Chapter 12: Spencer W. Kimball: Décimo Segundo Presidente da Igreja

Presidentes da Igreja Manual do Aluno, (2004), 196–215


Spencer W. Kimball

EVENTOS MARCANTES DA VIDA DE SPENCER W. KIMBALL

Idade

Acontecimentos

 

Nasce em 28 de março de 1895 em Salt Lake City, Utah, filho de Andrew e Olive Woolley Kimball.

9

Um patriarca declara que ele trabalharia entre os lamanitas

11

Morre sua mãe (1906).

19

Forma-se com honras na Academia Gila (1914).

19–21

Serve como missionário no centro dos Estados Unidos (1914–1916).

22

Casa-se com Camilla Eyring (16 de novembro de 1917).

43–48

Serve como presidente da Estaca Mount Graham (1938–1943).

48

É ordenado apóstolo pelo Presidente Heber J. Grant (7 de outubro de 1943).

51

Serve como responsável do Church Indian Committee (Comitê Indígena da Igreja) (1946).

62

Sofre de câncer na garganta; é removida uma e meia corda vocal (1957).

69–72

Supervisiona a obra missionária na América do Sul (1964—1967).

74

É publicado seu livro O Milagre do Perdão (1969); torna-se o presidente interino do Quórum dos Doze Apóstolos (23 de janeiro de 1970).

77

É designado Presidente do Quórum dos Doze Apóstolos (7 de julho de 1972).

78

Torna-se o Presidente da Igreja (30 de dezembro de 1973).

79

Dirige-se aos representantes regionais dos Doze, iniciando a expansão da obra missionária (4 de abril de 1974); dedica o Templo de Washington D.C. (19 de novembro de 1974).

80

Dedica o Edifício de Escritórios da Igreja (24 de julho de 1975); quinze estacas são criadas a partir de cinco na Cidade do México, México. (9 de novembro de 1975); anúncio da construção de templos no Brasil, Japão, México e no Estado de Washington (1975).

81

São adicionadas duas revelações à Pérola de Grande Valor (atualmente, as seções 137 e 138 de Doutrina e Convênios; 3 de abril de 1976); os assistentes do Quórum dos Doze Apóstolos tornam-se membros do Primeiro Quórum dos Setenta (1976).

83

A Primeira Presidência anuncia a revelação de que todos os homens fiéis da Igreja podem receber o santo sacerdócio (8 de junho de 1978).

84, 86

São impressas novas edições das escrituras, com referências remissivas (1979, 1981)

84

Dedica o Jardim Memorial Orson Hyde em Jerusalém (24 de outubro de 1979).

89

São chamadas as primeiras presidências de área (1984).

90

Sai uma nova edição do hinário, com mais hinos da Restauração; morre em Salt Lake City, Utah (5 de novembro de 1985).

Spencer W. Kimball

Spencer (à direita), com um ano de idade, e sua irmã Ruth

Spencer Woolley Kimball nasceu em 28 de março de 1895 em Salt Lake City, Utah, filho de Andrew e Olive Wooley Kimball. No mês de janeiro seguinte, Utah tornou-se um estado. O Manifesto tinha cinco anos de vida, a economia estava em franca ascensão, e os santos estavam iniciando uma era de relativa calma.

ELE FOI CRIADO EM THATCHER, ARIZONA

Quando Spencer W. Kimball estava com três anos de idade, sua família mudou-se para Thatcher, Arizona. Lá, ele tinha vacas para ordenhar, hortas para capinar e casas para pintar. Ele era muito exigente consigo mesmo. Na escola, na Igreja e nos jogos, buscava sem- pre a excelência. Abstinha-se totalmente de qualquer coisa que poluísse o corpo. Era presidente de seu quórum de diáconos e continuou em posições de liderança, servindo em cada posição com firmeza e dedicação.

A HERANÇA DE SPENCER W. KIMBALL

“Como Néfi na antigüidade, [Spencer W. Kimball] pode agradecer ao Senhor por ter nascido de bons pais. Tanto seu avô paterno como seu avô materno foram colonizadores de destaque e homens de grande nobreza. Heber C. Kimball era um apóstolo do Senhor, amigo e discípulo do Profeta Joseph, conselheiro do Presidente Young e um missionário extraordinário para a Igreja; Edwin D. Woolley foi um líder de forte personalidade em Salt Lake, um administrador de negócios para o Presidente Young e um grande bispo da Ala XIII durante quarenta anos. Seu próprio pai, Andrew Kimball, era também um homem notável. Sempre cheio de energia e devoção, como defensor do evangelho restaurado, presidiu a missão no Território Indígena durante dez anos e, nesse meio tempo, voltou algumas vezes a Salt Lake a fim de ganhar o sustento para a família. Durante vinte e seis anos e meio, de 1898 ao dia de sua morte, foi o presidente da Estaca St. Joseph de Sião, a estaca que, após a sugestão do Presidente John Taylor, recebera essa nome em homenagem ao Profeta Joseph. Sua capacidade para construir e organizar muito contribuiu para o desenvolvimento de um grande império agrícola no leste do Arizona. E nos anos de sua administração, a estaca que inicialmente contava com apenas algumas poucas alas perto do rio Gila passou a ter 17 alas e ramos, de Miami, Arizona, a El Paso, Texas” (Jesse A. Udall, “Spencer W. Kimball, the Apostle from Arizona”, Improvement Era, outubro de 1943, p. 590).

AS EXPERIÊNCIAS QUE ELE VIVEU NO INÍCIO DA VIDA O PREPARARAM PARA O SERVIÇO FUTURO

Spencer W. Kimball

Andrew e Olive Kimball com seus filhos em 1897. Spencer está sentado no colo do pai.

Spencer W. Kimball escapou por pouco da morte em várias ocasiões: quase morreu afogado, sofreu vários acidentes, teve doenças gravíssimas e submeteuse a diversas cirurgias. Sua filha Olive Beth Kimball Mack disse:

“Meu pai enfrentou muitas tristezas e enfermida- des e teve que superar muitas dificuldades. Tudo isso serviu apenas para torná-lo uma pessoa mais forte e fazer com que sentisse maior empatia pelo próximo. (...) Ele perdeu a mãe aos onze anos de idade e, pouco depois, uma irmã mais nova. Ele escreveu o seguinte sobre essa época:

‘Veio-me à memória, como um turbilhão uma velha cena de angústia, terror, medo e desespero. Oito dos onze filhos de minha mãe estavam no quarto de nossos pais. Nossa mãe estava morta, nosso pai estava longe, nosso irmão mais velho Gordon estava sentado numa cadeira segurando nossa irmãzinha mais nova que agonizava. Nós, crianças, estávamos todas em volta da cadeira, amedrontadas, orando e chorando. O médico estava a quilômetros de distância. Seu cavalo e carruagem não poderiam tê-lo trazido mais cedo. Mas o que ele poderia ter feito se houvesse chegado? Parecia uma combinação de difteria e bronquite membranosa, e a pequena Rachel estava morrendo asfixiada. Aterrorizados, vimos seu corpinho lutar corajosamente em busca de ar e vida, para em seguida relaxar completamente. A dura batalha chegara ao fim. Ela perdera’” (How a Daughter Sees Her Father, the Prophet [discurso devocional no instituto de religião de Salt Lake, 9 de abril de 1976], pp. 3–4).

Ao redigir sobre a vida desse homem extraordiná- rio, o Élder Boyd K. Packer usou para descrevê-lo palavras do próprio Spencer W. Kimball:

“O Presidente Kimball disse certa vez: ‘Que mãe, ao olhar com ternura para seu bebê rechonchudo, não o visualiza como o presidente da Igreja ou o governante de seu país! Ao aconchegá-lo nos braços, ela o vê como estadista, líder, profeta. Alguns sonhos de fato se realizam! Uma mãe deu-nos Shakespeare, outra Michelângelo, outra Abraham Lincoln e ainda outra Joseph Smith.

Quando os teólogos estão vacilando e tropeçando, quando os lábios estão fingindo e os corações, vagando sem rumo e o povo está correndo “por toda parte, buscando a palavra do Senhor”, mas sem a achar — quando nuvens de erro precisam ser dissipadas e as trevas espirituais necessitam ser penetradas e os céus, abertos, nasce um bebê’ (Discurso de conferência, 4 de abril de 1960).

