Pois a Todos Não São Dados Todos os Dons

Élder Paulo C. Loureiro
Dos Setenta

Em um clássico da Bossa Nova, o maestro Antonio Carlos Jobim escreveu que “no peito dos desafinados também bate um coração”. Talvez seja esse um lembrete de que devemos ser sensíveis com aqueles que têm dificuldades com talentos com os quais por ventura fomos ricamente abençoados. Devemos nos lembrar de que há uma multiplicidade de talentos que nos foram distribuídos para que pudéssemos abençoar as outras pessoas. A escritura nos diz que: “Pois a todos não são dados todos os dons; pois há muitos dons e a cada homem é dado um dom pelo Espírito de Deus. A alguns é dado um, a outros é dado outro, para que desse modo todos sejam beneficiados” (D&C 46:11–12).

Há talentos que são visíveis e que nos maravilham por sua beleza e originalidade. O dom de compor e de reproduzir boa música, de pintar um belo quadro, de tocar o coração e a mente com poemas e prosa inteligentemente elaborados, o dom de interpretação, de oratória e tantos mais. Pessoas que desenvolveram tais talentos merecem o reconhecimento, porém, também devemos lembrar e valorizar os talentos menos evidentes. Conheço pessoas de grande sensibilidade, que têm habilidades muito importantes, mas que são menos aparentes. Ouvir, lembrar, ser paciente, sorrir nos momentos difíceis, compadecer-se verdadeiramente pelo sofrimento alheio e tantos outros dons silentes facilmente podem passar despercebidos e desvalorizados. Assim como o mundo seria menos belo e agradável sem os dons visíveis das artes, ele seria inabitável sem esses dons silentes que revigoram e fortalecem nossa própria alma. Se nos esforçarmos um pouco vamos reconhecer em nossos amigos, familiares, companheiros de quóruns e classes talentos que antes não reconhecíamos como tal.

A irmã Carol Thomas disse: 
“Já consideraram a espiritualidade um talento? O Élder Bruce R. McConkie, do Quórum dos Doze Apóstolos, disse certa vez: “Acima de todos os talentos, (…) superior entre todas as investiduras — encontra-se o talento para a espiritualidade”.1 “Espiritualidade é aprender a escutar o Espírito e, então, deixar que Ele governe nossa vida.”2

Não se tratada de desvalorizar os talentos visíveis ou mesmo fazer apologia à falta de talento. Muito pelo contrário, talentos divinos nos são dados para magnificá-los por meio de muito esforço, estudo e dedicação. E os talentos visíveis, como o da música, são uma fonte de inspiração para tantas coisas no evangelho e na vida. Apenas gostaria de relembrar a todos de incluir na lista de elogios aquelas pessoas cujos talentos são menos aparentes, mas, nem por isso, menos importantes. 

Na próxima vez que encontrarmos uma pessoa menos talentosa nas artes em geral, tentemos reconhecer e elogiar outros talentos menos evidentes. Afinal, é bom relembrar “Que no peito dos desafinados, no fundo do peito bate calado, que no peito dos desafinados também bate um coração”.

Notas

1. The Millennial Messiah, 1982, p. 234
2. Carol B. Thomas, A Liahona, julho de 2001, p. 106