Navegar no Rumo Certo nas Ilhas Marshall


Ao singrarmos os mares encapelados da vida, cada um de nós se beneficia com a orientação de membros fiéis que nos ajudam a regressar ao lar celestial.

No passado, os navegantes viajavam pelos oceanos guiados pela posição do sol, da lua e das estrelas. À noite, voltavam o olhar para a Estrela Polar, já que sua posição fixa representava uma âncora celestial para os marinheiros, ajudando-os a seguirem um curso seguro até o destino.

Nas Ilhas Marshall do Oceano Pacífico, os navegadores descobriram outra técnica. Lá, há padrões de ondas oceânicas que fluem entre os atóis e as ilhas num movimento regular. Um marinheiro experiente pode viajar centenas de quilômetros seguindo uma complexa rede de ondas — cada qual como uma rua de mão única — de uma ilha ou atol até o seguinte. Quem sabe onde estão as ondas e para onde vão pode conduzir outros viajantes em segurança a seu destino.

Para os membros da Igreja, Jesus Cristo é nosso exemplo perfeito, cuja luz verdadeira nos guia. Suas leis e ordenanças, como as ondas do oceano, podem nos guiar em segurança até nosso lar celestial. Contudo, para cada um de nós há outras pessoas cujo serviço e apoio contribuem para o papel do Navegador Mestre. Nas histórias a seguir, três membros marshallinos contam como outras pessoas os ajudaram a navegar em meio aos arrecifes e tormentas da vida e as conduziram a Cristo.

A Influência de uma Mulher Justa

Hirobo Obeketang refestela-se no sofá e sorri. Ele e a mulher, Linda, acabam de realizar a reunião familiar com quatro de seus filhos e as missionárias. Também ofereceram a elas um jantar com pratos à base de peixe, incluindo os olhos e a cauda — uma tradição em Majuro, a capital das Ilhas Marshall. Ao falar de sua vida, Hirobo conta como é grato pela Igreja, pelo evangelho e por sua família, principalmente pela mulher.

Estamos no mês de junho de 2009. Um dia antes foi criada a Estaca Majuro Ilhas Marshall, e Hirobo foi chamado para servir como primeiro secretário executivo da estaca. Hirobo, conforme descrito por Arlington Tibon, o novo presidente da estaca, é “muito firme mesmo”, um dos líderes fiéis da ilha.

Mas Hirobo é o primeiro a ressaltar que até recentemente não era bem assim. Ele afirma que, na verdade, firme é sua mulher — foi ela que fez a diferença em sua vida. Ele explica: “Fui batizado aos oito anos de idade, mas aos dezesseis anos fiquei menos ativo”.

Alguns anos depois, ele e Linda foram morar juntos, embora não fossem casados. Linda não era membro da Igreja. No ano 2000, pouco depois de descobrir que Hirobo fora batizado quando criança, ela se interessou pela Igreja e começou a receber visitas das missionárias.

“Ela estudou durante dois anos e decidiu batizar-se”, recorda Hirobo. “Para isso, precisaríamos nos casar antes, mas eu não tinha interesse no casamento. Eu estava confuso e muito envolvido pelas tentações do mundo. Não compreendia a importância da família e não me importava com ninguém nem dava ouvidos a ninguém”.

Linda, mesmo sem ser batizada, criou os filhos na Igreja. Todos os anos ela pedia Hirobo em casamento para poder ser batizada e a cada vez a resposta era negativa. Ao longo dos anos, duas de suas filhas se batizaram, mas Hirobo não compareceu ao batismo delas.

Então, em 2006, o filho de nove anos do casal, Takao, faleceu depois de ter convulsões e febre alta. Cerca de 300 membros do distrito de Majuro foram ao funeral para oferecer apoio à família.

“O apoio deles foi algo grandioso para mim”, conta Hirobo. “Comecei a achar que Deus talvez estivesse me dizendo algo.”