E assim veio Spencer Woolley Kimball. O Senhor cuidara desse início humilde. Ele não estava apenas preparando um homem de negócios nem um líder civil, tampouco um orador, poeta, músico ou professor — embora ele viesse a ser tudo isso. Estava preparando um pai, um patriarca para sua família, um apóstolo e profeta e um presidente para Sua Igreja” (“President Spencer W. Kimball: No Ordinary Man”, A Liahona, julho de 1974, p.4).

ELE TEVE PERFEITA ASSIDUIDADE NA ESCOLA DOMINICAL E PRIMÁRIA

“Desde a infância, ele era muito consciencioso em seu trabalho — nunca se contentava com nada além do melhor. Durante anos, teve um registro de perfeita assiduidade na Escola Dominical e na Primária. Certa segunda-feira, estava no campo pisando em feno para seus irmãos mais velhos quando tocou o sino da capela chamando para a Primária.

‘Preciso ir à Primária’, disse ele timidamente.

‘Não pode ir hoje; precisamos de você’, replicaram eles.

‘Bem, nosso pai me deixaria ir, se estivesse aqui’, argumentou o menino.

Mas ele não está’, disseram, ‘e você não vai’.

Os montes de feno continuaram a vir em grande quantidade, literalmente cobrindo Spencer, mas ele conseguiu adiantar bem o serviço. Pouco depois, saiu de mansinho do fundo do carroção e já estava a meio caminho da capela quando alguém se deu conta de sua ausência. Assim, seu registro perfeito de presença não foi comprometido. (...)

(...) Como Daniel do Velho Testamento, Spencer nunca praticou atos impuros. Se alguém lhe perguntasse diretamente se ele sempre observara a Palavra de Sabedoria, ele diria com modéstia que jamais tomara chá, café, bebida alcoólica nem usara tabaco” (Udall, Improvement Era, outubro de 1943, p. 591).

SEU PAI TEVE VISLUMBRES DA GRANDEZA FUTURA DO JOVEM SPENCER

“Aos dez anos de idade, Spencer Woolley Kimball gostava de ajudar o pai nas tarefas da fazenda. Certo dia, sentado num banco, o menino cantava com alegria ao ordenhar uma vaca. Ele estava absorto em seus próprios pensamentos no momento em que seu pai, de pé à porta do celeiro, estava conversando com um vizinho que acabara de entregar um carregamento de abóboras para os porcos.

‘Aquele menino, o Spencer, é excepcional’, disse o Presidente Kimball. [O pai de Spencer, presidente de estaca.] ‘Ele sempre se empenha para seguir minhas ordens, sejam elas quais forem. Dediquei-o para ser um dos porta-vozes do Senhor — se for essa a vontade Dele. Um dia você o verá como grande líder. Dediquei-o ao serviço de Deus, e ele se tornará um homem de poder na Igreja.’

Mesmo ao ordenhar as vacas, Spencer fazia jus à fé e confiança do pai, aproveitando o tempo para ler algo com um propósito. Numa folha de papel no chão ao lado do balde de leite, anotara a letra do hino que estava cantando. Dessa forma, praticava todos os dias, com o intuito de decorar a letra dos hinos da Igreja. Ele costumava fazer o mesmo com versículos das escrituras, memorizando-os para usálos no futuro” (“Early Prophecies Made about Mission of Elder Kimball”, Church News, 18 de novembro de 1961, p. 16).

QUANDO JOVEM, ELE TRAÇOU A META DE LER A BÍBLIA

Num discurso de conferência geral em 1974, o Presidente Spencer W. Kimball falou da satisfação que sentiu ao atingir uma meta que estabelecera quando jovem:

“Permitam-me relatar-lhes uma das metas que tracei ainda jovem. Quando ouvi um líder da Igreja de Salt Lake City dizer-nos na conferência que deveríamos ler as escrituras e percebi que eu nunca lera a Bíblia, naquela mesma noite depois do sermão, voltei para casa a um quarteirão de distância e subi até meu quarto no sótão da casa e acendi uma pequena lamparina a querosene que ficava numa mesinha e li os primeiros capítulos de Gênesis. Um ano depois, fechei a Bíblia, depois de ler cada capítulo desse grande e glorioso livro.

Descobri que a Bíblia que eu estava lendo tinha 66 livros e quase desisti ao verificar que havia 1.189 capítulos e 1.519 páginas. Era assustador, mas eu sabia que se outras pessoas conseguiam ler tudo aquilo, eu também o faria.

Percebi que certos trechos eram de difícil compreensão para um menino de 14 anos. Havia algumas páginas que eu não achava muito interessantes, mas quando li os 66 livros e 1.189 capítulos e 1.519 páginas, tive a satisfação triunfante de fixar uma meta e atingi-la.

Não conto essa história para vangloriar-me; uso-a simplesmente como exemplo para mostrar que se eu consegui ler toda a Bíblia à luz de um lampião, vocês podem fazê-lo com a luz elétrica. Sempre me senti grato por ter lido a Bíblia de capa a capa” (Conference Report, abril de 1974, pp. 126–127; ou A Liahona, setembro de 1974, pp. 36—37).

ELE ERA ESTUDIOSO E ATLÉTICO

Spencer W. Kimball

Formatura da oitava série. Spencer W. Kimball é o segundo a partir da direita na segunda fileira.

“O jovem Spencer foi criado em Thatcher, Arizona. Ao concluir seus estudos na escola pública, ingressou na Academia Gila, uma instituição estabelecida pela Igreja no início da colonização do vale. Tempos depois, passou a chamar-se Faculdade Gila. Em 1914, ele formou-se com honras e como presidente de sua classe. Além de suas realizações acadêmicas, ele era uma estrela na equipe de basquetebol, e seus arremessos certeiros de todos os pontos da quadra garantiram muitas vitórias” (Udall, Improvement Era, outubro de 1943, p. 591).

Muitos anos depois, deitado com insônia num leito hospitalar, o Presidente Spencer W. Kimball refletiu sobre algumas de suas experiências com o basquetebol em sua mocidade:

“Eu estava na quadra de basquetebol. Jogávamos com nosso macacão, camisa e sapatos de borracha surrados e bolas que nós próprios compráramos. Derrotamos a Escola Globe em nossa quadra de terra batida, bem como a Escola Safford e outras. Agora, naquela noite, nós, os rapazes da Academia, estávamos jogando contra a equipe da Universidade do Arizona.

Era uma grande ocasião. Havia muitos que nunca víramos antes. Alguns moradores da cidade diziam que o basquetebol era um esporte fácil, mas ainda assim havia uma grande platéia naquela noite. Nossa quadra não seguia exatamente as normas oficiais. Estávamos acostumados com ela, mas nossos adversários não. Naquela noite, eu estava com uma sorte especial para os lançamentos, e a bola entrou na cesta repetidas vezes. A partida terminou com a vitória de nossa equipe colegial sobre a universitária. Eu era o jogador mais baixo e jovem da equipe. Fiz o maior número de pontos, com a ajuda da equipe inteira que me protegeu e me passou a bola. Fui carregado nos ombros dos rapazes altos da Academia. Desfilaram comigo pelos corredores para minha consternação e constrangimento” (One Silent Sleepless Night [1975], p. 57).

Spencer W. Kimball

A equipe de basquetebol da Academia Gila, 1912–1913. Spencer W. Kimball está na extrema direita.

ELE APRENDEU A FAZER AS COISAS DA MANEIRA CORRETA

Anos depois, o Presidente Spencer W. Kimball falou mais de suas responsabilidades quando jovem:

“Há o compartimento de arreios. Meu pai tem muito cuidado com os arreios. Quando não estão sobre os cavalos, devem sempre ficar pendurados. As coleiras devem estar polidas e limpas, as rédeas perfeitamente ajustadas, os antolhos no devido lugar. Os arreios precisam ser lavados regularmente com sabão Ivory e depois lubrificados. E aprendi outra lição importante: os artigos de couro nunca devem ressecar-se, enrijecer-se ou enroscar-se.

