1990–1999
Confirmadas na Fé
October 1996


Confirmadas na Fé

Possuímos um conhecimento que falta a muitos outros, por isso temos sempre em mente que nosso trabalho não é dedicado a trivialidades nem diversões.

Alegres cantemos, pois, como diz o hino, não somos estranhas. Cantamos para expressar nossa fé em Deus. Esta noite, particularmente, são Suas filhas que cantam alegres, por saberem que o povo de Cristo irá paz gozar.

“E dos céus enviarei justiça; e da terra farei brotar a verdade para dar testemunho do Meu Unigénito (…) e farei que a justiça e a verdade van ram a terra (…) a fim de ajuntar Meus eleitos das quatro partes da terra em um lugar que prepararei (…) e se chamará Sião (…).” (Moisés 7:62)

Embora Sião, o lugar onde todos andam com Deus, ainda não esteja conosco, o caminho para Sião por meio da fé em Jesus Cristo está. Vivemos rodeados de provas concretas de que a justiça e a verdade estão na Terra e de que Cristo já veio fazer por nós o que não podemos fazer sozinhos, de acordo com a promessa das escrituras.

As mulheres da Sociedade de Socorro reunidas aqui hoje e organizadas em vários lugares dos quatro cantos da Terra são provas do fato de que a justiça e a verdade, por causa da em Jesus Cristo, estão varrendo o mundo. Nosso Salvador vai à frente e convida-nos a fazer convênios com Ele, convênios que nos ajudarão a encontrar nosso caminho. Em João 15:10, lemos:

“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor.”

A natureza recíproca de nosso relacionamento com Deus é algo verdadeiro e fundamental. Cristo faz Sua parte, e nós estamos aqui com o fim de aprendermos a fazer melhor a nossa. Por saber que Seu Pai O amava, e por ter correspondido a esse amor, Jesus ganhou força para cumprir todos os mandamentos que recebeu de Seu Pai. E a partir disso, há uma promessa que se torna nossa quando permanecemos em Cristo e permitimos que Suas palavras permaneçam em nós.

“Tenho-vos dito isto, para que o meu gozo permaneça em vós, e o vosso gozo seja completo. O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.” (João 15:11-12, grifo da autora)

Nosso Pai Celestial e Seu Filho esperam que dependamos do amor e da confiança uns dos outros, seguindo o padrão estabelecido por Eles. Temos a nossa disposição tudo o que precisamos para encontrar a força espiritual necessária.

Em Doutrina e Convênios, nós lemos: “A alguns é dado saber pelo Espírito Santo que Jesus Cristo é o Filho de Deus, e que foi crucificado pelos pecados do mundo. A outros é dado crer em Suas palavras, para que também possam ter a vida eterna se permanecerem fiéis.” (D&C 46:13-14)

Temos, então, a promessa de crescimento espiritual quando acreditamos nas palavras daqueles que sabem, daqueles cuja fé tem produzido a capacidade de perseverar e seguir em frente. Fé é poder individual que nos dá a capacidade de realização. Muitas de nós temos visto exemplos dessa fé em nossa vida, mas muitas vezes os exemplos nos passam despercebidos. Em 1839, Mary Fielding Smith, mulher de Hyrum Smith, escreveu uma carta a seu irmão, Joseph Fielding, que está em poder da igreja. A carta mostra com clareza a natureza recíproca de nosso relacionamento uns com os outros e com Deus, exatamente como as escrituras nos ensinam.

“Suponho que já saiba que meu querido marido está preso, juntamente com seu irmão Joseph, Élder Rigdon e outros. Já faz seis meses que não os vemos, e acho que ninguém sofreu mais com essas prisões do que eu. Fui deixada numa situação que exigiu toda a coragem e boa vontade que eu possuía. Meu marido foi-me tirado por uma força armada, numa época em que eu precisava, em especial, do cuidado e atenção dele. Em vez disso, restou-me a inesperada responsabilidade de cuidar de uma família numerosa, e isso pouco antes de ganhar meu pequeno Joseph F. Não muito tempo após seu nascimento, fui acometida de forte gripe, acompanhada de calafrios e febre. Tudo isso, somado à angústia que precisei suportar, ameaçou levar-me às portas da morte. Fiquei pelo menos quatro meses completamente incapacitada de cuidar de meu filho ou de mim mesma, mas o Senhor foi misericordioso e fez com que minha querida irmã pudesse ficar comigo. Seu bebê tinha cinco meses quando o meu nasceu, e ela teve força para amamentar os dois.

Você também já sabe que fomos todos expulsos de nossas casas e do estado (Missouri). Isso aconteceu durante o tempo em que eu estava doente e tive que percorrer mais de trezentos quilômetros, a maior parte do tempo numa cama. Sofri muito nessa viagem, mas três ou quatro semanas após chegarmos a Illinois, comecei a melhorar, e minha saúde agora já está tão boa quanto antes. ( … ) Estamos vivendo em Commerce, à margem do grande Rio Mississipi. A localização é muito agradável, você gostaria de vê-la; não sei até quando a desfrutaremos, mas o Senhor sabe o que é melhor para nós. Não me importa muito onde eu esteja, desde que consiga manter a mente fixa em Deus, pois, como você sabe, nisso está a verdadeira paz. Acredito que o Senhor esteja controlando tudo para o nosso bem. Acho que nossos inimigos olham para nós com espanto e frustração.”1 [Citado em Carol Cornwall Madsen, In Their Own Words: Women and the Story of Nauvoo (Em Suas Próprias Palavras: Mulheres e a História de Nauvoo) 1994, pp. 98-99]

Mary Fielding Smith usou todos os recursos que lhe restavam para suportar os acontecimentos brutais de seu dia-a-dia. Sua carta emocionante e bem escrita pode ser rara, mas sua experiência com Deus não o é. Hoje, onde quer que eu vá visitar a Igreja, vejo dignidade semelhante em mulheres e homens cujas provações são diferentes, mas que exigem coragem e dignidade semelhantes.