Ele começou a perceber que era o empecilho para o batismo da esposa, embora ele fosse membro da Igreja. “Ela estava cada vez mais firme. Era uma grande fonte de inspiração para mim”, lembra ele.

“Então parei para pensar e vi que estava no meio da vida. Perguntei a mim mesmo: ‘Vou continuar a fazer o que estou fazendo? Será que tenho chances de trabalhar para Deus na segunda metade de minha vida?’ Comecei a orar e pensar em voltar para a Igreja para começar a trabalhar para Deus.”

Hirobo começou a estudar com os missionários e a reaprender a doutrina. O Presidente Nelson Bleak, da Missão Ilhas Marshall Majuro, fez amizade com ele, assim como outros membros, inclusive o presidente de distrito, Arlington Tibon. Por fim, Hirobo comprometeu-se a voltar e quando deu por si já estava assistindo não só à reunião sacramental, mas também à Escola Dominical e à reunião do sacerdócio. Finalmente Hirobo se decidiu.

“Quando voltei, disse: ‘É isto mesmo. É isso que vou fazer’. Essa resolução mudou totalmente minha vida.”

Hirobo e Linda casaram-se em 30 de agosto de 2008. Pouco tempo depois ele recebeu o Sacerdócio Aarônico e batizou a mulher. Dois meses depois, Hirobo recebeu o Sacerdócio de Melquisedeque e foi chamado como secretário executivo do distrito.

Hirobo olha a mulher e sorri. “Ela mal podia acreditar que era eu que a batizaria”, recorda ele. “Imagine só — ela esperou oito anos, de 2000 a 2008. Ela é sensacional.”

O Exemplo de um Pai Digno

Por vezes nosso guia, como um marinheiro, trabalha bem junto de nós, ensinando-nos o que precisamos saber para navegarmos com êxito pela vida. Em muitos casos o marinheiro faz isso mostrando o exemplo a ser seguido. Foi assim com Frank, pai de Patricia Horiuchi.

Depois de conhecer os missionários, Frank começou a convidá-los regularmente para jantar em sua casa. Em pouco tempo começou a ouvir as lições. Mas ninguém mais da família se interessou pela Igreja. “Quando víamos que os missionários estavam chegando”, lembra Patricia, “corríamos todos para bem longe — eu e meus irmãos mais novos.”

Então Frank foi batizado em julho de 2007 pelo presidente da missão, Nelson Bleak. Foi um momento determinante para Patricia e seus irmãos.

“Vi meu pai começar a mudar”, conta ela. “Eu sabia que se o evangelho podia tocar o coração de meu pai, poderia também tocar o meu e mudar minha vida. Assim, decidi estudar com as missionárias, e elas me desafiaram a estudar o Livro de Mórmon e a Bíblia. Antes disso, eu tinha brigado com meu irmão e nunca lhe perdoara. Foi então que li nas escrituras que, se perdoarmos aos outros, Deus nos perdoará” (ver 3 Néfi 13:14–15).

Patricia percebeu que precisava perdoar ao irmão a fim de começar a mudar de vida, a purificar-se e a ter paz. E assim o fez.

“Depois de me livrar de minhas atitudes negativas e de me tornar uma nova pessoa que guardava os mandamentos, fiquei muito animada. Eu sabia que tinha de me batizar para pertencer à Igreja verdadeira”, conta ela. “A Igreja pôs-me no caminho certo. Afastou-me de más influências. Ensinou-me a respeitar meus pais, a continuar estudando e a permanecer no caminho certo.”

A Influência de um Homem Justo

Lydia Kaminaga, assim como Hirobo Obeketang, nasceu na Igreja, mas ficou menos ativa na adolescência. No entanto, a história de seu retorno é tão notável quanto única.

Lydia e seu marido, Kaminaga Kaminaga, foram criados na Igreja. “Nunca tive dúvidas sobre os ensinamentos da Igreja”, afirma Kaminaga. “Sempre acreditei neles.”

Mas a vida tomou rumos diferentes para Lydia. Quando estava no sétimo ano, conta ela, “eu era a única mórmon da escola e sentia-me excluída. Passei a fazer o que meus amigos faziam. Escolhi prioridades erradas”.