Há a garagem. As carruagens de um ou dois assentos precisam sempre estar protegidas da chuva e do sol e limpas. Aprendo a lavar os veículos e encerá-los. Num pequeno anexo do lado direito da garagem está a graxa para os eixos e um pano. Levanto um lado da carruagem de cada vez sobre um suporte, retiro a roda, engraxo o eixo cuidadosamente, substituo a porca do parafuso e rosqueio-a para mantê-la no lugar. É preciso dar o mesmo tratamento aos carroções com a freqüência necessária. E é também necessário pintá-los. Aprendi ainda muito novo a comprar e misturar tinta e passá-la no corpo principal, nas rodas e na estrutura metálica. A última camada de tinta deve ser aplicada com precisão. As cercas precisam ser todas caiadas e as grades pintadas de verde. A casa principal também precisa de pintura, e subo em escadas altas e pinto os cavaletes do telhado e os detalhes de madeira. Na primeira vez, meu pai fez a maior parte do trabalho, mas depois gradualmente entendi o que fazer, até que essa tarefa se tornou quase exclusivamente minha. E a estrebaria, o silo e o depósito de ferramentas e arreios — tudo precisa ser pintado periodicamente. Até mesmo as manjedouras” (One Silent Sleepless Night, p. 20).

ELE FOI UM MISSIONÁRIO DEDICADO E COMPROMETIDO

“Em certo dia de maio de 1914, ao ordenhar vacas, (...) Spencer recebeu sua carta do Departamento Missionário em Salt Lake City, chamando-o para fazer proselitismo na Missão Suíço-Alemã. A carta, assinada por Joseph F. Smith, sexto presidente da Igreja, dizia que ele deveria partir em outubro. A Europa era uma perspectiva exótica e entusiasmante. O alemão que Spencer estudara na Academia seria um bom ponto de partida para aprender o idioma.

Então, em julho, a situação na Europa mudou drasticamente. Um estudante sérvio assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro. Em 28 de julho, o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia. O conflito espalhou-se rapidamente à Alemanha, Rússia, França, Bélgica e Grã-Bretanha.

Por causa da guerra na Europa, a designação missionária de Spencer foi mudada para a Missão dos Estados Centrais, cuja sede ficava em Independence, Missouri. Ele ficou decepcionado, mas resignou-se com a mudança; essa era a área onde seu pai servira como missionário, bem como sua madrasta e seu irmão Gordon. Quando o trem atravessou os desertos do Arizona e da Califórnia e entrou em Nevada e Utah, Spencer, um élder recém-ordenado, olhou a sua frente com apreensão e pensou nas mudanças a ocorrer em sua vida, mas sentia ao mesmo tempo curiosidade e entusiasmo.

Como eram os missionários ou sua família que arcavam com as despesas da missão, Spencer vendera seu cavalo negro novo e espirituoso por 175 dólares, quantia suficiente para sustentá-lo durante seis meses. A esse montante, ele somou os salários que ganhara na leiteria. O dinheiro que ainda lhe faltava, seu pai completou. Mas esses recursos não lhe permitiam levar uma vida de luxo” (Edward L. Kimball e Andrew E. Kimball Jr., Spencer W. Kimball [1977], pp. 72–73).

Spencer W. Kimball

O Élder Spencer W. Kimball (à esquerda) e seu companheiro, o Élder L. M. Hawkes, junho de 1915; missionários no Missouri

O Élder Kimball enfrentou tristezas e desânimo ao servir como missionário. Em maio de 1915, seu pai enviou-lhe a notícia da morte de sua irmã de vinte e um anos, Ruth. Muitas pessoas não eram receptivas a sua mensagem, e as responsabilidades confiadas a ele eram enormes. Contudo, ele continuou a trabalhar com diligência.

Depois de quatorze meses no campo missio- nário, ele tornou-se presidente da área Saint Louis, Missouri. Era uma designação assustadora para ele. Ele era mais novo do que a maioria dos trinta e cinco missionários pelos quais ele era responsável. Contudo, sua disposição para o trabalho e sua dependência do Senhor resultaram em êxito.

Bater em portas e realizar reuniões de rua eram atividades regulares no trabalho missionário, e o Élder Kimball tornou-se criativo em algumas de suas formas de abordar as pessoas à porta. “Anos depois, ele gostava de contar uma história sobre a inventividade ao fazer contatos. Ao bater em portas em St. Louis, viu um piano dentro de uma casa pela porta entreaberta e comentou com a mulher que estava prestes a fechá-la em sua cara: ‘A senhora tem um belo piano.’

‘Acabamos de comprá-lo’, disse a mulher, hesitante.

‘A marca dele é Kimball, não é? É também o meu sobrenome. Posso tocar uma música que talvez a senhora gostaria de ouvir.’

Surpresa, ela respondeu: ‘Claro, entre.’

Spencer sentou-se no banco, tocou e cantou: ‘Ó Meu Pai.’

Spencer nunca teve notícia de que ela se tenha filiado à Igreja, mas não foi por falta de tentativa” (Kimball and Kimball, Spencer W. Kimball, pp. 79–80).

O Élder Kimball gostava das reuniões de rua. “Um dos locais prediletos para ele e seus companheiros era o cruzamento das ruas Twentieth e Franklin. Embora algumas pessoas questionassem o valor dessas reuniões, o Élder Kimball nunca o fazia. Elas proporcionavam-lhe uma sensação de alegria inigualada por qualquer outra forma de proselitismo. Criaram também momentos memoráveis como a ocasião em que, ao fim de uma reunião, com ninguém à vista a não ser os missionários, o élder que dirigia a reunião anunciou: ‘Se vocês todos prestarem atenção, daremos a reunião por encerrada’ ou quando o Élder Kimball terminou um discurso no meio de uma frase ao ver que as únicas pessoas presentes eram seus três companheiros” (Francis M. Gibbons, Spencer W. Kimball: Resolute Disciple, Prophet of God [1995], p. 51).

ELE CONHECEU UMA COMPANHEIRA ENCANTADORA

Spencer W. Kimball

Camilla Eyring

Spencer W. Kimball terminou a missão em janeiro de 1917 e voltou para casa. No mês de agosto, fez um relato de sua missão numa conferência de estaca. Nessa conferência estava Camilla Eyring, uma jovem que já lhe fora apresentada informalmente antes de sua mis- são. Quatro dias depois, eles encontraram-se num ponto de ônibus. Spencer apresentou-se de novo e eles tiveram, sentados lado a lado no ônibus, sua primeira conversa. Ele perguntou, durante o trajeto, se poderia visitar Camilla. Ela respondeu afirmativamente.

Entretanto, ela não esperava que ele fosse sem avisar. Quando ele chegou à casa dela, certa noite pouco tempo depois da viagem de ônibus, ela estava usando um quimono, tinha bobes no cabelo e preparava-se para ir a um baile com um amigo e outros conhecidos. Camilla não sabia o que fazer. Assim, sentou-se com o Sr. Kimball no pórtico para conversar. Ela esperava que a visita fosse terminar em breve, até perceber que ele não tinha a mínima intenção de ir embora.

‘Eu tinha um problema’, disse Camilla anos depois. Embora ela quisesse agradar a Spencer, já tinha um acompanhante para o baile, então tentou achar uma alternativa. Disse a Spencer que um grupo de amigos ia sair para dançar. Ele queria ir junto? Spencer, encantado com tamanha sorte, aceitou. Assim, quando Alvin chegou de carro com os outros amigos, Camilla perguntou se outro amigo poderia ir com eles. Os dois entraram no carro e Alvin demonstrou sua raiva ao pisar fundo no acelerador. Ele dirigiu, disse Camilla, ‘como se o diabo estivesse correndo atrás dele’. Quando chegaram ao baile em Layton, Alvin não estava mais com Camilla. E não dançou com ela de novo durante quinze anos. ‘Não foi muito correto de minha parte’, admitiu Camilla com humor” (Kimball e Kimball, Spencer W. Kimball, p. 84; ver também Gibbons, Spencer W. Kimball, pp. 63–64).

Spencer W. Kimball

Spencer e Camilla Kimball, fevereiro de 1918

O relacionamento de Spencer e Camilla flores- ceu e eles casaram-se no dia 16 de novembro de 1917. A seguinte homenagem foi prestada a Camilla anos depois:

“Como o sucesso de um homem depende de sua esposa! O Élder Kimball foi agraciado com uma companheira encantadora, que sempre se mostrou constante, paciente, compreensiva e o incen- tivou. Por conhecer e ensinar a economia doméstica, ela conseguiu alimentar e vestir bem sua família, mesmo que a renda fosse às vezes muito baixa. Camilla é filha de Edward Christian Eyring e Caroline Romney. Eles tinham saído do México e ido para o Arizona em 1912 devido à Revolução Mexicana. Foi em 1917, quando ela lecionava na Academia Gila, em Thatcher, que conheceu Spencer, e poucos meses depois o namoro levou ao casamento. Diz-se que ‘as flores transplantadas tendem a ser as mais belas’, e no caso dela, é verdade; a menina de olhos azuis e cabelos dourados e o nome espanhol, original do México, vicejou e tornou-se uma bela mulher, inteligente, instruída e influente por seus próprios méritos” (Udall, Improvement Era, outubro de 1943, p. 591).

