, conversamos sobre vários assuntos do evangelho em geral e sobre os jovens da Igreja em particular. Lembro-me de ouvir o Élder Maxwell fazer uma afirmação que muito me impressionou. Ele disse: “Os jovens desta geração têm maior capacidade de ser obedientes do que os de qualquer geração anterior”.

Em seguida, indicou que essa declaração se baseava nesta verdade ensinada pelo Presidente George Q. Cannon (1827–1901), primeiro conselheiro na Primeira Presidência: “Deus reservou para esta dispensação espíritos que têm coragem e determinação para enfrentar o mundo e todos os poderes visíveis e invisíveis do maligno a fim de proclamar o evangelho, defender a verdade e estabelecer e edificar a Sião de nosso Deus, sem medo das consequências. Ele enviou esses espíritos nesta geração para assentar os alicerces de Sião, de modo que nunca mais seja derrubada, e erguer uma semente que será justa, honrará solenemente a Deus e será obediente a Ele em todas as circunstâncias”.7

Com frequência, os pais e os líderes da Igreja ressaltam que os rapazes e as moças desta geração foram reservados para esta época da história do mundo e que estão entre os filhos mais valorosos do Pai Celestial. Essas afirmações são mesmo verdadeiras. Mas muitas vezes me pergunto se os jovens ouvem essa descrição com tanta frequência que ela lhes soa desgastada e banal — sem se darem conta de sua importância e suas profundas implicações. Sabemos que “a quem muito é dado, muito é exigido” (D&C 82:3). E os ensinamentos do Presidente Cannon e do Élder Maxwell nos ajudam a compreender melhor o que nos é pedido hoje. Devemos ser valorosos e “obedientes a Ele em todas as circunstâncias”. Assim, a obediência é a principal arma da qual a nova geração deve valer-se na batalha do bem contra o mal nos últimos dias.

Alegramo-nos com o fato de o Senhor ter elevado o padrão para os rapazes e as moças de hoje, por intermédio de Seus servos autorizados. Uma vez que sabemos quem somos e por que estamos aqui na Terra, essa orientação inspirada é muito bem-vinda e valorizada. Devemos reconhecer que Lúcifer se esforça incessantemente para “rebaixar o padrão”, incentivando-nos a fazer mau uso do corpo físico e a subestimar sua importância.

O Salvador alertou-nos diversas vezes a ficar atentos às artimanhas do adversário.

“E Jesus respondeu e disse-lhes: Acautelai-vos, que ninguém vos engane; (…)

Porque nesses dias surgirão também falsos Cristos e falsos profetas; e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível, enganarão até os eleitos, que são os eleitos de acordo com o convênio. (…)

E o que entesourar minha palavra não será enganado” (Joseph Smith — Mateus 1:5, 22, 37).

A obediência abre as portas da companhia constante do Espírito Santo, e os dons e as habilidades espirituais ativados pelo poder do Espírito Santo nos impedem de ser enganados — e permitem que vejamos, sintamos, saibamos, compreendamos e lembremos as coisas como realmente são. Fomos investidos com uma capacidade maior de obediência justamente por esse motivo. Morôni declarou:

“Dai ouvidos às palavras do Senhor e pedi ao Pai, em nome de Jesus, tudo aquilo de que necessitardes. Não duvideis, mas acreditai; e começai, como antigamente, e vinde ao Senhor com todo o vosso coração e operai a vossa própria salvação com temor e tremor perante ele.

Sede sábios nos dias de vossa provação; despojai-vos de todas as impurezas; não peçais para satisfazer vossas concupiscências, mas pedi com inquebrantável firmeza que não caiais em tentação, mas que possais servir ao verdadeiro Deus vivo” (Mórmon 9:27–28).

Se dermos ouvidos a esse conselho inspirado, podemos e vamos ser abençoados com a capacidade de reconhecer e rechaçar os ataques do adversário, tanto hoje como no futuro. Podemos e vamos cumprir nossas responsabilidades preordenadas e contribuir para a obra do Senhor no mundo inteiro.

Testifico que Deus vive e é nosso Pai Celestial. Ele é o autor do plano de salvação. Jesus é o Cristo, o Redentor, cujo corpo foi ferido, martirizado e dilacerado por nós, ao oferecer o Sacrifício Expiatório. Ele ressuscitou, vive e está à frente de Sua Igreja nestes últimos dias. Estar “eternamente envolvido pelos braços de seu amor” (2 Néfi 1:15) será uma experiência real e não virtual.

Testifico que podemos e vamos ser abençoados com a coragem e a determinação para enfrentar o mundo e os poderes do maligno. A retidão há de prevalecer. Nenhuma mão ímpia poderá deter o progresso desta obra. Presto testemunho dessas coisas como realmente são e serão no sagrado nome do Senhor Jesus Cristo. Amém.

President Boyd K. Packer

“O espírito e o corpo estão combinados de modo que o corpo seja um instrumento da mente e o alicerce de nosso caráter.”

Presidente Boyd K. Packer, Presidente do Quórum dos Doze Apóstolos.

Exibir Referências

    Notas

  1.   1.

    “A Família: Proclamação ao Mundo”, A Liahona, outubro de 2004, p. 49.

  2.   2.

    Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Joseph Smith (2007), pp. 220–223.

  3.   3.

    Boyd K. Packer, “The Instrument of Your Mind and the Foundation of Your Character”, Brigham Young University 2002–2003 Speeches, 2003, p. 2.

  4.   4.

    Meghan Daum, “Virtual Love”, The New Yorker, 25 de agosto e 1º de setembro de 1997, p. 82; ou Meghan Daum, My Misspent Youth, 2001, p. 19.

  5.   5.

    Alexandra Alter, “Is This Man Cheating on His Wife?” Wall Street Journal, 10 de agosto de 2007, pp. W8, W1.

  6.   6.

    Alexandra Alter, Wall Street Journal, 10 de agosto de 2007, p. W8.

  7.   7.

    George Q. Cannon, “Remarks”, Deseret News, 31 de maio de 1866, p. 203; ver também Journal of Discourses, 11:230.