Os pais de Lydia mandaram-na para Provo, Utah, EUA, para morar com parentes, na esperança de que a influência deles inspirasse Lydia a viver o evangelho. Embora ela tenha aprendido coisas que lhe viriam a ser úteis na vida futuramente, na época ela não estava interessada em participar da Igreja.

Lydia retornou definitivamente para as Ilhas Marshall em janeiro de 2002, apenas um mês depois de Kaminaga voltar da missão no Japão. Conheceram-se pouco tempo depois. Embora Lydia não estivesse vivendo os padrões da Igreja, Kaminaga continuou a frequentar a casa dela fazendo crer que queria visitar o sobrinho dela, Gary Zackious.

Depois de algum tempo, Kaminaga decidiu falar com os pais dela para pedir-lhes permissão para sair com Lydia — em atividades salutares e respeitosas. Embora inicialmente eles tenham procurado dissuadi-lo, Kaminaga conta que “por fim disse a eles: ‘Ainda há chances de ela mudar’. Quando afirmei isso, o ambiente na sala mudou por completo. O pai dela chorou e disse: ‘Sempre quis que ela voltasse para a Igreja. Você pode tentar’”.

A princípio Lydia não levou Kaminaga a sério. Afinal, ele era um ex-missionário fiel, e fazia tempo que ela não estava ativa.

“Mas ele viu algo que eu não via”, explica Lydia. Como ela não estava namorando ninguém, concordou em sair com ele. “Ele me trouxe de volta. Por ser sua namorada, tive que corrigir meus padrões. Ele ajudou-me a recordar meus convênios batismais. Com ele, lembrei-me de todas as coisas que me faziam muita falta, como ler as escrituras e participar da reunião familiar. Eu e Kaminaga fazíamos projetos de serviço juntos. Líamos o Livro de Mórmon. Íamos a serões. Ele me mostrou uma maneira diferente de viver. Ir à Igreja não se resumia a frequentar a reunião sacramental, mas incluía também assistir às aulas da Escola Dominical e da Sociedade de Socorro.”

Ao conviver com Kaminaga e participar com ele de atividades saudáveis e edificantes, a vida de Lydia começou a mudar e seu testemunho cresceu. Contudo, ela ainda tinha alguns ajustes a fazer.

“Foi difícil voltar”, admite ela. “O arrependimento não é fácil, mas tenho um testemunho muito forte desse princípio. Em vários aspectos, nosso namoro serviu para nos conhecermos melhor e me levar de volta para a Igreja, a fim de ver as coisas por um prisma diferente.”

“Fez brotar nosso relacionamento”, acrescenta Kaminaga.

Lydia e Kaminaga casaram-se em 28 de novembro de 2002. Um ano depois, foram selados no Templo de Laie Havaí e frequentaram a Universidade Brigham Young–Havaí. Atualmente vivem nas Ilhas Marshall com os três filhos. Lydia serve na ala como professora dos jovens na Escola Dominical e Kaminaga serve como presidente dos Rapazes.

Conforme testificam Hirobo, Patricia e Lydia, quando exercemos paciência e persistência e buscamos as bênçãos do Senhor, muitas coisas são possíveis. Quem segue o Salvador e dá ouvidos aos sussurros do Espírito Santo pode, assim como o velho marinheiro que guiava os viajantes de volta para casa, fazer toda a diferença na vida do próximo.

Desafios Universais

Embora a geografia, a cultura e a distância os separem dos demais santos dos últimos dias, os membros da Igreja das Ilhas Marshall explicam que enfrentam muitos dos desafios comuns a todos os membros.

Gary Zackious (à direita), líder dos jovens adultos solteiros da estaca, diz que “as pessoas vêm até nós e dizem: ‘Não precisamos de um profeta hoje nem de mais escrituras’. Alguns membros simplesmente não leem as escrituras nem as compreendem, então quando alguém lhes diz algo que enfraquece sua crença, eles se afastam do que sabem ser verdade”.