OPORTUNIDADES DE LIDERANÇA PREPARARAM-NO PARA O APOSTOLADO

Um ano depois de ser desobrigado da missão, aos vinte e três anos de idade, Spencer W. Kimball foi chamado como secretário da Estaca St. Joseph em Safford, Arizona. Seis anos depois, em 1924, foi apoiado também como conselheiro na presidência da estaca. Às vezes, servia em ambos os chamados. Quando a estaca foi dividida em 1938, ele foi chamado para ser o presidente da nova Estaca Mount Graham. Cinco anos e meio depois, em 7 de outubro de 1943, depois de um quarto de século na liderança da estaca, foi ordenado apóstolo e tornou-se membro do Quórum dos Doze Apóstolos.

“O Élder Kimball possui tantas qualidades que o capacitam para a liderança na Igreja que é difícil apontar traços específicos e dizer que neles reside seu sucesso. Duas de suas características de destaque são, primeiramente, seu amor pelas pessoas, um amor que gera amor; as pessoas entusiasmam-se com seus ensinamentos; sua maneira de agir inspira confiança; o fazen- deiro abastado ou o operário humilde, a dona de casa ou o rapaz ou moça na adolescência, todos têm confiança na integridade dele. Sua segunda grande virtude é a atenção cuidadosa que ele dedica a seus deveres diários. (...) Pelo seu modo de vida, o novo apóstolo parecia estar na presença de Deus em todos os momentos, e não há um único instante de sua vida atarefada em que ele tenha esquecido sua responsabilidade para com seu Criador” (Udall, Improvement Era, outubro de 1943, p. 639).

Spencer W. Kimball passou também vinte e cinco anos bem-sucedidos no ramo dos bancos, dos seguros e dos imóveis. Ajudou a organizar as empresas Gila Broadcasting e Gila Valley Irrigation e serviu em importantes designações de liderança nesses empreendimentos. Foi líder distrital do Rotary Club International, presidente do Rotary Club de Safford, membro do colegiado da Faculdade de Gila, membro do Conselho dos Professores Aposentados do Arizona, vice-presidente do Conselho Roosevelt de Escoteiros, líder local da associação USO (United Services Organization), responsável pela campanha United War Fund no condado de Graham e mestre de cerimônias de inúmeros eventos civis e da Igreja. Como pianista e cantor, era solicitado constantemente. Por muitos anos, integrou um quarteto popular cha- mado “Conquistadores”.

ELE SENTIU-SE PEQUENO DIANTE DE SEU CHAMADO

Na conferência geral de outubro de 1943, no dia em que foi apoiado como apóstolo, o Élder Spencer W. Kimball dirigiu-se à congregação, recordando sua designação ao Quórum dos Doze Apóstolos:

“Creio que os irmãos demonstraram grande bondade para comigo por anunciarem meu chamado no momento em que o fizeram, a fim de permitir-me fazer os ajustes necessários em meus negócios. Mas talvez eles tenham sido ainda mais inspirados por concederemme o tempo necessário para um longo período de purificação, pois nesses longos dias e semanas meditei e orei muito e também jejuei e orei. Havia pensamentos conflitantes em minha mente — vozes que pare- ciam dizer: ‘Você não é capaz de fazer o trabalho. Não é digno. Não pode’ — mas sempre terminava por vir o pensamento triunfante: ‘Você precisa realizar o traba- lho designado — necessita tornar-se capaz, digno e qualificado.’ E a batalha continuava.

Lembro-me de ler que Jacó lutou a noite inteira, ‘até que a alva subiu’, para receber uma bênção; e quero dizer-lhes que durante oitenta e cinco noites vivi essa experiência, batalhando para receber uma bênção. Oitenta e cinco vezes, a aurora viu-me de joelhos orando ao Senhor para ajudar-me, fortalecer-me e pôr-me à altura desta grandiosa responsabilidade que me foi concedida” (Conference Report, outubro de 1943, pp. 15–16).

ELE TINHA UM GRANDE AMOR PELOS FILHOS DE LEÍ

O Élder Spencer W. Kimball explicou:

“Não sei quando comecei a amar os filhos de Leí. Pode ser que isso se tenha iniciado no nascimento, pois nos anos que antecederam e sucederam minha vinda ao mundo meu pai serviu como missionário entre os índios do Território Indígena. Ele era o presidente da missão. Esse amor pode ter vindo nos primeiros anos de minha infância, quando meu pai entoava canções indígenas para nós, crianças, e nos mostrava lembranças e fotografias de seus amigos índios. Pode ser que tenha vindo de minha bênção patriarcal que me foi dada pelo Patriarca Samuel Claridge, quando eu tinha nove anos de idade. Um trecho da bênção dizia:

‘Pregarás o evangelho a muitas pessoas, mas de modo ainda mais especial aos lamanitas, pois o Senhor te abençoará com o dom das línguas e o poder de apresentar a esse povo o evangelho com grande simplicidade. Tu os verás organizarem-se e deves preparar-te para servir de defensor desse povo.’ (...)

(...) Há cerca de meio milhão de filhos de Leí nas ilhas do mar e por volta de sessenta milhões deles na América do Norte e do Sul. Em cerca de um terço dos casos, trata-se talvez de índios de linhagem pura e em dois terços, são mestiços; mas têm nas veias o sangue de Jacó.

Alguém disse:

‘Se eu tivesse o dom de emocionar as pessoas com meus escritos, redigiria um livro e o intitularia “O Índio” e faria o mundo inteiro chorar.’

Espero ajudar a fazer o mundo inteiro chorar pelos filhos de Leí. Alguém pode conter as lágrimas ao ver a queda desse povo que passou da cultura e progresso ao analfabetismo e degradação; de reis e imperadores a escravos e servos; de proprietários de vastos continentes a pupilos indigentes de governos e serviçais — de filhos de Deus com um conhecimento do Senhor a bárbaros selvagens e vítimas de superstições e de construtores de templos a habitantes de cabanas? (...)

Como eu gostaria que vocês visitassem comigo as reservas indígenas e principalmente a dos navajos e vissem a pobreza, a carência, a miséria, e percebessem mais uma vez que eles são filhos de Deus; que esse estado de miséria é o resultado não apenas de seus séculos de guerras, pecados e irreligiosidade, mas também deve ser atribuída a nós, seus conquistadores, que os colocamos em reservas com recursos e instala ções tão limitados, para morrerem de fome, subnutrição e condições insalubres, enquanto nós prosperamos com os bens que retiramos deles. Pensem nessas coisas, meu povo, e então chorem pelos índios e, com suas lágrimas, orem; então, trabalhem por eles. Somente por nosso intermédio, os ‘aios e amas’, poderão um dia desfrutar as muitas promessas feitas a eles. Se cumprirmos nossos deveres para com eles, os índios e outros filhos de Leí hão de erguer-se com força e poder. O Senhor recordará Seu convênio com eles; Sua Igreja será estabelecida no meio deles; a Bíblia e outras escrituras estarão a seu alcance; eles entrarão nos templos sagrados para receber sua investidura e realizar ordenanças vicárias; terão acesso ao conhecimento de seus pais e a um conhecimento perfeito de seu Redentor Jesus Cristo; prosperarão na terra e, com nossa ajuda, edificarão uma cidade santa, sim, a Nova Jerusalém, para seu Deus” (Conference Report, abril de 1947, pp. 144–145, 151–152).

UM APÓSTOLO É UMA TESTEMUNHA ESPECIAL DE CRISTO “Depois de seu chamado para os

“Depois de seu chamado para os Doze [o Élder Spencer W. Kimball] sofreu uma série de ataques cardíacos. Os médicos recomendaram repouso. Ele desejava estar com seus índios amados. O irmão Golden R. Buchanan levou-o à propriedade do Irmão e Irmã Polacca, nos altos montes cobertos de pinheiros do Arizona, e lá ele ficou durante semanas até seu coração melhorar e sua força voltar.

