Quanto Vale uma Família Eterna?

Élder Carlos A. Godoy
Dos Setenta

 

Quanto mais velho eu fico, mais chego à conclusão de que os desafios fazem parte da vida. É difícil imaginar nosso progresso pessoal sem os testes que nos ajudam a sermos melhores, mais fortes, mais pacientes. Creio que um lugar onde isso acontece com mais frequência seja em nosso lar. Nossa família é uma bênção em nossa vida, mas isso não significa que não trarão alguma dor de cabeça. Na verdade, são nessas fases difíceis em nossos círculos familiares que temos a oportunidade de crescer com mais intensidade. O Élder Oaks disse em uma de suas mensagens: “A exaltação é uma experiência familiar eterna e nossas experiências familiares terrenas são a melhor maneira de nos preparamos para ela” (“O Desafio de Tornar-se”, A Liahona, janeiro de 2001, p. 41).

Com isso em mente, vale a pena pensarmos: “O quanto estou disposto a sacrificar para ter uma família eterna?” “Quantos desafios estou disposto a passar para merecer essa bênção?” Com certeza ela não virá sem um preço. Quanto vale uma família eterna? Creio que existem diferentes “preços a serem pagos” por esta bênção. Gostaria de comentar três situações que percebo serem as mais comuns:

1. Para algumas irmãs, talvez o preço a ser pago seja não ter uma família neste lado do véu.
Encontro muitas irmãs, mulheres eleitas, que não se casaram e estão à espera de um “príncipe encantado”. São moças fiéis e seriam excelentes esposas e mães. Assim como elas, existem outras que se casaram com alguém que parecia fiel, mas que acabou não honrando os convênios do templo. Sem dúvida elas merecem ter uma família eterna e terão, se permanecerem fiéis ao evangelho até o fim. O Élder Scott disse uma vez: “As irmãs fiéis que não conseguirem formar uma família nesta vida, sem dúvida terão essa oportunidade do outro lado do véu” (Seminário de Presidentes de Missão, 1998). Que promessa reconfortante! Ao mesmo tempo, são exigidos dessas irmãs alguns sacrifícios que só elas sabem quão difíceis eles são. Será que vale a pena esperar? Não seria mais fácil somente ter uma família aqui, sem os convênios do templo, mas pelo menos ter uma família? É um grande risco. Algumas irmãs trilharam esse caminho e não voltaram. Ganharam uma família nesta vida e a perderam para a eternidade. Essa é uma decisão que deve ser muito bem avaliada. Ficará mais fácil decidir se tivermos em nossa mente uma visão eterna de suas consequências. Para casarmos com a pessoa certa, precisamos ter a coragem de não casar com a pessoa errada. Quanto vale uma família eterna?

2. Para alguns casais, talvez o preço a ser pago seja o arrependimento e o perdão.
Não é incomum encontrarmos casais com dificuldades em seu casamento. Afinal de contas, são duas vidas que precisam ser ajustadas a uma nova realidade. Creio que não existem casais que, em algum momento ou outro, não tenham passado por situações que exigiram algum sacrifício. De um dos lados ou dos dois ao mesmo tempo. Uma coisa são as dificuldades com os mandamentos, outra são as dificuldades no relacionamento. A primeira situação sem dúvida é mais grave, enquanto a segunda, apesar de difícil, provavelmente não envolva quebra de convênios.

O que fazer então para salvar essa família eterna em potencial? No documento A Família: Proclamação ao Mundo, encontramos: “O casamento e a família bem-sucedidos são estabelecidos e mantidos sob os princípios da fé, da oração, do arrependimento, do perdão (…)”. O Presidente Kimball costumava dizer que essas duas palavras, arrependimento e perdão, salvariam muitos casamentos. Para tudo melhorar, provavelmente o marido ou a esposa, ou os dois, precisam se arrepender de algo e/ou perdoar algo que o outro tenha feito. Quando isso é aplicado, casamentos são mantidos e relacionamentos mudados. É fácil? Não, certamente não é, mas, quanto vale uma família eterna?