Para Gary, a solução é simples: “Fui desafiado pelos missionários a orar sobre o Livro de Mórmon, a Restauração e Joseph Smith para saber se essas coisas eram verdadeiras. Certa noite, estava orando de joelhos. Senti o Espírito. Era um sentimento que eu nunca vivenciara antes. Soube que as coisas que eu aprendera com os missionários eram verdadeiras. A leitura do Livro de Mórmon fortaleceu meu testemunho quando eu era recém-converso”. Desde o batismo, passando pela missão e até hoje, Gary diz: “Meu testemunho cresce à medida que leio o Livro de Mórmon e estudo as escrituras e as palavras dos profetas”.

Ernest Mea (à direita), que trabalha com Gary como tradutor da Igreja nas Ilhas Marshall, diz que muitos jovens se deixam enredar pela imoralidade. Ele mantém-se no caminho estreito e apertado participando de atividades salutares com amigos que têm padrões semelhantes. “Antes de minha missão, jogávamos basquete na capela todos os dias exceto domingo e segunda-feira”, lembra ele.

Michael Ione (à direita), da Ala Jenrok, precisou pagar um preço elevado para filiar-se à Igreja em 2006: foi expulso de casa. Numa mostra de fé e convicção, foi batizado mesmo assim.

Depois de apenas um ano, foi chamado para a missão — para servir nas Ilhas Marshall. Recentemente, a família de Michael começou a demonstrar interesse pela Igreja e a receber a visita dos missionários.

A Primeira Estaca das Ilhas Marshall

Por muitos anos os membros da Igreja nas Ilhas Marshall desejaram ter uma estaca em seu meio. Em 14 de junho de 2009, seus desejos foram realizados. O Élder David S. Baxter, dos Setenta, que organizou a estaca, explica: “É extraordinário como o número de membros da Igreja cresceu nos últimos dois anos. O desenvolvimento da Igreja tornou inevitável a criação da estaca lá. Mas a espera foi longa. Os membros tiveram de superar uma série de dificuldades”.

Arlington Tibon (acima), presidente de estaca nas Ilhas Marshall, ao servir como presidente de distrito ensinava aos membros que, se quisessem uma estaca, teriam de trabalhar para isso. Orientava os líderes do distrito a ensinarem os membros usando Malaquias 3 e 3 Néfi 24 para abordar as bênçãos do pagamento do dízimo. Os líderes também incentivavam os jovens e os adultos a estudarem o Livro de Mórmon. Chegaram a realizar um evento de sucesso em que os jovens leram o Livro de Mórmon durante doze horas seguidas.

O Presidente Tibon também fez a meta de ajudar os membros a compreenderem “a importância do selamento no templo” explicando que receber “a investidura os ajuda a sobrepujar muitas coisas, torna-os diferentes e muda a vida deles”.

Sob a liderança do Presidente Tibon, os membros das Ilhas Marshall visitaram dois templos: em Tonga e no Havaí. Cada caravana foi precedida de grandes sacrifícios. Contudo, como diz Angela Tibon, esposa do Presidente Tibon, essas caravanas “exerceram um impacto profundo sobre o grau de comprometimento dos membros para com o Pai Celestial e a Igreja”.

“É verdade”, confirma o Presidente Tibon, “presenciamos um aumento significativo da espiritualidade aqui em Majuro”.

No alto, à esquerda: Hirobo Obeketang (que aparece com a família nas páginas anteriores) trabalha como gerente de hotel. Abaixo: Patricia Horiuchi foi uma das líderes da primeira conferência de jovens adultos solteiros das Ilhas Marshall em junho de 2009 (embaixo, à direita).

“Tenho um forte testemunho do arrependimento”, diz Lydia Kaminaga, que aparece com o marido, Kaminaga, e a filha, Wellisa.

Fotografias de Joshua J. Perkey, exceto quando indicado em contrário; fotografia de barco © Getty Images