Spencer W. Kimball

O Élder e a Irmã Kimball, pouco depois do chamado para o Quórum dos Doze Apóstolos.

Certa manhã, ele não pôde ser encontrado. Como não voltou para o desjejum, o irmão Polacca e outros amigos indígenas começaram a busca. Encontraram-no a vários quilômetros, sentado sob um grande pinheiro com a Bíblia aberta no último capítulo do evangelho de João. Em resposta à fisionomia preocupada deles, ele disse: ‘Hoje faz seis anos que fui chamado como apóstolo do Senhor Jesus Cristo. E eu queria apenas passar o dia com Ele, de quem sou testemunha.’

Seus problemas cardíacos voltaram, mas não o impediram de trabalhar por muito tempo.” (Packer, A Liahona, julho de 1974, pp. 4–5).

ELE TEVE CÂNCER NA GARGANTA E NAS CORDAS VOCAIS

Em 1957, depois de vários anos de problemas com a rouquidão, o Élder Spencer W. Kimball recebeu o diagnóstico de câncer na garganta e nas cordas vocais. Os médicos disseram que ele perderia a voz, algo primordial em sua vida e serviço como apóstolo. O Élder Boyd K. Packer escreveu:

“Esse talvez tenha sido seu Getsêmani.

Ele viajou para o leste dos Estados Unidos para ser operado. O Élder Harold B. Lee estava a seu lado. Ao ser preparado para a cirurgia, ele ficou angustiado com as perspectivas tão sombrias, dizendo ao Senhor que não via como poderia viver sem voz, pois seu ministério dependia dela para falar e pregar.

‘O senhor não está operando um homem como os outros’, disse o Élder Lee para o cirurgião. Depois das bênçãos e orações, foi feita uma operação menos radical do que a recomendada pelo médico inicialmente.

O período de recuperação e preparação foi longo. Quase toda a voz se foi, mas uma nova a substituiu. Uma voz serena, persuasiva, suave, aprendida, suplicante, uma voz amada pelos santos dos últimos dias.

Nesse meio tempo, ele continuou a trabalhar. Durante entrevistas, ele escrevia na máquina datilográfica respostas às perguntas e passava seu tempo no escritório.

Então, veio o teste. Ele poderia falar? Poderia pregar?

Ele voltou a sua região de origem para seu primeiro discurso após a cirurgia. Foi para o vale. Qualquer pessoa próxima dele sabe que não se trata apenas de um vale, mas do vale. Lá, numa conferência da Estaca St. Joseph, acompanhado de seu amado companheiro do Arizona, o Élder Delbert L. Stapley, ele postou-se no púlpito.

‘Voltei aqui’, disse ele, ‘para estar no meio de meu povo. Neste vale, servi como presidente de estaca.’ Talvez ele achasse que, caso falhasse, ali estaria entre pessoas que o amavam e que compreenderiam.

Houve grandes demonstrações de amor. A tensão daquele momento dramático foi atenuada quando ele continuou: ‘Preciso dizer-lhes o que aconteceu comigo. Fui para o leste do país e, durante minha estada, cortaram minha garganta. (...)’ Depois dessa introdução bem-humorada, pouco importava o que mais ele viria a dizer. O Élder Kimball estava de volta!” (A Liahona, julho de 1974, p. 5.)

Entre amigos, ele despediu-se do passado e uma nova voz começou a ser ouvida — não mais uma voz melodiosa, mas uma voz amada e familiar, com um som tão grave quanto a mensagem por ela veiculada.

ELE SOFREU UMA CIRURGIA DE CORAÇÃO ABERTO

Spencer W. Kimball

O Élder Kimball, pouco depois de sua cirurgia cardíaca, em 1972

Mais uma vez, as fraquezas da carne ameaçaram impedir o Élder Kimball de desempenhar o chamado para o qual ele estava sendo prepa- rado. Seus problemas cardíacos voltaram e exigiram uma cirurgia de coração aberto para salvá-lo. Novamente, o Presidente Lee deu-lhe bênçãos, pedindo vida para o paciente e orientação para o cirurgião. Ambas as súplicas foram atendidas. Aconteceu uma recuperação rápida; um profeta foi salvo. Dois anos depois, ele tornou-se o Presidente da Igreja do Senhor, com saúde e vigor notáveis.

ELE ADVERTIU OS SANTOS SOBRE O AMOR AOS BENS MATERIAIS

O Élder Spencer W. Kimball ensinou a seguinte perspectiva sobre a riqueza e a propriedade:

Certo dia, um amigo levou-me a seu rancho. Destrancou a porta de um grande automóvel novo, segurou o volante e disse com orgulho: ‘O que acha de meu novo carro?’ Andamos naquele auto- móvel luxuoso e confortável por áreas rurais até chegarmos a uma bela casa nova e ajardinada, e ele disse com grande vaidade: ‘Esta é minha casa’.

Ele dirigiu-se a um campo verdejante. O sol estava pondo-se atrás dos montes longínquos. Ele contemplou seus vastos domínios. (...)

(...) Andamos em círculos para ver a distância. Ele identificou celeiros, silos, o rancho a oeste. Com um grande gesto, vangloriou-se: ‘Daquele bosque, ao lago, ao penhasco, às casas do rancho e tudo o mais na região — tudo isso me pertence. E aqueles pontos negros no pasto — o gado — todos também são meus.’

E então perguntei de quem ele obtivera aquilo. Os documentos de propriedade revelavam concessões governamentais de terrenos. Seu advogado garantira-lhe que os títulos estavam em ordem.

‘De quem o governo recebeu tudo isso?’, perguntei. ‘O que ele que pagou por isso?’

Veio-me à mente uma frase audaciosa de Paulo: ‘Porque a terra é do Senhor e toda a sua plenitude’ (I Coríntios 10:26) (...).

Em seguida, perguntei: ‘O título veio de Deus, Criador da Terra e proprietário dela? Ele recebeu o pagamento? As terras foram vendidas, alugadas ou doa- das a você? Se foi um presente, quem o ofereceu? Se foi uma venda, com que moeda ou taxa de câmbio se fez a transação? Caso se trate de aluguel, como você cuida da contabilidade?’

Então, perguntei: ‘Qual foi o preço? Com que tesouros você comprou esta fazenda?’ ’

‘Dinheiro!’

‘Onde você conseguiu o dinheiro?’

‘Meu trabalho, meu suor, meu esforço e minha força.’

Então, indaguei: ‘Onde você conseguiu força para trabalhar e empenhar-se e suas glândulas para suar?’

Ele respondeu que era a comida.

‘E de onde vieram os alimentos?’

‘Do sol, atmosfera, solo e água.’

‘E quem trouxe esses elementos para cá?’ (...)

E meu amigo continuou a fazer tudo girar em torno de si mesmo, como que para fugir da verdade de que ele era, no máximo, um inquilino ingrato.

Isso aconteceu há muitos anos. Tempos depois, vi-o em seu leito de morte cercado de móveis de luxo numa casa suntuosa. Ele tinha muitas propriedades. Fui eu que cruzei seus braços sobre o peito e fechei seus olhos. Discursei em seu funeral e segui o cortejo até o pequeno pedaço de terra que continha seu túmulo, uma minús- cula área oblonga com o comprimento de um homem alto e a largura de um homem pesado.

Ontem, vi a mesma propriedade, dourada com grãos, verde com alfafa, branca com algodão, tudo seguia seu curso sem dar a mínima importância àquele que reivindicava sua posse. Ó, homem insignificante, veja a formiga atarefada tentando debalde carregar toda a areia do mar” (Conference Report, abril de 1968, pp. 73–74).

O EVANGELHO RESOLVE PROBLEMAS

Em 1971, o Presidente Spencer W. Kimball, na época presidente interino do Quórum dos Doze Apóstolos, ensinou que “na Terra o Senhor concedeu tudo de que o homem poderia precisar para ser feliz. (...)

Como Ele deve ficar perturbado ao olhar lá do céu, depois de dar aos homens o livre-arbítrio, e ver como usam esse dom de modo insensato; quando Ele vê centenas de milhões de pessoas passando necessidade, sem as mínimas condições de sobrevivência, ao passo que inúmeras outras possuem riquezas que nem conseguem usar.