3. Para alguns pais, talvez o preço a ser pago seja a perseverança e o amor incondicional.
“Filho dura!” Esta é uma expressão usada pelo Élder Mazzagardi algumas vezes, em tom de brincadeira, lembrando-nos de que nossos filhos, por mais velhos que sejam, por mais experientes na vida ou no evangelho, ainda nos trarão preocupações. Alguns mais, outros menos, mas sem dúvidas, sempre estaremos atentos aos desafios que estarão passando na vida. Talvez o mais doloroso seja vê-los se afastando da verdade e correndo o risco de perderem sua exaltação. Como então minimizar essa possibilidade ou revertê-la, se isso vier a acontecer?

Lembro-me das palavras do Presidente Faust em um de seus últimos treinamentos às Autoridades Gerais. Ele compartilhou conosco o que tinha mantido sua família ativa por muitas gerações. Ele citou: noites familiares, orações familiares, estudo das escrituras em família, frequência ao templo e dízimo. Cada um desses itens, por sua profundidade, poderiam ser temas de outras mensagens, mas neste artigo fica apenas o convite para avaliação. Onde estamos bem e onde poderíamos melhorar como família? Não são tradições fáceis de serem implantadas. Principalmente para aqueles que são a primeira geração na Igreja, mas alguém precisa começar esse legado. Vamos deixar esse desafio para os nossos filhos ou netos? Sem dúvidas exigem disciplina e perseverança, mas quanto vale uma família eterna?

Aos que já têm alguns de seus filhos distantes da barra de ferro, vale lembrar-se de Enos ou Alma, o filho. Apesar de afastados da verdade, em algum momento de sua vida, voltaram. Como pai, sinto-me muito fortalecido com a experiência de Alma, o filho, que ouviu do anjo as palavras: “Eis que o Senhor ouviu as orações de seu povo e também as orações de seu servo Alma, que é teu pai; porque ele tem orado com muita fé a teu respeito, para que tu sejas levado a conhecer a verdade; portanto vim com o propósito de convencer-te do poder e autoridade de Deus, para que as orações de seus servos possam ser respondidas de acordo com sua fé” (Mosias 27:14; grifo do autor).

Não devemos nunca desistir, nunca. Mas não podemos nos esquecer das palavras do Élder Oaks: “Parte dessa visão é perceber que Deus deu aos Seus filhos o poder de escolha. Vai chegar a hora em que eles ficarão mais velhos e terão que fazer escolhas e ser responsáveis. É uma pena quando os pais carregam um fardo de culpa por toda decisão que os filhos tomam. Nós nunca, nunca desistimos. Somos responsáveis por ensinar os princípios corretos e fazer tudo o que pudermos com amor e persuasão. (…) Mas, em última análise, digo para os pais e avós adultos, continuem orando, continuem tentando, mas deixem de lado esse grande fardo de culpa. As pessoas que têm poder de escolha vão fazer escolhas erradas. Às vezes a única forma de certas pessoas aprenderem é fazendo uma escolha errada e vendo suas consequências. Depois, confiamos no incrível poder da Expiação do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Quase não existem pecados que podemos cometer na mortalidade que não possam ser perdoados, de acordo com os princípios corretos, pelo poder da Expiação do Senhor” (Reunião Mundial de Treinamento de Liderança, “Criar uma Posteridade Justa”, 9 de fevereiro de 2008, p. 21).

Quanto vale uma família eterna? Creio que nosso entendimento da grandeza dessa bênção ainda é limitado. Um dia, se formos fortes e fiéis em nossa jornada, estaremos como famílias na eternidade e veremos que todo o sacrifício valeu a pena. “Nenhuma cadeira vazia no Reino Celestial!” Esse é um sonho possível, mas tem o seu preço.