Deus tem um carinho tão grande por nós que nos forneceu, por revelação, não só os meios para a nossa salvação, mas também as maneiras como podemos ajudar-nos uns aos outros a enfrentar as dificuldades dessa salvação. A organização que o Senhor estabeleceu para as mulheres existe para levar consolo às pessoas que precisam de nós. Um trabalho dessa magnitude exige nossa compreensão de que “para Deus, todas as coisa são espirituais”. (Ver D&C 29:34) Nós, mulheres da Igreja, possuímos um conhecimento que falta a muitos outros, por isso temos sempre em mente que nosso trabalho não é dedicado a trivialidades nem diversões. Somos todas abençoadas com as verdades que cantamos no hino “Sou Um Filho de Deus” (Hinos n° 193), mas precisamos ter no coração a lembrança de que nossas experiências aqui exigem que sejamos adultas de Deus. De fato, uma escritura comprova a maturidade exigida de nós: “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.” (I Corindos 13:11) Não estamos procurando perder o frescor das crianças com sua sede de aprender; estamos procurando adquirir firmeza e coragem para agir de acordo com convicções arduamente conquistadas.

Temos a oportunidade de servir o próximo numa época em que muitos dentre nós se sentem solitários, são viciados ou maltratados ou estão abandonados, pessoas que estão sinceramente buscando ou já encontraram a fé. Os procedimentos que a Sociedade de Socorro usa para ensinar e edificar foram estabelecidos há muito tempo, mas eles não funcionariam sem os dons e as ofertas das mulheres dia após dia. Nossos perseguidores externos podem ser muito diferentes dos de Mary Fielding Smith, mas são reais. Muitas pessoas sentem-se isoladas, tentando sobreviver a uma avalanche de pressões de todo tipo. Muitos lamentam a perda de ligação com outras pessoas ou a falta de metas para o futuro. Esses sentimentos, na verdade todas as tribulações, são comuns a todos os seres humanos, mas descobrimos que existem antídotos quando desenvolvemos nossa fé como indivíduos e como grupo e a demonstramos por meio de ações.

Este ano, fiquei muito emocionada ao participar de uma reunião em Lagos, Nigéria, num edifício de paredes nuas de concreto e um pesado e plano telhado de zinco. As líderes da Sociedade de Socorro e seus consultores do sacerdócio haviam estado em reunião no local por mais de duas horas. Trabalháramos juntos a fim de determinarmos como tornar mais eficazes seus importantes chamados, como edificar sua fé e como ajudá-los a vencer as dificuldades que enfrentavam naquela grande cidade.

Quando terminamos o hino de encerramento e dissemos Amém a uma comovente oração, o estrondo de um trovão ressoou pelo recinto. Era chuva. O aguaceiro que começou a cair sobre o telhado de zinco tornou impossível quaisquer despedidas. Logo a enxurrada estava alcançando a porta. Nossas reuniões haviam sido marcadas para a parte da tarde, de modo a permitir que todos voltassem para casa antes de escurecer. Naquele momento, sentados e mudos por causa do barulho ensurdecedor, era óbvio que eles não só teriam que enfrentar os perigos da escuridão, como estariam ensopados quando chegassem em casa. Pensei em Alma, quando passava por uma de suas tribulações (Ver Alma 8:14-15) e então me lembrei da bênção que ele recebeu. De repente, percebi uma semelhança entre a situação de Alma em Amónia e a dos santos de Lagos, na Nigéria. Um anjo disse a Alma:

“(…) Levanta (…) a cabeça e alegra-te (…) porque foste fiel aos mandamentos de Deus desde o momento em que recebeste dele a primeira mensagem.” (Alma 8:15)

Havia pessoas naquela sala que estavam, como Alma, ensinando e ajudando a salvar outras pessoas por meio do poder da fé. Como a chuva não parava, eles levantaram-se um por um, ou dois ou três de cada vez. Abraçamo-nos ou apertamo-nos as mãos solenemente e eles se foram. Haviam recebido a confirmação de que o poder inigualável de Deus, Sua misericórdia e longanimidade, evitariam que eles fossem eliminados e arrastados “ao abismo da miséria e angústia sem fim”. (Ver Helamã 5:12) Haviam renovado a coragem para enfrentar, com esperança, sua jornada na terra e seu futuro eterno. Eles também me deram coragem.

Testifico que pertencemos a Deus, pois Ele é nosso Criador. A Expiação de Seu Filho garante nossa vida eterna, tendo Ele pago um alto preço por amar-nos muito. Sei que essas coisas são verdadeiras. Em nome de Jesus Cristo. Amém.