Certamente, o propósito do Senhor não é reverter o processo e tornar os ricos pobres e os pobres ricos. Ele gostaria de ter um bom equilíbrio, no qual todos trabalhem e aproveitem dos frutos de toda a Terra. (...)

O homem pretende reduzir o número de pobres com o controle de natalidade e o aborto. O evangelho reduz a pobreza com uma melhor distribuição das riquezas do mundo, que o Senhor afirma existirem em abundância, com ‘bastante e de sobra’. ‘Os caminhos do homem não são os caminhos de Deus.’ (...)

O Senhor Jesus Cristo não veio com uma espada, chaves da prisão nem prerrogativas legais. Não veio com o poder das armas nem munição, mas com a lei da persuasão. Enquanto Ele pregava a retidão, o mundo resistia, pecava e morria na iniqüidade. O evangelho é para todos, para cada um de nós. O mundo, frustrado, corrupto e moribundo, pode ser curado, mas a única forma é aplicarmos o evangelho em nossa vida. A natureza humana deve ser transformada e controlada. (...)

Estive em Lima, Peru. Vários jornalistas dos grandes veículos da imprensa me entrevistaram na casa da mis- são. (...) E quando a maioria deles fez suas anotações e foi embora aparentemente satisfeito, um jovem e ousado iniciante ficou para fazer-me mais perguntas. Seus questionamentos giravam em torno da poligamia, racismo, pobreza e guerra. Tentei responder de modo completo e respeitoso a suas indagações maliciosas. (...) Ele perguntou com desdém por que a Igreja ‘Mórmon’ não curava este mundo da pobreza. Então, virei-me para ele e disse algo do seguinte teor:

‘Senhor, o que está perguntando? Sabe onde nasce a pobreza, onde reside, onde é nutrida? Viajei muito por todo o seu país, do litoral às montanhas mais altas. (...) Vi a população da cordilheira lutando pela mera sobrevivência, de modo primitivo e morando em barra- cos paupérrimos, com alimentação limitada e em total desconforto. Em sua cidade grande, vejo mansões e palacetes, mas também numerosas casas de papelão, lata e caixas, bem como o corpo magro de seus índios do interior e dos altiplanos. Vi suas catedrais com altares de ouro e prata e seus mendigos no assoalho frio desses edifícios com os braços magros estendidos e as mãos esqueléticas em forma de concha, levantadas para as pessoas que vêm visitar ou assistir à missa. E o senhor pergunta a mim sobre a pobreza. Estive em muitos lugares da Cordilheira dos Andes e chorei pelos índios que ainda são perseguidos, despojados, sobrecarregados e ignorados. Eles carregam tudo nas costas: seus fardos, suas mercadorias da feira, suas compras. E quando chegam a suas cidades, vejo-os serem desprezados, ignorados e rejeitados. Faz quatrocentos anos que eles estão em seu meio. Quatrocentos anos que eles são apenas índios pobres e desvalidos. Ao longo de várias gerações, são seres humanos que mal subsistem. Durante quatrocentos anos, como os filhos de Israel no passado, eles vivem numa verdadeira escravidão. Além dessa pobreza contínua, há muitas gerações de ignorância e superstição, fome, pestilências e desastres naturais. E o senhor vem falar a mim de pobreza, carência, sofrimento e necessidade.

Faz quatrocentos anos que eles estão entre vocês. Os valores morais deles melhoraram, as superstições deles dimi- nuíram, a cultura deles enriqueceu-se? Os ideais deles elevaram-se? As ambições deles cresceram? A produção deles aumentou? A fé deles aprofundou-se? O que vocês fizeram por eles? Eles estão em melhor situação hoje, nos Andes, do que quando vocês europeus chegaram há quatro séculos?’ (...)

Ele começou a guardar seus papéis e lápis.

Concluí:

Nós também temos índios — índios que vieram de ocas no deserto onde passavam necessidade e fome. Mas agora, numa única geração, estão bem vestidos, instruídos, servindo como missionários, adquirindo títulos universitários, ganhando um bom salário e desempe- nhando responsabilidades importantes na comunidade e no país” (The Gospel Solves Problems of the World [discurso num serão da Universidade Brigham Young, 26 de setembro de 1971], pp. 2–3, 7–8).

“QUANDO O MUNDO SE CONVERTER”

Spencer W. Kimball foi designado Presidente do Quórum dos Doze Apóstolos em 7 de julho de 1972. Em 30 de dezembro de 1973, após a morte do Presidente Harold B. Lee, tornou-se o Presidente da Igreja, recebendo o direito de exercer todas as chaves do reino terreno de Cristo.

Em abril de 1974, num discurso para os representantes regionais da Igreja, o Presidente Kimball expressou de modo contundente suas convicções sobre nossas responsabilidades missionárias de seguir as ordens do Senhor quando disse: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações” (Mateus 28:19).

“Ele queria dizer todas as nações existentes na época? (...)

Acham que Ele incluiu todas as nações que seriam organizadas depois? E quando Ele lhes deu o mandamento de irem pregar, acham que Ele tinha dúvidas de que isso era possível? Ele inspirou-nos confiança. Ele tinha o poder. Ele disse: ‘é-me dado todo o poder no céu e na terra’ (...) e ‘estou convosco todos os dias’. (...)

(...) [Os] profetas visualizaram os numerosos espíritos e todas as criações. Parece que o Senhor escolheu bem Suas palavras quando disse ‘todas as nações’, ‘todas as terras’, ‘os confins da Terra’, ‘todas as línguas’, ‘todos os povos’, ‘todas as almas’, ‘todo o mundo’, ‘muitas terras’.

Certamente, há um significado especial nessas palavras!

Seguramente, suas ovelhas não se limitavam às milhares de pessoas a Sua volta e com quem Ele convivia diariamente. Uma família universal! Um mandamento universal!

Irmãos, não sei se estamos fazendo tudo a nosso alcance. Será que não estamos falhando em nosso empenho para ensinar o mundo inteiro? Estamos fazendo o trabalho de proselitismo há 144 anos. Estamos preparados para alargar os passos? Para aumentar nossa visão?

Israel precisa ser coligada, os filhos de Leí necessitam chegar ao conhecimento do evangelho, o reino de Deus precisa expandir-se, o mundo tem de ser advertido. Não é de admirar que o profeta nos tenha exortado a alargar os passos e elevar nossa visão. O Presidente Kimball viu o resultado com os olhos da fé.

ELE PEDIU MISSIONÁRIOS MAIS BEM PREPARADOS

O Presidente Spencer W. Kimball afirmou que todos os rapazes dignos e capazes deveriam servir como missionários:

“Quando peço mais missionários, não estou pedindo mais missionários sem testemunho e indignos. Estou pedindo que comecemos mais cedo e treinemos melhor nossos missionários em todos os ramos e alas do mundo. Esse é outro desafio — que os jovens com- preendam que é um grande privilégio servir como missionários e que precisam estar bem física, mental e espiritualmente, e que o Senhor não pode ‘encarar o pecado com o mínimo grau de tolerância’.

Estou pedindo missionários que tenham sido doutrinados [ensinados] e treinados pela família e as organizações da Igreja e que cheguem à missão com um grande desejo. Estou pedindo (...) que treinemos os missionários em perspectiva muito melhor, muito mais cedo e por muito mais tempo, a fim de que cada um deles anseie por sua missão com grande alegria. (...)

Muitos perguntam: Todos os rapazes devem servir numa missão? A resposta foi dada pelo Senhor e é afirmativa. Todos os rapazes devem servir como missionários [ver D&C 133:8; ver tam- bém D&C 63:37]. (...)

Ele não fez limitações.

A resposta é afirmativa. Todos os homens também devem pagar o dízimo. Todos devem observar o Dia do Senhor. Todos devem assistir às reu- niões. Todos devem casar-se no templo e treinar adequadamente seus filhos e realizar muitas outras boas obras. É claro que devem. Nem sempre o fazem, mas devem.

Temos consciência de que, embora todos os homens devam, nem todos estão preparados a ensinar o evangelho pelo mundo afora. Um número demasiado grande de rapazes chega à idade de partir para a missão muito despreparado para a obra missionária e claro que eles não devem ser enviados. Mas todos devem ser preparados. Há muitos que têm problemas físicos que os incapacitam para a obra missionária, mas Paulo também tinha um espinho no lado. Há um número demasiado grande deles que são emocional, mental e moralmente inaptos, pois não mantiveram a vida pura e em harmonia com o espírito da obra missionária. Eles deveriam ter sido preparados. Deveriam! Mas como violaram as leis, pode ser que precisem perder o privilégio, e nisso consiste um de nossos maiores desafios: manter esses rapazes dignos. Sim, dizemos que todos os homens dignos devem assumir a responsabilidade. Que exército teríamos ensinando sobre o Cristo crucificado! Sim, eles devem ser preparados, economizando também fundos para a missão e sempre com o coração feliz para servir” (Ensign, outubro de 1974, pp. 7–8).

“QUEM LHES DEU SUA VOZ?”

O Élder Rex D. Pinegar, que era membro dos Setenta, relatou o seguinte ensinamento do Presidente Spencer W. Kimball:

“Enquanto estava na Argentina em 1975 para a conferência de área, o Presidente Kimball discursou para um grande grupo de jovens. Pouco depois de começar, deixou de lado o texto preparado e contoulhes uma experiência pessoal. Perguntou-lhes: ‘Quem lhes deu sua voz?’ Então, relatou-lhes sua experiência com a cirurgia para salvar sua voz. Explicou que o Senhor poupara sua voz. Disse que não era a mesma voz que ele tinha antes. Ele não podia mais cantar, como tanto gostava antes, mas tinha voz. Disse que não era uma voz bonita, mas garanto-lhes que era bela no que ensinou naquela noite. Ao falar, os jovens reagiam antes mesmo de o intérprete traduzir. Ele disse aos presentes: ‘Servir como missionário é como pagar o dízimo; vocês não são obrigados, fazem-no porque é correto. Queremos partir para o campo missionário porque é a maneira do Senhor. O Senhor não disse: “Se for conveniente, ide.” Ele disse: “Ide por todo o mundo”’(Marcos 16:15). O Presidente Kimball explicou que as moças tinham a responsabilidade de ajudar os rapazes a permanecerem dignos e de incentivá-los a irem para a missão.

Quando o Presidente terminou seu discurso, perguntou: ‘O Senhor não lhes deu sua voz para que pregassem o evangelho?’ Então, testificou que aprendera que sua voz e nossa voz são para declararmos o evangelho de Jesus Cristo e para testificarmos das verdades reveladas ao Profeta Joseph Smith. O Presidente Kimball ensina-nos a perspectiva correta da vida” (Conference Report, outubro de 1976, p. 103; ou Ensign, novembro de 1976, p. 67).

ELE EXPLICOU A RAZÃO MAIOR PARA A OBRA MISSIONÁRIA

O amor do Presidente Spencer W. Kimball pela obra missionária era visível. Ele tocava com freqüência nesse assunto: “Se não houvesse conversos, a Igreja definharia e morreria. Contudo, talvez o motivo maior para a obra missionária seja dar ao mundo a oportunidade de ouvir e aceitar o evangelho. As escrituras estão cheias de ordens, promessas, chamados e recompensas para o ensino do evangelho. Uso a pala- vra ordem propositalmente, pois para mim, trata-se de uma diretiva insistente da qual nós, individual e coletivamente, não podemos escapar” (A Liahona, novembro de 1974, p. 3).

DEVEMOS CUMPRIR NOSSA OBRIGAÇÃO MISSIONÁRIA MUNDIAL

O Presidente Spencer W. Kimball disse:

“A imensidão da obra diante de nós faz-se notar ao pensarmos na população do mundo, que se aproxima da marca dos quatro bilhões.

Não estou iludido, irmãos, para pensar que será uma tarefa fácil, sem esforço, ou que tudo se fará da noite para o dia, mas tenho fé em que podemos seguir em frente e avançar muito mais rápido do que agora. (...)

Quando aumentarmos o número de missionários das áreas organizadas da Igreja para perto de seu potencial, isto é, quando mandarmos todos os rapazes capazes e dignos da Igreja para a missão; quando todas as estacas e missões no exterior fornecerem missionários suficientes para seu país; quando usarmos nossos homens qualificados para ajudar os apóstolos a abrirem esses novos campos de trabalho; quando tirarmos o máximo proveito das descobertas de satélite e outras tecnologias e todos os meios de comunicação — jornais, revistas, televisão, rádio — com todas as suas possibilidades; quando organizar- mos numerosas outras estacas que serão pontos de partida; quando reativarmos os inúmeros rapazes que ainda não foram ordenados, não foram para a missão e não se casaram; somente então seguiremos o mandamento de nosso Senhor e Mestre de ir a todo o mundo e pregar o evangelho a toda criatura” (Ensign, outubro de 1974, pp. 13–14).

O EVANGELHO TRIUNFARÁ

O Presidente Spencer W. Kimball afirmou:

“Se fizermos tudo a nosso alcance, e aceito minha parcela dessa responsabilidade, tenho certeza de que o Senhor nos ajudará a aplicar mais descobertas. Ele transformará o coração de reis, magistrados e imperadores e desviará rios, abrirá mares e encontrará meios para tocar o coração das pessoas. Abrirá portas e tornará o proselitismo possível. Tenho grande fé nisso.

Temos a promessa do Senhor de que o mal nunca conseguirá frustrar totalmente a obra que Ele ordenou que realizássemos.

‘Este reino continuará a progredir, crescer, espalhar-se e prosperar cada vez mais. Sempre que seus inimigos se pro- puserem a derrubá-lo, ele se tornará mais forte e extenso; em vez de diminuir, continuará a aumentar; ele se espalhará ainda mais e se tornará mais maravilhoso e proeminente entre as nações, até encher toda a Terra’ (Presidente Brigham Young, conferência de abril de 1852)“ (A Liahona, setembro de 1984, p. 5).

ELE ENSINOU SOBRE O MILAGRE DO PERDÃO

O Presidente Kimball ensinava muito o princípio do arrependimento. Seus ensinamentos influenciaram positivamente inúmeras pessoas. O Élder Boyd K. Packer reconheceu essa influência grandiosa e escreveu: “O próprio Presidente Kimball é, de certa forma, um cirurgião experiente. Não um médico, mas um doutor do bem-estar espiritual. Muitos cânceres morais foram extirpados, muitas manchas de caráter foram removidas e muitas enfermidades espirituais de um tipo ou outro foram curadas por meio de seu empenho. Algumas pessoas que estavam à beira da bancarrota espiritual foram salvas por ele. Ele escreveu um livro — que passou literalmente anos em preparação — O Milagre do Perdão. Muitos foram protegidos pelos conselhos que ele escreveu. Inúmeros outros foram inspirados a pôr a vida em ordem e vivenciaram esse milagre” (A Liahona, julho de 1974, p. 6).

ELE ENSINOU SOBRE O ARREPENDIMENTO

O Presidente Kimball explicou:

“Às vezes é mais fácil definir o que é algo ao dizermos o que não é.

Arrepender-se é não repetir o pecado. É não rir do pecado. É não justificar o pecado. Arrepender-se é não enrijecer as artérias espi- rituais. É não minimizar a seriedade do erro. Arrepender-se não é meramente parar a atividade. Não é ocultar o pecado para que corroa e sobrecarregue o pecador. (...)

O verdadeiro arrependimento é composto por muitos elementos inter-relacionados.

O Presidente Joseph F. Smith tratou muito bem desse tema:

‘O verdadeiro arrependimento não é apenas o pesar pelos pecados e a humilde penitência e contrição perante Deus, mas envolve a necessidade de afastar-se deles, interromper todas as práticas e atos malignos, modificar totalmente a vida, passar por uma transformação vital do mal para o bem, do vício para a virtude, das trevas para a luz. Não apenas isso, mas reparar à medida do possível todo o mal causado, saldar suas dívidas e restituir a Deus e aos homens seus direitos. Esse é o verdadeiro arrependimento, e é preciso a aplicação de toda a vontade e poderes do corpo e da mente para efetuar essa gloriosa obra do arrependimento.’

Todas as pessoas precisam passar pelo verdadeiro arrependimento. Não é algo que se pode fazer por procuração. Não é algo que se pode comprar, pedir emprestado ou vender. Não há um caminho fácil para o arrependimento: pouco importa se alguém é filho do presidente, filha do rei, príncipe do imperador ou simples camponês, cada ser humano precisa arrepender-se, e seu arrependimento tem de ser pessoal, individual e humilde.

Gorda ou magra, feia ou bonita, alta ou baixa, intelectual ou sem instrução, cada pessoa precisa transformar sua própria vida por meio de um arrependimento real e humilde.

É preciso haver consciência da culpa. Não se deve ignorá-la. Cumpre reconhecê-la, e não a justificar e racio- nalizar. Ela tem que receber a importância que merece. Se consistir em 10.000 talentos, não deve ser tratada como 100 centavos; se tiver 1 quilômetro de comprimento, não deve ser tratada como 5 metros ou 50 cen- tímetros; se for uma transgressão de uma tonelada, não deve ser considerada como outra de um quilo. (...)

Arrepender-se verdadeiramente é perdoar a todos os demais. Uma pessoa não pode ser perdoada enquanto continuar a guardar rancor por outras. Ela precisa ser ‘[misericordiosa] para com [seus] irmãos; [agir] com justiça, [julgar] com retidão e [praticar] o bem conti- nuamente (...)’ (Alma 41:14).

A transgressão deve ser abandonada. O arrependi- mento precisa ser genuíno, consistente e definitivo. O Senhor disse em 1832: ‘(...) segui vossos caminhos e não pequeis mais; mas à alma que pecar retornarão os pecados passados, diz o Senhor vosso Deus’ (D&C 82:7).

Uma mudança de vida temporária e momentânea não é o bastante. (...)

A verdadeira confissão não é apenas uma questão de revelar certos atos, mas de alcançar paz, o que não parece possível de nenhuma outra forma.

Muitas vezes as pessoas falam sobre o tempo: Quanto tempo será pre- ciso para serem perdoadas? Quando poderão ir ao templo?

O arrependimento não está ligado ao tempo. A evidência do arrependimento é a transformação. Precisamos verdadeiramente manter nossos valores em ordem e nossas avaliações intactas.

Certamente, devemos perceber que as penalidades para o pecado não são um desejo sádico da parte do Senhor, e é por isso que quando as pessoas se envolvem profundamente com a imoralidade e outros pecados comparáveis, é preciso a ação de tribunais com jurisdição adequada. Muitas pessoas só são capazes de se arrepender depois de sofrerem muito. Elas não con- seguem dirigir os pensamentos a novos canais puros, controlar seus atos ou planejar seu futuro a contento até perderem valores que pareciam não apreciar plenamente. Portanto, para esses casos, o Senhor previu a excomunhão, a desassociação ou o estado probatório, e isso está em harmonia com o ensinamento de Alma de que não pode haver arrependimento sem sofrimento. E muitas pessoas são incapazes de sofrer sem antes tomarem consciência de seu pecado e sua culpa.

Uma forma de punir uma pessoa é privá-la de seus privilégios. Assim, se um membro da Igreja for proi- bido de tomar o sacramento, usar seu sacerdócio, ir ao templo, pregar ou orar em qualquer uma das reuniões, isso constitui um grau de constrangimento, privação e punição. De fato, a principal pena que a Igreja pode infligir é privar os membros de seus privilégios. (...)

O verdadeiro arrependimento precisa incluir a restituição. Há pecados nos quais se pode fazer a resti- tuição, como o roubo, mas há outros que não são passíveis de reparação, como o assassinato, o adultério ou o incesto. Um dos requisitos para o arrependimento é a obediência aos mandamentos do Senhor. Talvez poucos reconheçam que esse é um elemento importante; mesmo que uma pessoa tenha abandonado certo pecado e até o confessado ao bispo, ainda assim ela não se arrependeu caso não tenha iniciado uma vida de ação, serviço e retidão, algo indicado como imprescindível pelo Senhor: ‘(...) Aquele que se arrepender e cumprir os mandamentos do Senhor será perdoado’” (“What Is True Repentance”, New Era, maio de 1974, pp. 4–5, 7).

“TODO HOMEM DA IGREJA FIEL E DIGNO PODERIA RECEBER O SANTO SACERDÓCIO”

Spencer W. Kimball

Nigerianos entrando nas águas do batismo com o Élder Ted Cannon

“Talvez poucos acontecimentos tenham exercido maior impacto na divulgação mundial do evangelho do que a revelação de 1978, recebida pelo Presidente Spencer W. Kimball, que estendeu o sacerdócio a todos os homens dignos de todas as raças. Durante algum tempo, as autoridades gerais vinham debatendo detalhadamente esse assunto em suas reuniões regulares no templo. Além disso, o Presidente Kimball ia com freqüência ao templo, principalmente aos sábados e domingos, quando podia ficar sozinho, para suplicar orientação. ‘Eu queria ter certeza’, indicou ele [ver “‘News’ Interviews Prophet”, Church News, 6 de janeiro de 1979, p. 4].

Em 1o de junho de 1978, o Presidente Kimball reuniu-se com seus conselheiros e os Doze e novamente trouxe à baila a possibilidade de conferir o sacerdócio aos irmãos dignos de todas as raças. Ele manifestou a esperança de que, de algum modo, viesse a receber uma resposta clara. O Élder Bruce R. McConkie, do Quórum dos Doze, relembra: ‘Nesse momento, o Presidente Kimball perguntou aos irmãos se desejavam externar seus sentimentos e pontos de vista a respeito do assunto em questão. Todos assim fizemos, de modo livre e fluente, por bastante tempo. Cada um declarou sua opinião e expressou o que sentia. Houve uma maravilhosa manifestação de união, concórdia e harmonia naquele conselho’ [Bruce R. McConkie, “The New Revelation on Priesthood”, Priesthood (1981), p. 27].

Depois de discutirem o assunto por duas horas, o Presidente Kimball pediu ao grupo que se unisse em oração formal e humildemente pediu para proferir a oração. Ele relembra:

‘Eu disse ao Senhor que se aquilo não fosse certo, que se Ele não quisesse que essa mudança ocorresse na Igreja, eu seria fiel a Sua vontade por todo o restante de minha vida e lutaria contra o mundo inteiro, se esse fosse Seu desejo.

(...) Mas essa revelação e certeza vieram a mim de modo tão claro que não havia como questioná-las.’ [“‘News’ Interviews Prophet”, p. 4]

O Presidente Gordon B. Hinckley estava nessa reunião histórica. Ele escreveu posteriormente: ‘Havia no recinto uma atmosfera sagrada e santificada. Para mim, era como se tivesse surgido uma conexão direta entre o trono celestial e o profeta de Deus que estava ajoelhado e suplicando ao lado de seus Irmãos. (...)

Todos os homens daquele círculo, pelo poder do Espírito Santo, receberam a mesma certeza. (...)

(...) Nenhum dos presentes àquela ocasião foi o mesmo depois. E tampouco a Igreja foi a mesma. (...)

Conseqüências sublimes e eternas para milhões de habitantes do mundo resultaram dessa manifestação. (...)

(...) Isso abriu vastas áreas do mundo para o ensino do evangelho eterno. Isso tornou possível que “todo homem (...) fale em nome de Deus, o Senhor”.

Temos motivos para regozijar-nos e louvar o Deus de nossa salvação por haver visto esse dia glorioso’ [“Priesthood Restoration”, Ensign, outubro de 1988, pp. 70–71]” (Church History in the Fulness of Times, p. 584).

A IGREJA CHOROU A PERDA DE UM GIGANTE

O Presidente Spencer W. Kimball mor- reu no dia 5 de novem- bro de 1985. Sob sua liderança, os membros da Igreja aceitaram o desafio de “alargar os passos” intensificando seu empenho na obra missionária, o trabalho do templo e todos os aspectos do evangelho. Ele serviu durante trinta anos como apóstolo antes de tornar se Presidente da Igreja. Aqueles que trabalharam a seu lado mal conseguiam acompanhar seu ritmo e admiravam-no por suas muitas qualidades. Ele estabelecia padrões elevados para si mesmo e para a Igreja. Seu lema “Faça-o” motivou todos a darem o máximo de si e não procrastinarem e desperdiçarem o tempo que poderia ser usado para a edificação do reino do Senhor.

Sua vida foi um testemunho de seu conselho: “Lembrem-se de que aqueles que chegaram a posições elevadas nem sempre o fizeram com facilidade”. (A Liahona, março de 1975, p. 33).